A última viagem pelo Arte da Palavra: Piauí

Acabei de voltar da última viagem pelo projeto Arte da Palavra, do SESC. Eu e o Maurício de Almeida dessa vez passamos por 3 cidades do Piauí. Vou aproveitar esse encerramento para falar um pouco sobre o projeto como um todo, além da viagem mais recente.

No Piauí

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Cajuína servida na nossa primeira mesa, em Teresina.

Nossa programação contemplava 3 cidades dessa vez: Teresina, Floriano e Parnaíba. Começamos pela capital do estado, onde chegamos de avião. Depois, lendo algumas avaliações no TripAdvisor, eu e o Maurício morremos de rir com alguém que disse: “você já desce do avião em chamas”, porque, apesar do exagero, foi exatamente essa a sensação. Agravada pelo fato de eu estar de blusa, por conta do ar-condicionado do avião e do frio do qual tinha saído, em São Paulo. Brinquei que nossas viagens pelo Arte da Palavra foram uma escalada térmica (antes havíamos ido para Campo Grande, Corumbá, Palmas e Cuiabá) e realmente Teresina não deixou barato. O calor dos meses de setembro, outubro e novembro – apelidado por eles de B-R-O bró – é uma coisa acachapante. Bom, para um calor nortista merecer até um nome especial, já dá pra imaginar.

Em Teresina, fizemos um programa um pouco diferente: o Bate-papo no Sesc foi de manhã, às 9h, em plena terça-feira. Então, acabou sendo mais uma atividade “escolar”, já que levaram duas turmas de ensino médio para nos verem. Uma delas, de escola pública – depois ficamos sabendo – foi a pé da escola até o SESC, conduzida pelo professor. Sim, naquele sol. Ainda bem que existem professores com essa disposição ainda. Pelas perguntas e pelo interesse, imagino que possa ter sido uma manhã bem significativa para alguns. À tarde, fizemos um Bate-papo na UESPI, a Universidade Estadual do Piauí. Tivemos a presença de outro professor muito entusiasmado e que fez a diferença, mas é triste ver que essa força dos professores não é pareada pelo Estado. A situação material da universidade é bastante complicada e dá dó de ver. Será que um dia perceberemos de vez que a educação deveria ser nossa prioridade, que é a única base para nos colocar firmes de pé, sem continuarmos a repetir os desmoronamentos do país?

As duas conversas foram mediadas pelo jornalista Chagas Botelho, que mandou muito bem. Outra coisa legal foi conhecer ali a cajuína, que muitas vezes foi oferecida junto com a água nas mesas. Eu só tinha ouvido falar – pela música homônima do Caetano, especialmente – e é muito boa! Mas o que foi mais legal mesmo em Teresina foi poder encontra a Kátia e o Khalil, casal que já conhecíamos da Flip. Sim, eles saem do Piauí para ir a Paraty e, antes que você aposte nisso, nenhum deles tem um livro que está querendo publicar (risos). São gente finíssima, passamos ótimas horas juntos, os quatro.

Outro destaque para Teresina: as pichações. Há uma “cultura” de pichos ali que nunca vi em outro lugar. Não estou falando de grafitti (que em São Paulo a gente vê de monte e de alta qualidade), mas pichações mesmo. Há frases e nomes que se repetem por toda a cidade, revelando uma certa “autoria”, e algumas são muito bem sacadas, como essa da foto, que vi em mais de um muro:

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Pichação em Teresina

Na quarta-feira, partimos para Floriano. Foi o dia mais difícil que encaramos. Pegamos o ônibus para lá de manhã, na rodoviária, e à tarde e à noite já teríamos as mesas. Como íamos chegar no fim da manhã, seria apertado, mas razoável. O problema é que o ônibus quebrou e ficamos parados na estrada. Depois de consertado, quebrou de novo. Na segunda vez, a companhia resolveu mandar um ônibus novo para levar os passageiros. Adivinha? Esse ônibus também pifou no meio do caminho. Sim, três paradas por defeito entre uma cidade e outra. Resultado: chegamos 2 horas atrasados em Floriano. Almoçamos em um restaurante por kilo que já estava com aquele aspecto de fim de festa e só tivemos tempo de tomar um banho no hotel, antes de seguirmos para as duas mesas, praticamente uma em seguida à outra. Para quem acha que a vida de escritor é só glamour, eu deveria ter mandado uma foto minha e do Maurício naquele sol desértico, esperando consertarem nosso ônibus.

Quase desmarcamos a conversa da tarde na escola, por conta do aperto no horário, mas no fim foi bom que não o fizemos. O encontro com os alunos do ensino médio do colégio Impacto foi uma das conversas mais legais que tivemos. Era engraçado, porque a cada resposta que concluíamos, eles aplaudiam, como se isso fosse o esperado de um público de evento literário (risos). Como os professores tinham trabalhado os livros em aula, foi uma conversa cheia de perguntas, foi bem legal mesmo, uma das melhores. Ter leitores de verdade na plateia faz toda a diferença. Alguns alunos haviam preparado um número de dança, inspirado nos livros, e foi uma pena que não puderam realizá-lo, porque o palco onde aconteceu o evento era pequeno demais. À noite, falamos no SENAC, para uma maioria de alunos do curso de Letras e alguns escritores da cidade. Foi bem bacana também, com perguntas mais “técnicas” e “conceituais” (isso costuma acontecer em ambientes universitários). As duas conversas foram mediadas pelo Prof. Freitas, uma simpatia. Ele tinha fichas com muitas anotações e fiquei morrendo de vontade de tirar uma foto ao ver anotado no topo da primeira: “Rafael Gallo (cabeludo) e Maurício de Almeida (barbudo)”. Ha!

No dia seguinte, partimos rumo a Parnaíba, que é na outra ponta do estado. Subimos até Teresina, trocamos de carro ali e fomos até o litoral. Ficamos hospedados no Hotel SESC Praia, que é bem de frente a uma praia, e bem isolado. Foi onde tivemos mais tempo livre para aproveitar e onde, claro, a paisagem mais ajudava. Chegamos no fim da tarde de quinta-feira, tivemos mesa na sexta de manhã e à noite, e viajamos de volta somente no sábado, na hora do almoço.

A primeira mesa foi em um colégio de ensino médio e foi uma pena termos tido problemas de organização que nos fizeram começar a mesa atrasados, deixando pouco tempo de sobra para conversarmos com os alunos. À noite, o encontro foi no SESC Caixeiral, uma bela unidade, situada onde era uma antiga escola. Teve bastante público, especialmente das universidades locais, e foi uma conversa bem bacana. Tanto de manhã quanto à noite, contamos com a mediação de Ithalo Furtado, que também é escritor e vive em Parnaíba. Outra menção que não posso deixar de fazer é à Camila Maia, técnica do SESC que é um modelo de compromisso e eficiência. Não pudemos encontrá-la, infelizmente, porque ela teve um problema de saúde e passou a semana de licença médica. Ainda assim, foi quem – pelo Whatsapp – resolveu todos nossos problemas e nos acompanhou mais de perto, além de ter cuidado da divulgação e tudo mais que envolveu nossa viagem. Só ouvimos elogios dos outros em relação a ela, especialmente quando enaltecíamos as iniciativas na cidade, as coisas que davam tão certo. “Isso é Camila”, diziam, e acho admirável quando alguém realmente faz diferença ao redor de si, em seu espaço, e não somente cumpre o mínimo de sua função empregatícia (aliás, de licença médica, ela teria todo direito de se abster, mas, muito pelo contrário, foi nossa principal força ao longo da viagem). Admirável.

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Uma das belas salas do SESC Caixeiral, em Parnaíba.

O Fim?

Concluídas todas as viagens do Arte da Palavra, não posso deixar de agradecer – e muito – a todas as pessoas que fizeram parte desse projeto. É ótimo poder viajar e poder conversar sobre literatura, encontrar pessoas no público que muitas vezes nunca viram um escritor em sua frente, poder incentivar a leitura e a imaginação, a liberdade de se repensar e rever o mundo em que vivem. Esse projeto vai deixar muitas saudades em mim, será difícil me acostumar com a ideia de não mais fazer essas viagens ao lado do Maurício, que, além de ser um dos meus escritores preferidos, é também um dos meus melhores amigos. Nós nos divertimos demais, e as mesas funcionaram como uma banda afinada. Sempre pensamos que poderíamos fazer mesas bacanas juntos e tivemos a oportunidade sem preço, dessa vez, de participarmos de um pacotão delas, além das viagens juntos. Quando se passa tanto tempo com alguém assim, na estrada, a boa convivência faz uma diferença tremenda, e essas viagens foram inesquecíveis.

Inclusive porque pudemos também encontrarmos ou conhecermos muitas outras pessoas com quem tivemos ótimos momentos. Algumas das técnicas de literatura do SESC (se não estou engando, foram todas mulheres) nos receberam como amigos longevos, mais do que como mera parte de seu trabalho. Nos levaram para passear pelas cidades e para conhecer seus principais pontos turísticos e culturais, para jantar, para conhecer a história dos prédios onde se situavam os SESCs, seus projetos, e muito mais. Ficaram como amigas mesmo, que nos ajudaram em tudo. Um agradecimento muito especial a Thais e Francielle, de Campo Grande; Marcelle e Kleverton, de Corumbá; Geovana, de Palmas; Evelise e Juliana de Cuiabá; Camila e Lúcia, de Parnaíba; Vaneza, de Floriano e Roseane, de Teresina, e a todos os outros que nos acompanharam. Um agradecimento muito especial também ao Henrique e ao Fred, do SESC Departamento Nacional, que orquestraram a coisa toda e nos convidaram. E aos mediadores, de quem as conversas tanto dependem: Wellington, Lívia, Tácio, Divanize, Ithalo, Chagas e Freitas. Espero não ter esquecido de mencionar ninguém.

Por fim, quero dizer que foram coincidências muito felizes encontrarmos outros escritores nas cidades por onde passamos, realizando oficinas e outros projetos nos SESCs por onde passamos: Ana Paula Maia em Corumbá, Ninfa Parreiras em Campo Grande, Mário Rodrigues e Franklin Carvalho em Cuiabá. Essas coincidências de datas entre oficinas e bate-papos foi algo que fortaleceu o projeto e a que os SESCs poderiam se atentar, na hora de agendar seus eventos, porque o público de um pode enriquecer o de outro.

Espero que o Arte da Palavra ainda tenha muitos e muitos anos pela frente, para ser um daqueles projetos que a gente comemora aniversários de décadas, contando muitos autores e encontros em sua história. Tenho certeza de que se continuar assim, ainda teremos um escritor no futuro, segurando o microfone ali na frente e dizendo: “Um dos meus grandes estímulos foi quando eu estava aí, na plateia, e vi um escritor falando nesse mesmo projeto do Arte da Palavra em minha cidade, onde eu nem imaginava que poderia um dia escrever meus livros”.

É só o começo. É sempre o começo de algo.

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