Experiência no projeto Viagem Literária

Essa semana viajei pelo projeto Viagem Literária, uma iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, organizada pela SP Leituras há 10 anos. A proposta é tão simples quanto rica: levar escritores por uma pequena turnê em bibliotecas municipais de cidades do interior do estado, para dialogarmos com o público. Em muitas conversas no meio literário, quando o assunto envolve eventos literários, falamos sobre isso: seria bom poder aliar vários pontos de visita em uma única viagem, como fazem as bandas ou cantores, diluindo assim os custos das viagens e aumentando o raio de alcance dos contatos com o público. Em vez de gastarmos tempo e dinheiro para visitar somente uma cidade distante, já aproveitamos e passamos por várias em uma tacada só. Isso é ótimo.

Cada autor convidado para o Viagem Literária passa por 5 cidades diferentes, em uma determinada região do estado, fora da capital. O meu itinerário foi: Presidente Prudente, Tupã, Tarumã, Paraguaçu Paulista e Echaporã. A cada dia, fazemos um encontro, na Biblioteca Municipal das cidades, aberto ao público. Também é bom que esses municípios recebam uma programação ligada à literatura, porque em alguns quase nunca há esse tipo de atividade. Também é uma maneira de chamar atenção para as bibliotecas, convidando autores, moradores e autoridades a ter mais proximidade com elas. O Viagem Literária é dividido por módulos, oferecendo as modalidades de “Adulto” (da qual participei), “Infantojuvenil”, “Contação de histórias” e “Oficina de escrita criativa”. Mais informações, vocês podem ver no site do projeto, clicando AQUI.

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Centro Cultural Matarazzo, em Presidente Prudente

Eu comecei por Presidente Prudente, na segunda-feira. O motorista, Jackson, me buscou em casa, pegamos a estrada e fomos direto para a biblioteca. Ela fica em um espaço lindo, o Centro Cultural Matarazzo, onde era uma antiga fábrica da família. Está bem reformado, é um lugar super agradável e convidativo. Uma pena não ter um centro assim em cada cidade do país. Em Tarumã, minha parada de quarta-feira, há algo bem parecido, o CIEC, centro cultural onde, além da biblioteca, funcionam cursos de música, teatro, dança e muitas outras atividades culturais da cidade. E ele fica em uma antiga olaria, linda também. Algumas das salas foram instaladas dentro do que eram os antigos fornos de barro, é demais de legal.

A equipe da biblioteca de Prudente me recebeu super bem e logo começamos o encontro. Eu confesso que estava um pouco preocupado com a dinâmica dessas conversas, porque estou mais acostumado a ter um mediador comigo; alguém que conheça meu trabalho (ok, nem sempre) e faça as perguntas que direcionarão a conversa. Basta eu responder. Mas no Viagem Literária você fica sozinho, a princípio. Algumas cidades podem providenciar algum mediador e, pelo que conversei com outros escritores participantes, alguns deles tiveram essa ajuda em algumas ocasiões. Eu acabei fazendo os 5 encontros sozinho mesmo. Mas deu certo.

Começava falando da minha história, de como foi minha formação do ponto de vista criativo, até chegar na literatura. Então, falava um pouco sobre o que meus livros tratavam, apenas para nos situarmos. Abria para perguntas do público e aí cada dia as coisas tomavam rumos completamente diferentes, o que pode ser interessante.

É claro que, para um escritor, pode ser bem mais confortável, e agradável até, ter uma plateia e um mediador que conheçam seu trabalho, permitindo que você fale sobre questões mais “profundas” da sua escrita. Mas esse tipo de trabalho, com o público mais fora do meio literário, também é imprescindível. E temos que sempre manter em mente nosso lugar nessas relações. Se eu participo de um projeto no qual dinheiro público foi investido, é porque tenho uma função pública ali, um trabalho com a cultura a realizar. E meu papel, como vejo, é servir essas pessoas que foram até lá, no que eu puder dar de informações, estímulos à leitura, à cultura e à vida em geral (dentro das minhas limitações). Penso também que, já que os sirvo, preciso me adaptar a eles. A maioria dos presentes vêm de escolas públicas, como atividade escolar mesmo. Em duas das cidades, Tarumã e Paraguaçu Paulista, a maioria era de EJA (Educação de Jovens e Adultos), ou seja, pessoas que, muitas vezes, estão recebendo ensino formal depois de décadas da idade em que eu, ou a maioria dos meus leitores, estudou. Há um tanto para se conversar com essas pessoas, para trocarmos de aprendizado.

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Encontro em Tupã

A segunda parada foi Tupã, onde o dia começou com uma entrevista muito legal na TV Câmara, com o jornalista Rogério Silva. Ele tem formação em literatura também, fez o dever de casa, então foi uma das entrevistas mais legais que já dei na TV. Em Tupã, foi a única biblioteca em que fiz o encontro no horário da tarde, então o público foi essencialmente de estudantes do ensino médio. Daí, é hora de falar mais sobre criação, sobre como eu, na idade deles, também estava dando meus primeiros passos na criatividade: compondo minhas músicas, escrevendo meus poemas, começando a ter minhas leituras mais interessantes. É um público que me intimida um pouco (e o medo de parecer tiozão?), mas que tem funcionando nos últimos testes. Nunca tive tantas perguntas! Tivemos que cortar para eles não perderem o ônibus.

Tarumã foi uma parada muito legal. Além do espaço na antiga olaria, como já falei, a biblioteca se revelou um lugar muito vivo, com atividades constantes e diferenciadas – o que acho sua verdadeira vocação. Clubes de leitura, apresentações musicais, piqueniques literários, até acampar dentro da biblioteca eles acampam. A bibliotecária, Odília, que me recebeu tão bem, tinha me pedido uma lista com minhas 20 leituras preferidas e ela decorou o espaço com esses livros. Também me animou a fazer um post aqui no blog com esse meu Top 20, vamos ver se um dia sai.

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O CIEC, em Tarumã, onde fica a biblioteca e antigamente funcionava uma olaria.

Paraguaçu Paulista, a penúltima parada, tem uma biblioteca que vem sofrendo um pouco de descaso da prefeitura, tendo sido removida para um espaço menor e junto ao museu, e recebido poucos cuidados. Em compensação, tem uma bibliotecária heroica, a Janaína, que não só me recebeu muito bem e organizou um evento impecável, mas também demonstrou toda sua dedicação aos livros e ao Viagem Literária. Seu depoimento emocionado sobre a leitura do meu livro, e como ele se relaciona com a vida dela, foi uma das situações mais desafiadoras que já passei em um evento: quase não me seguro nas pernas ali na frente e começo a chorar junto com ela.

A Viagem terminou em Echaporã, onde a biblioteca fica no mesmo prédio da Câmara Municipal. Por esse motivo, e provavelmente por ser a primeira vez que eles receberam o Viagem Literária, foi a noite mais confusa, porém com maior público espontâneo. No fim, deu tudo muito certo e foi divertido. Dali, fomos direto para a estrada, de volta para casa, viajando bem tarde da noite. Nem tudo é glamour, pessoal.

Espero poder reviver essa experiência mais vezes. É preciso jogo de cintura, sim, como me disseram os escritores Santiago Nazarian e José Santana Filho, quando os perguntei e me contaram, generosamente, sobre suas viagens, mas é bem legal poder vivenciar esses encontros. Cada noite é muito diferente da outra, cada público te surpreende de maneira distinta. Além do mais, acho um trabalho muito enriquecedor, acredito ter comunicado algo para alguém. Agradeço muito ao pessoal do SP Leituras pelo convite e por toda a organização, sempre muito boa; agradeço também à equipe de cada biblioteca que me recebeu, especialmente ao Murilo, à Odília e a Janaína, por sua atenção mais do que especial. E obrigado ao Jackson, motorista e fiel escudeiro, que me levou para todo lado, sendo boa companhia sempre.

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Com Janaína França, a grande bibliotecária de Paraguaçu Paulista

Semana que vem, embarco para o Arte da Palavra, projeto do SESC, com o escritor Maurício de Almeida. Passaremos por Palmas – TO e Cuiabá – MT, em encontros grátis também. Vamo que vamo!

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