Breves anotações sobre uma viagem a Cuba

Fui para Havana, em Cuba, participar do festival Casa Tomada, na Casa de Las Américas. Claro que tinha muita curiosidade pelo país – assim como sei que muitas outras pessoas têm – e conhecê-lo mais de perto foi uma experiência e tanto. Achei que poderia escrever um texto aproveitável para falar sobre a ilha, mais do que contar sobre o Casa tomada (que foi um festival muito legal e muito rico em trocas, mas acho que vocês estão mais curiosos sobre o país socialista, certo?) Eu não pretendo nesse texto dar nenhum veredito definitivo sobre a ilha, porque acho isso impossível. É um lugar de muita complexidade, com muitas contradições, e mesmo eu e minha esposa, que temos pensamentos parecidos e tivemos basicamente as mesmas experiências lá, não chegamos a um consenso. Sei que trechos desse texto vão desapontar tanto a quem acredita que o capitalismo é o caminho, a verdade e a vida, quanto a quem acha que Fidel e sua política são a oitava maravilha do mundo. Como tenho o time com o qual simpatizo mais – todo mundo tem o seu, não pretendo fingir neutralidade – mas não chego a ser o “sócio-torcedor”, da torcida organizada – que se vê na obrigação prévia de defender e atacar -, sinto-me razoavelmente confortável para ver traços antagônicos entre os diferentes lados de Cuba e do regime, bem como aceitá-los não como contraprova um do outro, mas como complementares de uma história complexa e desafiadora. Espero que ninguém pegue apenas um trecho desse largo texto e o use fora de contexto, pois quem tiver paciência de lê-lo inteiro vai perceber que só faz sentido como um todo, cheio de contradições e desafios a nosso senso anterior. Eu fui para lá com uma ideia sobre a ilha que tive de quebrar muitas vezes. Se vocês também estiverem dispostos a tal, podem aproveitar algo da leitura, mas se, acima de tudo, prezam o próprio bem-estar de estarem certos em suas pré-concepções, talvez nem devam perder seu tempo, não vai ser nada divertido. Por último, é claro, vale dizer: fui só um turista e um curioso lá, nada mais do que isso. Tenho alguma consciência de minhas limitações como observador, de que estou longe de poder determinar a verdade aqui. Não é minha intenção ser quem vai “esfregar a verdade sobre Cuba na sua cara”. São apenas minhas impressões pessoais, em geral, baseadas no que ouvi dos cubanos que vivem lá. Bem, aí vamos nós:

1. Eu havia lido bastante sobre Cuba, sua luta revolucionária contra o imperialismo norte-americano, etc., antes da viagem. Estava fascinado com tudo aquilo. Então, a primeira impressão, no táxi saindo do aeroporto, foi um tanto inesperada. O aparelho de DVD do jovem motorista exibia videoclipes de rappers e DJs norte-americanos; na tela, um desfile sem fim de carrões luxuosos, mulheres hiper-sensualizadas, festas milionárias e bandeiras agitadas dos EUA. Começou o clipe de um grupo cubano, fiquei curioso para ver, mas o motorista apertou o botão de passar adiante. De novo e de novo, até chegar a um clipe do Lil Wayne, no qual finalmente parou. Mais carrões, mulheres, festas de ricaços. No console do carro, só então vi, repousava sorridente um boneco do Mickey Mouse.

2. Chegamos em Havana às 2h da manhã. A paisagem urbana pode assustar bastante à primeira vista, principalmente a essa hora, para quem está habituado aos sinais de perigo do Brasil. Na região onde ficamos, praticamente não há iluminação pública, as ruas são todas escuras, e as casas são na maioria absoluta mansões enormes, dos anos 50, bastante deterioradas. Um cenário surreal, que inspira beleza e tragédia. O endereço que eu tinha, da casa onde ficaríamos hospedados, não coincidia, e fiquei com medo de o taxista nos largar ali, no meio daquele breu. Mas ele nos esperou, a dona da casa onde batemos por engano nos atendeu com toda gentileza e nos explicou que a nossa era a dos fundos. Lá, fomos recebidos com pura generosidade também, por outras duas senhoras de idade. Eram 2h da manhã.

3. O povo cubano é de uma hospitalidade, alegria e generosidade que deixa qualquer visitante comovido. É curioso como todo mundo que vi ir para lá – incluindo a mim – pareceu ficar com Cuba grudada em si por muito tempo depois. Os participantes do festival do qual participei, e que adicionei no Facebook, até hoje postam mil saudades. Cuba deixa marcas fundas em quem vai para lá, é estranho e bom.

4. As casas particulares, como a que ficamos, são muito populares como forma de hospedagem. A maioria são casarões expropriados pela Revolução, que passaram a ser habitados por famílias cubanas, agraciadas pelo governo. Estamos falando de mansões mesmo, dos anos 50, pertencentes antes aos ricaços norte-americanos (Cuba era um paraíso de veraneio, cassinos e putarias para os EUA). Com a progressiva abertura do regime a iniciativas privadas, em especial às relacionadas ao turismo – que se deu mais intensamente depois do fim da URSS e seu apoio financeiro a Cuba – Fidel permitiu que cubanos hospedassem turistas em suas casas, ganhassem em moeda de estrangeiros, e reformassem as residências para melhorarem as instalações. É uma ótima alternativa para os visitantes, considerando-se que os hotéis são apenas os antigos, luxuosos, e você não encontra nenhum com diária por menos de R$500,00. Uma casa sai, em média, R$150,00 com café da manhã. Precinho de Ibis para ficar em uma mansão. E tem um dos bônus mais interessantes: poder conhecer mais de perto a rotina de famílias cubanas, conversar bastante com eles.

IMG_0285.jpg

Quarto da casa onde ficamos hospedados. Precinho de Ibis, mas já com café da manhã. Pra ser justo, o chuveiro soltava menos água do que um bebedouro.

5. As ruas são completamente escuras, metem um certo medo com seus casarões deteriorados, mas como nos explicaram depois, pode-se andar tranquilamente mesmo à noite, pois a criminalidade é quase zero. Caminhamos muito a pé na escuridão, com câmeras penduradas no pescoço, celulares nas mãos para fazer fotos, e mochila cheia, sem problemas. Perguntei a um cubano sobre o segredo e o primeiro motivo não poderia ser outro: educação. O povo todo recebe educação de qualidade, o que contempla valores de cidadania também. Além disso, as punições são bastante severas e há muita vigilância. Não somente da polícia e dos militares – que já são muitos – mas também dos civis: os cubanos vivem muito em comunidade e se alguém do quarteirão resolve bancar o delinquente, todos vão saber e alguém vai denunciá-lo rapidinho.

6. Essa vida em comunidade é bem diferente do que estamos acostumados. Não só sobrevive, bem forte lá, o hábito de familiares e amigos ficarem conversando na porta de casa, mas também as pessoas entrarem sem cerimônia na casa umas das outras, como se fizessem parte da família. Na casa onde ficamos hospedados, a cada hora eu via alguém diferente pelos corredores, ou na cozinha, ou na sala. E essas pessoas te recebem da mesma maneira que os donos da casa, se eles não estiverem: abrem a porta, conversam com você, fazem um café se quiser. Além de ser estimulado pelas ideologias predominantes, o espírito de comunidade é fundamental em uma realidade dura como a dos cubanos. Quando perguntei a um deles como fazem para se virar economicamente, uma das primeiras coisas que ele mencionou foi a ajuda mútua. Há sempre um parente ou vizinho que está em condições melhores determinada época, então esse contribui com os outros, chama para almoçar em sua casa, etc. Além disso, há o recurso do mercado negro e da soma de trabalhos para complementar a renda, especialmente aqueles em que se lida com turistas, de onde vem mais dinheiro. Não há um cubano que não vá te dizer que a vida lá é muito dura, assim como não há um cubano que vá dizer que os outros que se lixem, ele está correndo atrás do que é dele.

IMG_0066.jpg

As ruas do bairro El vedado, em Havana. Parece difícil de acreditar, mas não é preciso ter medo.

7. O trabalho com turistas é atraente pela possibilidade de gorjetas (não controladas pelo governo), pela diferença de poder aquisitivo dos estrangeiros visitantes em relação aos locais, e por um fator bastante único: há duas moedas correntes em Cuba. Uma para os residentes (pesos cubanos, ou CUP) e outra para os turistas (pesos conversíveis, ou CUC), a única que usamos. Cada CUC equivale a US$1,00, por isso também são chamados de “dólares” pelos cubanos (outro apelido é “chavito”, não consegui descobrir o porquê). Cada CUC vale 25 CUP. Ou seja, se um turista dá um dólar de gorjeta, o cubano está recebendo 25 de sua moeda. Em alguns lugares, os produtos estão discriminados com a cotação nas duas moedas, mas a maioria dos que turistas frequentam só mostram os preços em CUC. Um turista, mesmo em Cuba, não penetra Cuba; é como se atravessasse sempre por um corredor translúcido por entre a ilha, nem o mesmo dinheiro a gente usa. É como um universo paralelo  que habitamos dentro do país. Quando se faz as contas, dá para entender porque a maioria dos estabelecimentos nem se dá ao trabalho de oferecer o preço aos cubanos: o salário mínimo lá gira em torno de US$25,00 mensais (não são poucos os que recebem apenas isso); um prato em um restaurante comum sai, em média, por US$8,00. Adicione a bebida e multiplique por dois, para um jantar em casal. Simplesmente inacessível para a maioria.

8. Falando nisso, um questionamento que é provável surgir, como provação: e os serviços lá? Muitos pensam que sem o estímulo da competitividade, ou da possibilidade de ascensão financeira e profissional, os serviços cairiam em uma letargia e se tornariam péssimos. Não é assim na prática. Para tentar ser justo, não vou contabilizar os serviços mais voltados para turistas que utilizamos, os quais têm a possibilidade de gorjetas, recebimento em “dólar”, etc. (Embora, para continuar sendo justo, devo dizer que algumas das maiores generosidades que recebemos nesses casos foi depois de já termos pagado e dado gorjeta, quando não haveria chance de mais recebimentos). Das casas de câmbio que fui, por exemplo, duas foram ótimas, uma ruim. Não é uma média muito diferente daqui do Brasil, ou de outros países capitalistas; com certeza não é pior. Os piores serviços que recebemos nessa viagem foram mesmo no Brasil e no Panamá. Adivinhem só, grandes defensores do “livre mercado” (se é que isso existe) e da meritocracia pura: a exploração a que a maioria dos empregados é exposta continuamente, a soma de desilusões exasperantes, a sensação de insignificância e falta de sentido, bem como a ausência de melhor estrutura educacional prévia, os deixam em uma letargia muito pior, com a sensação (não gratuita) de que não importa o que façam, não vão ter a ascensão que parece tão acessível a quem vem de outros círculos. Quem sempre teve para oferecer como capital pessoal uma boa aparência, articulação verbal bem trabalhada, contatos com pessoas de esferas mais privilegiadas, adequação aos modos esperados pelos grupos hegemônicos, etc. Enfim, quem nunca esteve, de verdade, nos níveis mais surrados do mercado de trabalho, para experimentar na pele. Qualquer pessoa que já necessitou trabalhar sob o mando de idiotas presunçosos sabe bem como é isso, mas quem sempre esteve do outro lado desse balcão tem dificuldade de perceber o próprio lugar e o dos outros.

9. Quanto à organização econômica da ilha, o que se vê, hoje, é uma espécie de esquizofrenia. O regime é socialista, claro, mas com a crescente abertura ao turismo e ao mercado que o atende, a internet e tudo mais, há um capitalismo de ocasião em desenvolvimento. Lojas com preços caros, táxis com preços e condições diferenciadas, galerias com aspecto de shopping center, restaurantes e bares turísticos, tudo isso divide espaço com empresas estatais (todas as agências turísticas, por exemplo, seguem esse padrão) e com o modo de vida dos locais, bem diferente do que experimenta o turista. Se você quer ir para Cuba para ver um lugar que não está tomado pelo capitalismo, é melhor apressar sua viagem. Já é um pouco chocante ver prateleiras de lojas abarrotadas de réplicas dos bonés da guerrilha, de souvenirs estampados com a imagem de Che Guevara ou de Fidel, com etiquetas de preço em dólar.

IMG_0838.jpg

Loja do aeroporto, uma das tantas que enfartariam Che Guevara, provavelmente.

10. Aliás, chama a atenção o quanto produtos e símbolos estrangeiros tomam conta do cenário hoje, em especial os estadunidenses. Esqueça aquela história de que cubanos vão pedir para ficar com sua escova de dentes, seus fones de ouvido, etc. Lá, você vê a maioria dos adolescentes andando pela rua com fones melhores que o seu. E a bandeira dos Estados Unidos agora estampa a roupa de muitos, bem como acessórios dos carros, etc. Acho que vi mais símbolos norte-americanos lá do que costumo ver aqui, e isso não é pouca coisa. Se antigamente era proibido ostentar a bandeira do inimigo, hoje ela é moda. Acho bem triste isso, porque, convenhamos, a idiocracia que vem na esteira do consumismo e imperialismo norte-americano é uma das piores barbáries do mundo hoje. Não que a proibição seja legal, claro, mas… Ver, por exemplo, uns garotos carregando caixas de som tocando aquelas músicas pop sem-vergonhas dos EUA, enquanto por perto toca uma banda maravilhosa de música cubana, é de chorar.

IMG_6092.jpg

Essa combinação de boina e camiseta, então, mataria o Che de novo.

11. Falando em bandas, uma das primeiras experiências em Havana foi das mais simbólicas do funcionamento do lugar. Entramos em um bar, para comer, e estava um grupo de pessoas tocando. Não parecia ser a apresentação ainda, era mais um clima de curtição. Depois, fui entendo: ainda iam começar um ensaio. Antes disso, no entanto, estavam se divertindo com os instrumentos e as músicas. A senhora que estava cantando Guantanamera e depois dançando com um senhor era, na verdade, a que cuidava do banheiro, cobrando a entrada (em todo banheiro de estabelecimento lá você tem que dar uma moeda para usar). Os músicos se divertiam à beça, às vezes trocando de instrumentos, até que começaram o ensaio de verdade. Passaram muitas vezes uma mesma convenção rítmica, que – acredite em mim, fiz faculdade de música por 6 anos – era bastante complexa, exigia profissionais bem preparados. No meio disso tudo, um turista da mesa ao nosso lado se levantou, foi oferecer cigarros ao pessoal da banda, que aceitou e o cumprimentou com muitos sinais de contentamento e afeição. Eis Havana.

12. As melhores coisas para um visitante de Cuba são as que entram pelos ouvidos. Conversar com os cubanos sobre o país é das atividades mais interessantes. Além de muito amigáveis, as pessoas em Cuba, em geral, têm obviamente muito a dizer sobre suas vidas, sua história e local. E a música cubana… ah, a música cubana. Nunca vi uma quantidade tão grande de pessoas bem preparadas tecnicamente, talentosas e alegres fazendo algo de beleza e valor inestimáveis, quanto os músicos cubanos. Vi alguns lá que deveriam estar nas maiores casas de show do mundo, verdadeiros ases de seus instrumentos. O ritmo, as harmonias e a execução deles unem níveis muito elevados do intelectual e do corpóreo, equação que raramente vemos fechar em outros contextos, como se o corpo e o intelecto fossem opostos. E os músicos tinham sempre alegria por fazer o que estavam fazendo, o que é a prova dos nove, como dizia o Oswald. Nem capitalismo, nem socialismo: onde a humanidade deu certo mesmo, cumpriu seu potencial, é na música cubana.

IMG_9960.jpg

Músicos cubanos: em cada restaurante ou bar, um grupo de cair o queixo.

13. Conversar com cubanos sobre Cuba, no entanto, não é nem de longe suficiente para esclarecer tudo sobre o país. Aliás, pode até confundir mais. Como me disse um deles: “Uns vão falar que isso é azul, outros vão falar que é amarelo. Daí, você vai pensar que ou são um bando de daltônicos ou estão mentindo para você”. Essa sensação é constante, mesmo quando você pesquisa materiais de outros países, falando de lá. Cuba é uma ilha cercada de contradições por todos os lados.

14. Outros programas interessantes e representativos de Cuba, para quem vai vistar a ilha, são o Museu da Revolução e o Museu de Belas Artes. Nesse último, é uma pena que não se possa tirar fotos lá dentro; vi grandes artistas e obras que depois busquei no Google e não achei quase nada, especialmente quanto a reproduções dos trabalhos. Esse confinamento dos artistas (e outros) à ilha é bastante doloroso, considerando a qualidade do que têm em mãos. O Museu da Revolução, como o nome diz, conta a história e expõe os objetos relativos à luta da guerrilha para derrubar Batista e o imperialismo ianque, a fim de instaurar o poder que veio a ser de Fidel Castro. Ele era muito inteligente no tocante à guerra simbólica, e dava muito valor a seu poder de influência. Não à toa, colocou o museu que enaltece a vitória dos revolucionários bem no prédio onde antes estava instalado o governo de Batista. Outra coisa que chama atenção no Museu: não há nada daquela escola textual de tentar inspirar neutralidade, os enunciados são categóricos, colocando o exército de Batista como “os criminosos”, “os covardes”, e outras ofensas, enquanto os membros da guerrilha são “os heróis”, só recebem elogios por suas atuações. Há, inclusive, um enorme quadro na entrada do Museu, impagável, com a imagem de Batista e dos presidentes norte-americanos das últimas décadas, intitulado “Canto dos cretinos”. Perguntei a um cubano, depois, se na escola o ensino de História era assim também. “Sim, bem categórico” – ele me confirmou. – “E não é uma boa ideia tentar discordar”.

IMG_0078.jpg

“Canto dos cretinos”, no Museu da Revolução.

15. Havana é impregnada de imagens e textos icônicos. É clara a intenção de inculcar ideais no povo, a todo momento. Você vê frases como “Socialismo ou morte” pintadas nos muros, trechos de discursos do Fidel em outdoors, para todos os lados. Creio que toda escola que vi tinha um busto de José Martí – um grande intelectual e herói da luta contra a colonização espanhola – na entrada. Retratos de Che, Fidel e Cienfuegos estão em todo lugar, além das frases célebres deles e outras mensagens. É impossível esquecer, por mais de três quarteirões, que você está em um país revolucionário. Atrás desses campeões de audiência, a imagem mais multiplicada é a do Vagabundo, do Chaplin.

16. É bom explicar melhor o conceito de Revolução, na acepção cubana. A forma como é entendida lá não é somente a do movimento de guerrilha que tirou Batista do governo em 1959. A Revolução não foi, a Revolução é. Representa todo o conjunto de processos históricos, organização política e socioeconômica, pressupostos morais e ideológicos, bem como todos os outros elementos que formam e constituem o regime, sua História e seus valores em Cuba. No jornal Granma – periódico publicado pelo governo – li a notícia, por exemplo, de que “a Revolução não vai deixar desamparados seus cidadãos”, quando falava do furacão Irma e das medidas do governo para cuidar dos estragos. Quem concorda com os valores e práticas do sistema instalado desde 1959 tem o pensamento chamado revolucionário. Qualquer discordância é taxada de contrarrevolucionária. Esse último termo já foi uma das piores ofensas que se poderia receber em Cuba.

17. Falando em furacão Irma, viajamos para Havana apenas poucos dias depois de sua passagem, que causou sérios danos. Na época, teve texto fofinho na internet falando sobre como os EUA cuidaram dos seus (unicamente dos seus, claro), mas falar sobre os outros países da América Latina não parece tão atraente para a maioria dos brasileiros, que se veem mais como compatriotas do país distante, visto nos filmes e séries, do que da região na qual estão de fato inseridos. Pois bem: Cuba teve um sistema de evacuação bastante eficaz, difícil de ser criticado, o qual também salvou a vida de incontáveis pessoas. Além disso, foram instaladas pelo governo diversas tendas pelas ruas, que vendiam alimentos para a população por um preço bem mais acessível. Vimos várias delas e também muitos trabalhadores já cuidando da limpeza dos detritos. As partes mais ameaçadas da cidade também estavam isoladas e bem fiscalizadas por guardas. Foi uma pena perder passeios pelo Malecón e até o Castillo del Morro, mas foi bom ver os cuidados com a população. E, claro, a proteção em Cuba não foi só para os cubanos, mas para qualquer pessoa que estivesse ali.

IMG_0428.jpg

Uma das tendas para auxiliar a população, depois do furacão Irma.

18. Quando eu via tantos carros dos anos 50 circulando – a maioria com ótima aparência e funcionamento – não conseguia deixar de pensar: é um extremo que talvez não seja muito bom pelo que representa, mas… por outro lado, pensava no quanto vivemos no outro extremo nada saudável, com a pressão de trocarmos de carro – e tantos outros bens de consumo – a cada ano ou curto intervalo de anos, por conta da desvalorização, obsolescência programada, pressão por status, etc., etc. Que vida maluca essa nossa, quanta criação de lixo e estresse e rivalidade, coisa mais insana. Tem que haver um ponto de equilíbrio aí no meio – eu não parava de pensar.

19. O uso de internet em Cuba não é muito simples; algumas instituições – e certos funcionários dentro delas – têm acesso em tempo integral, mas a maioria da população e os turistas têm que se virar da seguinte maneira: compra-se um cartão que vem com dois campos para se  raspar. Você raspa e vê um número de login e de senha. Pode usar essas chaves para acessar a rede em zonas específicas de wi-fi, oferecidas pela companhia estatal de telecomunicações: em geral praças, bares ou hotéis. Uma hora de internet custa o equivalente a US$2,00 e você pode dividir o tempo conforme quiser. Até onde sei, não há controle que vete o acesso a determinados sites; todo mundo lá usa Facebook, e-mail, normalmente, como aqui. É claro que se você quiser meter o pau no governo cubano na internet, você não vai ter exatamente tranquilidade para fazer isso. Acho que conhecemos alguns casos assim, para saber.

20. Há muitas sanções possíveis a quem desafia o regime de alguma forma, desde prisões até perseguições de outras ordens. Historicamente, já foi bem pior. Um cubano, depois de muita hesitação, me disse: “Pesquise o Projeto Varela” (eles não saem criticando o regime de imediato, é preciso circular muito a conversa antes de chegar lá). Segui a sugestão, vocês podem fazer o mesmo. Para resumir, a constituição cubana, depois da Revolução, dizia que se 10 mil cubanos demonstrassem descontentamento com o governo, ele teria de ser alterado. Oswaldo Payá e outros líderes do tal movimento conseguiram 25 mil assinaturas e apresentaram ao governo. A resposta? Uma mudança na constituição, da noite pro dia, substituindo a tal cláusula pela que instituía o socialismo irrevogavelmente. Essa alteração passou por votação do povo? Sim. A maioria votou de acordo? Sim, e é claro que você (assim como o governo cubano) poderia alegar, a partir daí, que isso prova ser essa a vontade do povo. Mas veja o que um cubano me disse a respeito: “É claro que eu votei apoiando, as autoridades vinham bater na porta da minha casa todo dia, perguntando se eu já tinha votado, com aquela cara de poucos amigos”. Os líderes do movimento foram presos, cada um por um motivo diferente, em penas bastante longas. Oswaldo Payá, o cabeça da coisa toda, morreu em um “acidente” de carro, o qual testemunhas descreveram como consequência de ter sido jogado para fora da pista por outro carro, deliberadamente. Se eu não aceito esse tipo de coisa feita pela ditadura brasileira contra Zuzu Angel, não vou contemporizar quando é feito por outro governo.

21. Entendo que tentar controlar a ilha, para que não seja engolida pelo capitalismo, pode demandar uma mão de ferro, mas… Até que ponto pode-se levar isso? É um grande dilema, para quem ousa pensar honestamente sobre o regime. Compreendo mesmo a concepção de que, para proteger as galinhas, às vezes o melhor é não lhes deixar livres para dar ouvidos à raposa, mas é bem complicado pagar esse preço, ainda mais quando ele não é escolha. O embargo e a oposição norte-americana acabaram se tornando, além de todo mal que causaram, uma carta coringa para Fidel, que acusava qualquer crítica a seu governo de tentativa imperialista de derrubar o socialismo em Cuba. Claro que em muitos casos se tratava disso mesmo, mas daí a não poder haver nenhuma crítica frontal e substancial – sem mediação – ao governo, não é nem de longe uma solução. Acho terrível, inaceitável, o tanto de cerceamento às liberdades que existiu todo esse tempo em Cuba. Claro, em países capitalistas há cerceamentos gigantescos também, mas não tão graníticos ou generalizados como lá. Eu não me sinto à vontade para defender com todo ímpeto algo que, no fundo, não gostaria de viver. Os cubanos não criticam o regime nem mesmo em uma conversa na rua, temerosos de que haja por perto algum vigia à paisana. Claro que vejo sempre o discurso de que “não, você tem liberdade sim, pode fazer”, mas é sempre como cobertura para uma ameaça oculta. Ironicamente, esse tipo de posição se assemelha muito à sordidez do convencimento liberalista aqui, por exemplo. “O funcionário pode negociar diretamente com o patrão”, “O pobre, se se esforçar, pode ser livre para conseguir o que quer”. Balela. Nenhuma liberdade existe sem as reais condições favoráveis para se concretizá-la.

22. “Mas o embargo norte-americano não tem grande culpa nisso tudo?”, perguntei a um cubano. Ele confirmou que sim, mas que não era o único problema. “Veja, as pessoas ligadas aos governo e os estrangeiros que vêm morar aqui têm carros novos, casas boas, toda comida e conforto. Ou seja, essas coisas chegam aqui, só não para nós, o povo”. Realmente, era visível essa divisão. No estacionamento do Museu da Revolução, só havia carros novos (absolutamente inacessíveis para a população em geral), os prédios do governo no bairro onde ficamos eram os únicos casarões reformados, com aspecto absolutamente renovado em meio aos deteriorados. Isso, para mim, foi o grande nó. Se a ideia é de igualdade, o que justificaria uma divisão tão profunda? O governo, e as pessoas ligadas a ele, formaram uma nova elite – em quase tudo semelhante à sua definição no sistema capitalista – dentro da sociedade, que nunca poderá alcançá-la. Eu acho lindos os valores da Revolução, bem como muitas de suas conquistas – o analfabetismo e a miséria foram praticamente erradicados de Cuba, entre outras coisas – mas, em muitos aspectos, ela se tornou, de outra forma, justamente o que combateu. Não sou o contrarrevolucionário aqui, a Revolução é que me parece ter se contaminado por um tanto de caráter contrarrevolucionário.

23. Não é de se estranhar que o que mais tenhamos ouvido lá sejam reclamações sobre o regime, sobre o rumo que as coisas tomaram e como estão hoje. Aquele espírito revolucionário, sobre o qual tanto li e vi em filmes? Não é tão fácil encontrar hoje, na rua. A maioria das pessoas, aparentemente, quer mudanças drásticas. O espírito revolucionário, sobre o qual eu tinha lido tanto, parece estar bem apagado nas pessoas que não estão ligadas a nenhum órgão do governo ou grupo mais engajado. Claro, encontrei bastante gente ligada à resistência, especialmente no meio intelectual e artístico, mas, para o bem ou para o mal, os cidadãos comuns parecem estar em outra. Especialmente entre os mais jovens, a mentalidade revolucionária parece bastante apagada. Eles não viveram a época dos mais velhos, não tiveram a experiência de ser mão de obra praticamente feudal, sem acesso a educação, saúde e moradia. De sentir falta dessas coisas e ter de conquistá-las. Provavelmente, têm essas coisas como garantidas e sentem falta de outras. A maioria dos que têm menos de 35 anos (e são parte significativa da população), cresceu e passou a maior parte da vida em uma ilha atravessada pela crise, depois de perder o apoio da URSS. Para agravar a situação, começaram a ver pela TV, internet e cinema, a imagem dos vizinhos ali de cima, possuindo tudo que lhes interessava: dinheiro, liberdade, luxos, etc. Sim, eles querem isso, estão fascinados. Mas não estarão esquecendo que tudo tem um preço? Desconfio que a maioria dos que não querem a Revolução hoje vão sentir falta dela depois, se se virem arrancados de suas casas pelos herdeiros dos antigos donos com suas procurações. Ou quando se perceberem com suas escolas públicas e hospitais sucateados. O capitalismo é bonitinho, mas ordinário. O que aparece nos filmes e videoclipes pop é só um lado da coisa, estão esquecendo do outro. São bem poucos aqueles que podem se dar banhos de champagne, a maioria tem que limpar o que escorre pro chão.

IMG_0348.jpg

Alguma coisa parece estar se apagando em Cuba.

24. Vivemos um exemplo prático de como essas imagens midiáticas podem ser ilusórias: certo dia, fomos à Playa de Santa María, uma praia linda, distante da cidade, bem típica do Caribe. Mar de água verde, cristalina, areia branca e macia, a perfeição na Terra. Na volta, um cara que estava sempre na casa me perguntou se tínhamos gostado. Respondi que adoramos, a praia era sensacional. Ele falou: “Não é bonita como as do Rio de Janeiro, né?” As novelas brasileiras fazem muito sucesso lá e tive dificuldade em convencê-lo de que o que ele via na TV não correspondia à realidade. Aliás, creio não tê-lo convencido de todo. Me pergunto se falo de Cuba com o mesmo nível de equívoco. Estarei eu aqui dizendo coisas tão disparatadas assim, quanto a opinião de que as praias do Rio são mais bonitas do que as caribenhas?

25. Toda a citada oposição ao regime me fez pensar bastante sobre o modo de vida dos cubanos. Eu, que estava tão impressionado com as conquistas da Revolução, por minhas leituras prévias, me vi com as noções em xeque. É preciso lembrar que há toda um convencimento colocado sobre as pessoas lá, desde a escola fundamental até a imprensa e os outdoors, mas ainda assim a maioria parece ser contra. É mais difícil alguém ser contra aquilo do qual tentaram lhe convencer a vida toda, do que o contrário, obviamente. Se seguissem apenas a “doutrinação” – como acontece com os EUA e suas balelas de “land of the free”, ou o Brasil e seus espectadores do Jornal Nacional – eu acharia normal, mas irem contra a ordem do dia é bastante significativo. Claro, pode-se argumentar, com um bocado de razão, que os valores dos EUA os doutrinam também, especialmente hoje, e eles têm ido a favor dessa maré. A imagem do Mickey Mouse sorrindo no táxi que nos recebeu me volta à mente.

26. Antes que você agite sua bandeirinha dos Estados Unidos aí, todo comovido com a galantaria neoliberal que passam no seu ouvido, sugiro também dar uma olhada em como eles lidaram com o embargo em Cuba. Uma sugestão especial é a Lei Helms-Burton, que dizia, entre outras coisas, que o dono de qualquer empresa privada do mundo, bem como seus parentes diretos, não poderiam ter vistos para entrar nos EUA, caso a empresa negociasse qualquer coisa com Cuba. Ou seja, se vendeu tampinha de garrafa para eles, seu filho de 40 anos não pode ir à Disneylândia com seus netos. Belo Estado liberal, que não interfere na vida privada das pessoas, não? Se é para falar de totalitarismo na relação entre Cuba e Estados Unidos, precisamos mencionar pelo menos dois. Não se deixe enganar pela falta de um uniforme oficial, os piores poderes costumam ser os menos visíveis.

IMG_0023.jpg

Não importa que o bonézinho made in China diga o contrário.

27. Aliás, é curioso pensar que os conservadores vivem atacando o regime em Cuba, mas lá mesmo se concretizam algumas das maiores fantasias deles. Claro que não estou falando da ampliação da educação de qualidade a todos – isso não é bem a tara desse pessoal – mas de medidas como as seguintes: os criminosos não têm descontos nas penas, se foram condenados a 20 anos, cumprem 20 anos. Além disso, têm que trabalhar na prisão, o que faz com que elas se tornem autossustentáveis, do ponto de vista econômico. O mesmo acontece com as escolas agrícolas, nas quais os alunos têm aulas de manhã e à tarde trabalham na lavoura, produzindo o que vai cobrir as despesas da escola. Estarei vendo sorrisinhos de simpatia ao regime nessas carinhas engravatadas?

28. Se prefere pensar que Cuba é um horror, argumentos não faltam. Leia, por exemplo, Antes de anoitecer, do Reinaldo Arenas. Ele foi um escritor cubano perseguido por ser homossexual e “contrarrevolucionário”. Nessa autobiografia, narra violências e perseguições terríveis, que não se reservaram somente aos homossexuais, e que deixariam aterrorizados qualquer pessoa com um senso mínimo de humanidade. Quer pensar que Cuba é maravilhosa? Também não faltam argumentos. Leia essa matéria, por exemplo, sobre o Projeto Tarara, um abrigo patrocinado pelo governo que forneceu moradia, educação e tratamento de primeira a crianças vítimas de Chernobyl: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-04-30-A-luz-que-cura-a-historia-dos-meninos-de-Chernobyl-que-se-foram-salvar-a-Cuba. Sabe de uma coisa? Você também pode pensar que Cuba tem o lado terrível e o lado maravilhoso, o nosso cérebro é capaz dessa complexidade, acredite.

IMG_0638.jpg

Prédios do Projeto Tarara, por onde passamos de carro.

29. É possível argumentar, diante de qualquer iniciativa humanitária de Cuba – e foram muitas – que se tratavam apenas de tentativas de melhorar a imagem do país diante do resto do mundo. Ok, ainda assim prefiro quem busque melhorar sua imagem internacional através de verdadeiras ajudas humanitárias – como o Projeto Tarara, que revolucionou, inclusive, muitas pesquisas médicas – do que os países que, por ajuda humanitária, entendem mandar exércitos sobre um território possuidor de petróleo, para levar paz com suas bombas.

30. Perguntei sobre racismo a dois cubanos diferentes, um negro e um branco, em contextos diversos. A resposta de ambos foi bastante similar: não há preconceito de cor significativo em Cuba (a maioria da população local é negra). Um preconceito mais proeminente é entre regiões diferentes do país, mais ou menos como, infelizmente, acontece aqui entre o Sul e o Nordeste. Mas a grande divisão mesmo, como outro já me havia dito, é entre as pessoas do alto escalão – as ligadas ao governo e os estrangeiros ricos – e o povo cubano como um todo. É muito triste perceber essa segregação, principalmente ao se conhecer a História e perceber como ela foi ainda maior em décadas anteriores. Os cubanos, depois da Revolução de 59, ficaram proibidos de entrar nos hotéis estrangeiros, por exemplo (onde pessoas ligadas ao governo se esbaldavam). Aliás, me contaram que os cubanos mais velhos, mesmo permitidos hoje nesses hotéis, não entram, pelo princípio do gato escaldado. Isso, pra mim, é de cortar o coração: a pessoa não se ver com liberdade para fazer nem mesmo o que tem liberdade de fazer. Cubanos também não podiam ir aos Cayos, ilhotas ao redor da ilha principal, onde estão as melhores praias. Tampouco podiam ter dólares americanos consigo. Se achassem uma nota de um dólar na rua, tinham que carregá-la longe de si, como um objeto mal-cheiroso, até o guarda mais próximo. Isso um cubano me contou, fazendo a mímica de quem carrega algo de braço esticado e seguro só pela ponta dos dedos.

31. Quanto ao machismo, Cuba marca mais um grande ponto negativo para a América Latina. Mesmo para os nossos padrões, o nível de assédio dos homens em cima das mulheres é impressionante, no mau sentido. Perguntamos a um taxista sobre os tais “piropos”, como eles chamam essas cantadas. Ele disse que isso lá é normal, que é uma prática comum, aceita, e que seria um modo comum de eles paquerarem. Contou ainda que, sim, muitos relacionamentos engatam a partir daí, que os piropos podem funcionar para os dois lados, como qualquer outra forma de flerte. Achei estranho, mas enfim, costumes podem mudar de cultura para cultura. Como a desconfiança foi maior, claro, pensei ser necessário perguntar para alguém do sexo feminino, que vivesse lá. A moça me explicou – óbvio – que não tem nada de normal no quanto os homens mexem com as mulheres, que é muito desagradável, e que ela nunca ouviu falar de alguma garota que gostou de ouvir uma cantada assim, respondendo e dando continuidade à coisa. Latinos… que vergonha.

32. Nem cuba libre, nem daiquiri, nem mojito: com o calor quase insuportável que faz em Havana, a melhor coisa para se tomar lá é mesmo a limonada frozen.

33. Tema bem controverso em Cuba é o sistema eleitoral. Vimos muito outdoors lá, falando sobre as eleições de 2018 e o quanto demonstravam o aspecto democrático do regime. Em pesquisas que fiz pela internet, para tentar entender, me deparei com as maiores contradições possíveis: alguns diziam ser o “sistema mais democrático do mundo”, outros se tratar de “mera cosmética de democracia” (nenhuma dessas opiniões veio de Cuba). Não vou me delongar aqui, explicando como a coisa toda funciona (se for pesquisar, tente colher o máximo de pontos de vista diferentes), mas basicamente há um governo central e há os representantes por regiões. Na teoria, é lindo: as pessoas votam nas lideranças regionais, que podem ser avaliadas periodicamente e removidas. Mas o governo central acaba sendo escolhido, no fim das contas, pelos regionais e… Bom, o Fidel governou a vida toda sem nunca precisar ter vencido algum concorrente. De novo, a escolha da manutenção dele no poder parece uma situação do tipo “funcionário negociando com o patrão”: claro, poderia ter havido outra pessoa escolhida no lugar dele, só que nunca haveria. Perguntei a um cubano sobre os tais representantes locais, que eles podiam eleger; qual era a relevância dessas pessoas. A resposta foi aquela bufada de “pfff, não são nada”.

IMG_0808.jpg

Um dos outdoors enaltecendo as eleições em Cuba.

34. Outra questão que pode ser bastante controversa, que sei dividir bastante as opiniões, mas, para mim, representa ponto positivo para Cuba: vi bem mais gatos lá do que cachorros.

35. É famosa a história de que quando o Papa foi visitar Cuba, Fidel mandou instalar um outdoor no caminho logo à saída do aeroporto, o qual dizia que naquela noite 200 milhões de crianças iam dormir na rua pelo mundo, nenhuma delas cubana. Infelizmente, não vi esse outdoor lá, creio não estar mais instalado. Felizmente, tampouco vi crianças na rua, de fato. Embora haja a grande divisão entre o povo e o alto escalão do governo, o povo realmente tem menos discrepâncias dentro do próprio escopo. Claro, elas existem – um cubano muito engraçado me disse, com a mão bem aberta: “Olhe para os dedos da sua mão, nem eles são iguais entre si!” – mas as desigualdades não são, nem de longe, como as daqui. Você praticamente não vê miséria; de todas as voltas a pé que demos por toda a cidade, incluindo o Centro, só vimos duas pessoas – mais velhas, uma delas deficiente física – pedindo dinheiro. Tampouco vi bêbados ou drogados, gente perdida pela rua. As crianças estavam todas na escola, ou em atividades como esportes, dança e passeios culturais. Os resultados disso são muitos e louváveis. Uma das coisas mais marcantes é não ver lá o que é tão frequente aqui: algumas pessoas altivas, achando-se os donos do mundo, enquanto outros mal erguem o rosto, mal pronunciam a voz, mal olham nos olhos. Você não vê gente massacrada, inclusive espiritualmente, como acontece tanto aqui. As pessoas parecem transparecer uma dignidade merecida. Você pode ser um turista cheio de dólares, ninguém ali é seu serviçal, ninguém demonstra se sentir abaixo de você ou de outros. Isso deveria ser tão óbvio, que nem deveria ser digno de nota. Mas com a situação vergonhosa que temos, aqui no Brasil, por exemplo, de tanta desigualdade, eu me vejo obrigado a apontar isso. Sim, sentindo bastante vergonha.

36. Isso tem muito a ver com a educação pública de qualidade, claro. Todo mundo com quem conversei lá – taxistas, garçons, músicos, vendedores – tinha uma articulação de ideias, vocábulo e conhecimento acima da média daqui (da média geral, incluindo todos os grupos sociais). Pergunte sobre um monumento pelo qual passa com o táxi e o motorista pode te explicar a História toda do que ele representa. Um dos taxistas me contou tudo sobre José Martí, por exemplo. Mais do que um conhecimento, ou uma erudição, o que acho importante nisso é que parece haver bem mais equilíbrio entre as pessoas e ideias.

37. Somando tudo isso que falei, mais o que já conheceu por aí, tente chegar a uma conclusão definitiva sobre Cuba. Difícil, né? Ir para lá ajuda a clarear um pouco as ideias, mas não é nem de longe suficiente para se traçar um diagnóstico, tarefa que me parece impossível. É o único país da América Latina que conseguiu quebrar as correntes coloniais e superar grande parte dos problemas vindo daí – fornecendo educação, moradia e saúde à população – por um lado; por outro, criou novas desigualdades e falta de oportunidades, bem como impôs sérias opressões sobre a população. É como dar algo muito valioso, mas cobrar o quanto custa. Difícil firmar a bússola da opinião em um contexto assim. Uma das pequenas conclusões a que posso chegar, depois de ter visitado Cuba e poder compará-la ao que vejo aqui no Brasil, é: melhor ser classe média aqui do que lá, não há dúvidas. Mas é melhor ser pobre em Cuba do que ser pobre no Brasil.

IMG_0779.jpg

 

 

Anúncios

2 comentários sobre “Breves anotações sobre uma viagem a Cuba

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s