Minhas leituras preferidas de 2018

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A inteligência e o cadafalso – Albert Camus (Ed. Record)

O ultimo terço deste ano foi bem difícil para quem lida com arte e cultura (ou quem tenha um mínimo de razoabilidade). Em certo ponto, meu abatimento chegou a tirar o ânimo de ler ou escrever, o que vi acontecer com muitos amigos também. Esse livro do Camus foi o que me tirou do atoleiro. Um compilado de ensaios e textos críticos sobre literatura, mas que vão muito além disso. Camus é um dos meus escritores e pensadores preferidos e aqui, passional como nunca, ele reafirma suas crenças na beleza, na humanidade e na arte. Há passagens dignas de chorar, que me comoveram e me reconectaram ao meu centro. Foi, sem dúvida, minha leitura mais importante do ano. Se você está a fim de “curar o pão”, sugiro dar uma olhada nele.

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Os meus sentimentos – Dulce Maria Cardoso (Ed. Tinta da China)

Todo ano, um(a) autor(a) passa de “não li nada” a “devorei tudo” bem rápido. Dulce Maria Cardoso foi minha diva de 2018 nessa categoria. Comecei com alguns contos de “Tudo são histórias de amor” (outro livraço dela) e passei para esse romance, que me deixou de queixo caído. Em cada livro ela adota mudanças de estilo bem grandes e “Os meus sentimentos” é uma espécie de prosa-poética-não-linear-turbinada que lembra um pouco Antônio Lobo Antunes. Mas, cá entre nós, gosto mais dela do que dele. E isso não é dizer pouco.

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Pequena música – Adriana Lisboa (Ed. Iluminuras)

Adriana Lisboa é outra das minhas escritoras preferidas, frequentadora assídua das minhas listas de favoritos. “Pequena música” é o segundo livro de poemas dela e, se o primeiro já é bom, esse representa um salto de qualidade admirável. A elegância dela com as palavras – já presente na prosa – aqui alcança outro status, pela própria natureza mais autônoma (e potencial) que as palavras costumam ter na poesia. Adriana consegue, como poucos, se utilizar do mundo como paleta para dar pinceladas precisas no universo particular. Livro lindo à beça.

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Entre as mãos – Juliana Leite (Ed. Record)

Juro que não o coloco aqui por camaradagem de vencedores do Prêmio SESC. “Entre as mãos” é um romance diferenciado e, bem, a essa altura já figurou em mais listas do que o necessário para atestar que não estou fazendo nenhum favor em colocá-lo entre as melhores leituras do ano. A partir da história de uma tecelã que sofre um acidente grave e precisa se reconstruir, Juliana cria um romance que é, ao mesmo tempo, a experiência de recomposição e de tratar o texto como uma espécie de tecelagem em progresso. Se você está disposto a algo fora dos modelos mais comuns, sugiro a leitura desse livro. E a releitura, para descobrir mais e mais elementos difíceis de sacar à primeira vista.

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Roupas sujas – Leonardo Brasiliense

Fiz parte do júri inicial do Prêmio São Paulo de Literatura deste ano e “Roupas sujas”, bem como os próximos dois livros da lista, conheci em meio aos inscritos que tive de ler. E foram os únicos que, depois de cumprida a missão, comprei novos exemplares, para poder relê-los com calma. O romance de Leonardo Brasiliense foi um grande surpresa. Como um livro tão bom, e publicado por uma editora grande, não foi mais falado? Inacreditável. “Roupas sujas” começa com a história de uma família de colonos do sul, que atravessa diversas dificuldades, e lembra um pouco “Tempo de espalhar pedras”, do Estevão Azevedo, ou mesmo “Lavoura arcaica”, do Raduan Nassar, contado por uma criança. Histórias de recantos meio atemporais do Brasil. Depois, muda-se a narradora para a irmã do protagonista anterior, já adulta e com família formada, relatando seus dramas de classe média na cidade grande. Quer mais? O último capítulo é narrado por outro irmão e tem um final bem instigante. É um belo livro, conversei com bastante gente que se espantou como eu ao conhecê-lo.

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Pai, pai – João Silvério Trevisan (Ed. Alfaguara)

Outro que li como jurado, “Pai, pai” foi minha grande decepção com os prêmios literários de 2018. Não consigo entender como esse livro não foi o vencedor de nenhum deles, quando é, sem dúvidas, um dos grandes romances brasileiros lançados ano passado. Escrevi sobre ele na minha coluna na São Paulo Review (você pode ler clicando AQUI) e é uma dessas peças raras da autoficção em que, mais do que contar certos aspectos da própria vida, escreve-se sobre um país, sobre a história de quase todos nós e sobre a própria literatura. Livro forte, forte. TINHA que ter ganhado prêmios.

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O enterro do lobo branco – Márcia Barbieri (Ed. Patuá)

Mais uma gratíssima surpresa que tive ao ler os inscritos no Prêmio SP. “O enterro do lobo branco”, da Márcia Barbieri, é outro romance de prosa poética que traz estranhamentos e imagens poderosos. Se você é de grifar frases boas nos livros, vai gastar bastante tinta aqui. É até difícil (ou insuficiente) dizer sobre o que é a história, já que a linguagem é o grande barato aqui. Mas pode-se dizer que temos um narrador masculino, obcecado por sexo e mulheres, que comete um crime e é preso, espancado, internado em um hospital e passa por outras desventuras, sempre em tom delirante. Barbieri trafega das imagens oníricas mais belas às escatologias mais bravas, mantendo o prumo de um romance que também merece muita atenção.

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