Minhas 5 leituras preferidas de 2017

Então, é aquela época do ano de novo. Listas pipocando por todos os lados e eu, como sempre, trago as minhas leituras preferidas deste ano. Não sou um profissional da crítica nem nada assim, então não é uma lista do tipo “melhores do ano”. Aliás, a maioria dos livros mencionados aqui não é lançamento deste ano. Esta é só a lista de um leitor que, como vocês, têm as leituras que lhe tocam mais e as que lhe tocam menos. Encarem essa postagem, por favor, simplesmente como a conversa de um amigo, daqueles que dizem: “Leia isso, acho que você vai gostar bastante”. É esse o espírito.

Nossa programação por esse ano provavelmente se encerra aqui, então, que 2018 seja um bom ano no âmbito particular para vocês (já que no plano coletivo a gente sabe que vai ser trágico). Abraços!

 

Os Malaquias.jpgOs malaquias – Andréa del Fuego

Eu devia ter lido esse livro muito antes (e, se ainda não leu, estendo a você o mesmo comentário). Aconteceu mais de uma vez de eu perguntar para alguém – quando havia comentado ter lido – se Os malaquias era mesmo bom. Me falavam que gostaram, mas sempre faltando o entusiasmo que ele realmente merece. Esse livro não é “legal, sim” (com voz meio tímida), esse livro é BOM PRA CARALHO. É de chapar, impressionante como é bem escrito e cheio de surpresas interessantes na história. Eu fico feliz que o Prêmio Saramago tenha corrigido lá fora algumas das injustiças das premiações que aconteceram aqui. Os malaquias e Sinfonia em branco, da Adriana Lisboa, que não receberam prêmios aqui no Brasil são, disparados, dos melhores livros da literatura brasileira mais recente. É inaceitável não terem sido mais reconhecidos no país de origem, quando provavelmente serão nosso patrimônio desta época (A resistência, do Julián Fuks, o terceiro brasileiro premiado pelo Saramago, também é ótimo, não o mencionei junto aos anteriores porque foi reconhecido pelos prêmios aqui, com dois merecidos Jabutis). Voltando a Os malaquias: é um desses livros que não adianta muito contar a sinopse, porque o barato mesmo é a linguagem, a forma como a história é contada. Não estou falando de malabarismos técnicos, muito menos de academicismos, mas de fornecer liberdade e autonomia às palavras, às frases. Recriar sua sintaxe para tocar a sintaxe de um mundo que não existe, para que ela viva como vivem as personagens, para que lhes dê a textura do seu tecido tão diferente. Isso é lindo. Se você ainda não leu, corra. É um dos livros mais surpreendentes que li nos últimos tempos.

 

Em teu ventre – José Luís Peixoto14261_gg.jpg

O José Luís Peixoto é, hoje, um dos meus escritores preferidos. Se minha memória não me engana, todo ano entra um livro dele na minha lista de favoritos, e não é à toa, tampouco por forçação de barra de torcedor. Ainda não conhece o trabalho dele? Acho Em teu ventre um ótimo ponto de partida, seria minha indicação. Dos que li dele (quase todos), esse ficou com uma honrável medalha de prata na minha ordem de preferência, mas isso não é demérito nenhum: ele só perde para Cemitério de pianos, que é um dos livros que mais gosto na vida, contando tudo que já li (mas, por ser mais complexo, talvez não seja a melhor porta de entrada para todos). Em teu ventre parte do episódio das supostas aparições de Nossa Senhora em Fátima, para três crianças camponesas, a fim de criar uma história comovente e brutal, focada em mulheres e, em especial, mães. Não pense que precisa ser religioso para curtir, eu sou ateu, detesto papo de igreja, e adorei. Porque, obviamente, o barato está na escrita que-chega-a-dar-raiva-de-tão-boa do Peixoto, nos aspectos da cultura e dos afetos que o livro foca, e nas incríveis inserções de outras vozes na narrativa, incluindo a de um Deus que fala em forma de versículos bíblicos, dando declarações de amor maiores que o universo à mãe. Tem passagens de tirar o fôlego. Esse livro é potente, comovente e bonito até não poder mais. Se ainda não leu nada do José Luís Peixoto, leve esse para suas férias e depois me conte. Não tem erro.

 

flores.jpgFlores – Afonso Cruz

Outro português atual (eles estão com um dream team lá, pelo amor de deus). Afonso tem um estilo mais conciso e menos barroco do que o do Peixoto, mas é igualmente tocante e bem escrito. Aliás, a abertura desse livro é uma das melhores que já vi. Acho que nada do que eu poderia dizer sobre Flores mostraria melhor o quanto ele vale a pena ser lido, do que essas linhas iniciais. Saca só:

Estava junto aos escombros do meu pai, com os restos dos nossos sentimentos à deriva. o meu corpo ainda dizia o nome dele muito baixinho, como se fosse sangue a correr nas veias. As lágrimas não caíam, ficavam suspensas numa antecâmara qualquer do coração ou lá de que lugar é esse onde as lágrimas são laboriosamente fabricadas. A Clarisse estava ao meu lado. Estávamos de braço dado, ela tinha a cabeça encostada ao meu ombro.
Atrás dos meus óculos escuros via as pessoas no enterro, a Carla estava tão bonita, de preto, com a dor no rosto, os cabelos lisos e as coxas a sair do vestido curto, mas não podia pensar naquilo, era o enterro do pai, ainda por cima a Carla é minha prima direta. Os destroços da morte por todo o lado, nas caras das pessoas, nas recordações. A mãe gritou algumas vezes, Zé, Zé, Zé, era o nome do meu pai, e foi nessa altura que me caíram umas lágrimas, não tanto por ele, naquela serenidade de cadáver, mas pela dor da mãe, tão pungente e catártica, tão siciliana na sua forma de se manifestar, cada Zé que ela gritava era uma facada no ar, Zé, Zé, Zé.
O calor era tanto, o suor escorria-me pelas costas abaixo, não, não era suor, era a língua da morte a lamber-me a coluna de cima para baixo, a arrastar-me para o chão, a língua quente dessa estranha entidade que nos transforma em terra, que transforma tudo em terra. Sentia-lhe o hálito a flores, porque ela não fede como seria crível, tem o bafo das coroas de rosas e margaridas e gladíolos com que enfeitamos os caixões e mais tarde as campas. Cheira tudo a flores, o fim das coisas cheira a flores, não é a esgoto e a podre. Zé, Zé, Zé, gritava a mãe, e a morte a lamber-nos as costas, sem parar, com a ponta da língua muito fina a passar pelos corpos dos vivos, como quem toma um aperitivo.
E, enquanto o padre mandava o pó voltar ao pó, eu abençoava Deus com blasfêmias.

Uau.

 

A humilhação – Philip Rothroth.jpg

Eu não sou um grande leitor do Roth, conheço pouca coisa dele e já cheguei a largar um dos livros no meio. Li A humilhação por conta das pesquisas de referências para o romance no qual estou trabalhando e, rapaz, que boa surpresa. É um romance breve, mas muito forte, tratando de forma concisa – e afiada – alguns dos temas caros do autor: a velhice, a proximidade da morte, o sexo, as paixões e os afetos, as ruínas e pulsões de todas essas coisas. A humilhação narra a história de um velho e célebre  ator de teatro, que de repente se vê sem capacidade de atuar. “Perdi o talento”, é sua primeira frase. Convencido da anulação de si mesmo, ele se interna em uma clínica psiquiátrica, parece rumar para o abismo de forma irremediável. Então, envolve-se romântica e eroticamente com a jovem filha de um casal de antigos amigos. A espiral se reverte e ele é retomado pela vida, por outros conflitos vicejantes. Porém, Roth sabe que quando o abismo é irremediável, não há como contorná-lo por muito tempo. Livro para se agarrar à queda e não largar.

 

tetaA teta racional – Giovana Madalosso

Eu tinha ouvido falar desse livro – um dos vencedores do processo de seleção de originais da editora Grua – então peguei por curiosidade na livraria, só pra dar aquela conferida. No primeiro conto, já bateu: “Preciso arrumar uma poltrona e sentar pra ler isso aqui até o fim”. Terminei a primeira história – ótima, sobre uma maternidade recente e solo – engatei na próxima. Ao fim da segunda, já estava correndo para o caixa. Os contos de Giovana têm uma escrita muito límpida, com um humor fino e contundente, bem como um controle muito preciso das situações narradas. Além disso, o livro possui uma característica que sempre gosto em coletâneas de contos: unir uma variedade bem grande de personagens e temas, mas mantê-los bem próximos, como se amarrados por um fio invisível. Dá aquela sensação de “as histórias são muitas e são a mesma”. A precisão da autora também funciona muito bem – muito bem mesmo – no que tange ao olhar, na sua capacidade de entrar em temas espinhosos e passar por eles sem furos. O conto “Roleta russa”, por exemplo, fala sobre uma festa de tal tipo, aonde as pessoas vão para transar com todo mundo, sendo que alguma(s) delas têm o vírus HIV. No caso, a “bala na agulha” é uma travesti soropositiva que protagoniza a narrativa. Esse conto tinha que ser dado como lição de casa pros escritores do tipo “mamãe, quero parecer fodido e fodedor”, para eles perceberem que não basta colocar drogas, putaria e ambientes underground em uma história para ela ficar impactante, precisa fazer algo mais com essa cenografia toda. Precisa haver algum conflito, alguma tensão das boas, que faça baterem os sinos. Leiam e entenderão.

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