Como se faz uma cidade de leitores?

Como se faz uma cidade de leitores? A resposta deve envolver muitos fatores, mas com certeza alguns dos principais são os mesmos que se poderia usar para falar de como fazer dos filhos leitores, dos amigos leitores, etc. Os princípios são o estímulo e o prazer relacionados à leitura. Minha ida a Itapetininga sábado retrasado me fez sentir isso de forma muito intensa, vendo a alegria e fascinação nos olhos de crianças a quem a leitura foi levada de forma adequada, e de jovens e adultos com quem pude conversar. Tudo isso, claro, não é gratuito; exige o trabalho de pessoas dedicadas e apaixonadas. Quero falar sobre isso porque a Biblioteca Municipal de Itapetininga, e as pessoas que trabalham lá, são grandes exemplos, comoventes mesmo, para todos nós.

Bibliotecas públicas sofrem muito com o descaso do Estado e da sociedade, e não raro se tornam prédios moribundos, quase sem atividades além de deixar os livros dispostos. Não é o caso em “Itapê” – como ouvi alguns chamarem. Logo ao chegar, me deparei com a alegria e disposição contagiantes da Milene França, que cuidou da minha ida para lá. Entrando na biblioteca, já vi que estava em um lugar especial: na porta, vários cartazes com atividades programadas e anunciadas; do lado de dentro, estava sendo desmontado o cenário de uma contação de histórias para crianças que tinha acabado de acontecer. Eles já iam começar a arrumar o espaço para minha conversa com o clube de leitura, que já estava reunido – para discutirem o livro entre si – em outra sala. Eu acho que nunca vi uma biblioteca com tanta vida, e ainda havia mais para conhecer.

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A fachada da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Prestes de Albuquerque

Nos “bastidores”, a Milene e a Talita, também da biblioteca, me contaram sobre os projetos que tinham ali. Não só me mostraram uma planilha com as programações semanais – e a planilha estava literalmente toda ocupada – como também um projeto que foi uma das coisas mais lindas que vi na prática de leitura ultimamente.  A iniciativa se chama “Leitura Mania” e consiste, basicamente, em ir até escolas rurais da cidade e preparar as crianças mais velhas a serem leitores e mediadores de leitura, para as mais novas. Sim, as próprias crianças são estimuladas não somente a lerem e encontrarem um sentido próprio na leitura, mas também a lerem para outras crianças. Os livros usados são os que elas têm disponíveis nas bibliotecas de cada escola delas, portanto a acessibilidade é total (e o trabalho redobrado para o pessoal da biblioteca, que tem de checar esses livros externos a eles também). A Milene e a Talita têm de se virar com transporte (às vezes, coletivo, para conduzir grupos de crianças) e praticamente todas as demandas práticas do projeto. Isso pode ser bonito por um lado, mas é uma vergonha para o Estado não dar mais apoio a uma iniciativa tão importante e executada tão bem. Eu fiquei de queixo caído vendo Milene contar tudo isso, me mostrando o vídeo do projeto no Youtube, que coloco aqui embaixo, porque acho importante que outros conheçam. Milene não reclama do cansaço ou de outras dificuldades, diz apenas: “Veja os olhinhos deles, com os livros na mão!” A gente precisa deixar de achar que os escritores são o grande lance da literatura, os leitores e mediadores de leituras é que deveriam estar falando mais nos microfones e palcos. Milene diz que tem o sonho de que Itapetininga seja uma cidade de leitores. Eu nunca vi outro lugar com tanto potencial para tornar isso realidade, e esse potencial não é algo caído do céu: vem do trabalho, a dedicação, e o amor que essas bibliotecárias põem nos livros, na leitura e nas pessoas.

A reunião com o clube de leitura foi no seguinte esquema: eles se encontraram às 15h30 para conversarem entre si sobre o meu romance, Rebentar. A partir das 17h, eu me juntei a eles, para discutirmos o livro, com as perguntas que eles tinham para me fazer. Era um grupo beeem legal, com várias questões sobre a criação de detalhes do livro, desde a história e as personagens, até as questões mais práticas, como pesquisas e organização do material. É sensacional quando a gente pode conversar com leitores do próprio livro, gente que realmente conhece a história que você construiu e tem ideias para trocar com você. É o melhor.

Era o aniversário de 3 anos do Clube, então ter o autor presente era uma ideia para se comemorar. Foi engraçado eles dizerem que estavam com um pouco de medo de não gostarem do livro, tendo o compromisso de olhar pra cara do escritor bem ali depois. Felizmente, eles gostaram do livro (ou foram muito educados rs).

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Conversando sobre Rebentar, com o Clube de leitura

Além desse clube, com o qual conversei, há mais outros dois, que envolvem mais ou menos o mesmo grupo de pessoas: um para ler, pouco a pouco, os volumes do Em busca do tempo perdido, do Proust, e outro do Leia mulheres, em que alternam uma leitura de autora importante do passado com outra contemporânea.

 Voltando ao começo, quando a Milene me falou que sonha com Itapetininga como uma cidade de leitores, eu pensei logo que a única maneira de se conseguir isso é… fazendo o que eles estão fazendo. A atividade da leitura nasce desses olhos de criança brilhando mesmo, nasce da imaginação infantil servindo para marcar seu mapa no mundo. Nasce de pessoas que não deixam os livros se tornarem obsoletos, mas trazem-nos para o cotidiano da comunidade. Nasce de pessoas que estimulam uns aos outros a lerem, de alguma forma. Nasce de nos comovermos com as histórias, de querermos saber mais. E do encontro entre escritores, leitores e mediadores, seja ao vivo, seja através das palavras escritas ou das iniciativas atenciosas de mostrar para alguém, de alguma maneira, que a vida dela pode ficar um pouco melhor ao receber o que um livro pode oferecer.

Eu agradeço muito o convite, foi um dia muito especial e quero deixar aqui toda minha admiração por essas pessoas. Se todas as cidades tivessem bibliotecas como a de Itapetininga, seríamos outro país.

 

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