A frase sobre nocaute, do Cortázar, não trata de dar porrada no leitor (aliás, ela nem é do Cortázar)

De 9 a cada 10 vezes em que se fala de contos, ao menos aqui no Brasil, a menção vem junto com “aquela famosa frase do Cortázar”, a qual compara o romance a uma luta de boxe vencida por pontos e o conto a uma vencida por nocaute.

Até aí, sem problemas. De fato, o escritor popularizou essa citação quando a apresentou em seu texto, derivado de uma palestra, Alguns aspectos do conto. No Brasil, ele foi publicado na coletânea Valise de Cronópio, pela Editora Perspectiva, edição que utilizei como referência aqui. Em primeiro lugar, Cortázar esclarece que a tal comparação não é dele, vem de “Um escritor argentino, muito amigo do boxe” (p. 152) e as palavras são basicamente essas que todos repetem. O problema que quero discutir é o sentido da comparação, o qual parece ter escapado a muita gente.

Acho que todas as vezes que vi essa analogia ser replicada, era como se o significado dela fosse de que, nos contos, o escritor precisa dar uma porrada no leitor. Colocar alguma frase, cena ou reviravolta que equivalesse ao tal nocaute. Não foi isso que Cortázar quis dizer. Ele estava se referindo a uma espécie de concentração, de limites mais estritos para o desenrolar da história, dos contos em relação aos romances. Logo em seguida a apresentar a analogia, ele explica no texto:

É verdade, na medida em que o romance acumula progressivamente seus efeitos no leitor, enquanto que um bom conto é incisivo, mordente, sem trégua, desde as primeiras páginas. Não se entenda isso demasiado literalmente, porque o bom contista é um boxeador muito astuto, e muitos dos seus golpes iniciais podem parecer pouco eficazes quando, na realidade, estão minando já as resistências mais sólidas do adversário. […] O contista sabe que não pode agir acumulativamente, que não tem o tempo por aliado […] (p. 152)

Fica claro que a diferença entre o conto e o romance, na fala de Cortázar, está mais no grande acúmulo de informações do qual o romance pode dispôr e a necessidade de concentração que há no conto, por sua breve extensão. Os termos são de “porrada” somente porque, oras, a analogia é com boxe, não com pescaria. Se o “nocaute” significasse uma porrada no leitor, então o romance também precisaria de porradas (não se ganha por pontos acariciando o adversário) e a denotação da diferença entre um e outro não faria sentido, porque nesse aspecto eles são iguais. A única diferença entre os golpes de um nocaute ou de uma vitória por pontos são, de novo, uma questão de concentração versus progressão: um dá porradas de forma acumulativa, outro dá uma porrada mais limitada e efetiva.

Antes que você venha dizer que isso pode ser somente uma interpretação minha, e que talvez Cortázar queria mesmo é dizer que o contista tem que dar um belo soco no leitor (metaforicamente falando, pelo amor de deus), podemos tentar tirar a prova dos nove. E se, em vez do boxe, ele tivesse usado outra analogia? Será que a ideia de “porrada” ainda estaria lá? Se fosse mesmo esse o sentido da metáfora, deveria estar preservado. A boa notícia é que nem precisamos ser hipotéticos, especularmos como seria essa outra comparação do finado. Ela já está no texto; aliás, é exposta antes e mais claramente do que a do boxe. Nela, Cortázar compara o romance e o conto ao cinema e a fotografia. Eu, pessoalmente, acho-a bem mais eficaz. Veja só:

[…] o romance e o conto se deixam comparar analogicamente com o cinema e a fotografia, na medida em que um filme é em princípio uma “ordem aberta”, romanesca, enquanto que uma fotografia bem realizada pressupõe uma justa limitação prévia, imposta em parte pelo reduzido campo que a câmera abrange e pela forma com que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação. […] Enquanto no cinema, como no romance, a captação dessa realidade mais ampla e multiforme é alcançada mediante o desenvolvimento de elementos parciais, acumulativos, que não excluem, por certo, uma síntese que dê o “clímax” da obra, numa fotografia ou num conto de grande qualidade se procede inversamente, isto é, o fotógrafo ou contista sentem necessidade de escolher e limitar uma imagem ou acontecimento que sejam significativos […]  (p. 151)

Logo em seguida, ele complementa com a história do boxe. Mas nessa analogia, entre cinema e fotografia, o sentido de acúmulo de informações versus a concentração fica bem mais claro, tira o ruído dos “golpes”. Se o sentido da frase fosse mesmo a porrada, ela estaria nessa primeira analogia também. Provavelmente, o trecho acabaria com o romancista fazendo o filme e o contista quebrando a câmera. É compreensível, no entanto, que essa primeira comparação não tenha ganhado a notoriedade da do boxe. Ela é longa, cheia de informações acumuladas… Não tem o tal “nocaute”.

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2 comentários sobre “A frase sobre nocaute, do Cortázar, não trata de dar porrada no leitor (aliás, ela nem é do Cortázar)

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