Arte da Palavra em Palmas e Cuiabá (ou a viagem das semelhanças)

Eu e o Maurício de Almeida passamos a última semana viajando pelo Arte da Palavra, projeto do Sesc, e passamos por Palmas, no Tocantins, e Cuiabá, no Mato Grosso. Uma das primeiras perguntas que me fizeram, na internet, foi qual das duas cidades era mais quente. Demorou um pouco para chegar à conclusão, mas a experiência de sair para almoçar a pé – sob o sol do meio-dia – nas duas me fez pensar que dá empate técnico. Na verdade, o calor monstruoso me fez ter dificuldade de pensar até (risos).

Mas falando em semelhanças, mesmo eu e o Maurício já tendo conversado muito sobre nossos livros e o que guardam de similaridades entre si – seja nas nossas conversas pessoais ou em eventos literários – nunca as mesas atentaram tanto para o que o romance dele e o meu guardam de comum.

Nós escrevemos as versões finais dos dois em épocas parecidas, temos projetos um pouco similares na literatura e, claro, percebemos algumas das coincidências mais visíveis logo de cara. As capas em preto e branco, as histórias focadas em núcleos familiares, o trato de ausências e presenças nos elos afetivos, etc. Porém, nos deparamos com ainda outras coincidências, despercebidas até para nós.

Nas duas cidades, os moderadores iniciaram falando sobre as paridades dos nossos livros. Eu e o Maurício nos olhávamos, surpresos com ainda mais descobertas. Não tínhamos atentado tanto para o fato, por exemplo, de que nas duas histórias a casa era um elemento fundamental, quase uma personagem em si mesma. Mais do que isso, há duas casas em cada livro. As cidades não são nomeadas em nenhum tampouco. Mais do que isso, quando contávamos nossa biografia, também era quase como um repetir a história do outro, com poucas variações: dois garotos que tocavam em bandas, queriam escrever letras legais, começaram a ler literatura e se apaixonaram, cresceram para se tornarem funcionários públicos e autores revelados pelo Prêmio Sesc com um livro de contos, antes de lançar o segundo livro, um romance com todas essas semelhanças. Quase doppelgängers.

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Palmas e seus espaços esparsos

Voltando aos eventos: começamos nossa viagem em Palmas. Cidade planejada e recente (foi fundada em 1989, é mais nova do que eu), tem uma das paisagens mais curiosas que já conheci no país. As avenidas são largas, quase todas as quadras terminam em rotatórias e alguns prédios ficam muito espaçados uns dos outros, divididos por longos trechos de vegetação seca do cerrado. O contraste se apresenta nas praias. Sim, praias; montadas próximas a rios, com infra-estrutura típica do litoral: bares, quiosques, faixa de areia, guarda-sóis. Perguntei para várias pessoas se conheciam algum romance ambientado ali, porque é um cenário e tanto. Ninguém soube me informar exemplos, está aí algo novo a ser explorado.

Fizemos o bate-papo no SESC à noite, com mediação de Tácio Pimenta. O espaço era muito legal e nasceu justamente da falta de espaço. Sem uma sala especialmente dedicada e com um auditório que seria grande demais, a Geovana, responsável local, trouxe a solução perfeita: montou cadeiras em um dos ambientes mais elegantes que já vi em SESCs por aí, o foyer do teatro. É o espaço da foto de cabeçalho desse post (merece, né?) e ficou perfeito para nossa conversa. Aliás, o trabalho da Geovana é dos dignos de nota 10. A divulgação foi muito legal e fomos muito bem-assessorados por ela em nossa estada. Só elogios.

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Bate-papo no SESC de Palmas, com mediação de Tácio Pimenta

 

Em Cuiabá, fizemos uma conversa à tarde no IFMT, instituto educacional do governo federal, que oferece cursos técnicos para o nível médio, além de cursos de nível superior tecnológico. O público foi quase todo da garotada do ensino médio e que perguntas eles trouxeram! Algumas das questões mais instigantes com as quais nos deparamos em todo o projeto. Além do mais, esticaram o encontro até além do horário (fenômeno que já havia ocorrido no SESC em Palmas, mas eu não esperava de alunos que estavam ali meio “porque o professor levou”). Foi bem legal.

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Bate-papo no IFMT, em Cuiabá, com mediação de Divanize Carbonieri

À noite, fizemos uma mesa na UFMT, Universidade Federal do Mato Grosso, para os alunos da graduação e pós-graduação em Letras, bem como parte de público espontâneo, da cidade. Eu gosto bastante de visitar universidades, me sinto muito em casa. E ver os cartazes colados pelo prédio, as mensagens nas paredes, me fez sentir que, não importa onde esteja, universidades públicas serão sempre essa força familiar.

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Recado importante nos muros da UFMT

Nas duas mesas tivemos mediação da professora Divanize Carbonieri, que se saiu muito bem. Em Cuiabá, ainda demos sorte com outras coisas: ganhamos exemplares do livro “Deus de Caim”, do Ricardo Guilherme Dicke, um escritor mato-grossense falecido, que foi recomendado por Guimarães Rosa, Hilda Hilst e muitos outros colegas ainda vivos. Fazia tempo que estava pensando em ir atrás desse livro e, no fim, ele veio até mim (obrigado, Luiz Renato!). Também calhou de podermos assistir a uma mesa com Mário Rodrigues e Franklin Carvalho, vencedores do Prêmio SESC do ano passado, mediados por Henrique Rodrigues, no SESC Arsenal. Aliás, que prédio lindo esse (confesso que fiquei um pouco chateado de não termos tido nenhuma atividade nele). Um antigo arsenal de guerra, com aquela arquitetura estilo colonial, no qual se guarda um extenso jardim dentro e colunas de tijolos à vista. Outra coisa legal: o espaço é muito vivo, com um bar (terminávamos nossas noites lá, de tão agradável), música, crianças brincando, feiras de artesanato e comida. Eis uma vocação de espaços culturais que tem sido esquecida muitas vezes: ser um espaço para as pessoas habitarem, constante e alegremente. Por fim, agradeço à Juliana e a Evelise por nos acompanharem lá.

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SESC – Arsenal, em Cuiabá (fonte: http://mapadomato.info/guia/sesc-arsenal/)

 

 

 

 

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