Minhas 6 leituras preferidas de 2016

Então, é aquela época do ano de novo.

Eis aqui minha lista de leituras preferidas, das que fiz em 2016. Como um dos problemas hoje é o excesso de informação – que, no fim, nos deixa desinformados por nunca mergulharmos em nada – tentei, dessa vez, reduzir o quanto pude minhas sugestões, que é para ver se vocês se animam a ler de verdade, se já saem comprando ou emprestando esses livros e levando-os paras férias ou algo assim.

A ideia era fazer um Top 5, mas se já me doeu o coração deixar outros de fora, esses são os que não dava pra tirar de jeito nenhum. E, enfim, 6 combina com 2016. Fica aí minha desculpa para o slogan.

Lembrando que isso é só uma lista pessoal, não sou nenhum grande expert, e não quero parecer uma autoridade a sentenciar o que de melhor foi lançado esse ano (aliás, quase não há lançamentos na lista). Encarem apenas como a lista de um amigo, para quem vocês perguntassem: “E aí, o que você leu esse ano e gostou mais, pra eu ver se vou atrás?”

Sem mais delongas, vamos lá. A ordem é alfabética, pelo nome dos autores.

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O livro das semelhanças – Ana Martins Marques

A poesia é, provavelmente, o gênero literário em que o autor tem que se confrontar mais intensamente com “o que foi feito antes”. As tradições, as inovações, os poetas de ontem e hoje, as demandas de revolução na forma, etc. são algo com que os poetas tem que lidar muito mais do que os prosadores, me parece. Ana Martins Marques é das poetas brasileiras que melhor resolveram essas equações nos últimos tempos. É uma poesia atual, urbana, humorada e comovente, inovadora e bela (o poema Índice remissivo, por exemplo, é um dos mais fascinantes que já li, em todos esses aspectos). Tudo isso sem parecer que a poeta está se esforçando para fazer algum truque fácil de agradar leitores (ou “curtidores”?), um problema que tenho visto bastante na poesia por aí (não estou só falando dos “Me chamo Antônio” da vida, não). Aqui é o lance de verdade mesmo. Acho que desde que conheci Manoel de Barros, um livro de poesia não me tirava tanto os pés do chão.

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Tempo de espalhar pedras – Estevão Azevedo

Outro que mostra pleno domínio de sua escrita – e não se deixa cair nas armadilhas mais prováveis a que sua proposta poderia levá-lo – é Estevão Azevedo, com seu romance Tempo de espalhar pedras. Ambientado em uma terra de garimpo (sem fetiches de linguagem “regionalista”) em crise (sem maquiavelismos entre exploradores e explorados), a história mostra um elenco de personagens impecáveis (sem forçações de barras de nenhuma ordem), em seus conflitos de afetos, violências, disputas e negociações humanas, que surpreendem em muitos momentos pelas dinâmicas inesperadas e, ainda assim, totalmente verossímeis. Um dos romances em que força e equilíbrio na escrita (essa combinação difícil de domar!) alcançam um patamar muito alto. Se todos lessem esse livro, as dúvidas quanto à potência da literatura atual poderiam ter sido erradicadas. Ano que vem, será lançada uma nova edição pela Record, agarrem-na o quanto antes. Livro lindo da porra.

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Jerusalém – Gonçalo M. Tavares

Jerusalém não foi só uma das minhas leituras preferidas do ano, mas entrou também no pódio dos meus livros favoritos na vida. Aliás, é um dos que eu mais invejo não ter sido o autor, porque o tema mexe comigo e a narrativa… vai escrever bem assim lá longe. Romance também composto por diversos protagonistas, Jerusalém é uma espécie de tour de force da violência e da opressão, mostrando como a crueldade se põe desde as grandes guerras até a relação conjugal entre uma mulher e um “homem de bem”, passando por manicômios, crianças sem cuidado e pessoas desorientadas. Esse livro é absolutamente maravilhoso. E é inacreditável que, mesmo tendo ganhado o Prêmio José Saramago e o Portugal-Telecom há não muito tempo, esteja fora de catálogo. Precisa ser relançado urgentemente. E lido, precisa muito ser lido.

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Nas tuas mãos – Inês Pedrosa

Eu não sei o que põem na água de Portugal, mas… que país para produzir grandes autores, hein. Eu ainda não tinha lido nada da Inês Pedrosa, e só esse ano li três, quase em seguida, de tanto que gostei. Além deste romance, meu preferido por enquanto, conheci também Fazes-me falta e Os íntimos, que recomendo com o mesmo fervor (foi difícil escolher um). Além disso, claro, já comprei praticamente todos os outros lançados por aqui. Nas tuas mãos mostra mulheres de três gerações de uma mesma família, cada uma às voltas com os dramas de sua época e de sua herança afetiva, por assim dizer. Talvez a sinopse não pareça muito convidativa, mas não se engane, não é um daqueles romances pretensiosos e chatos, é o oposto disso. Livraço!

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A resistência – Julián Fuks

Eu já gostava de A resistência antes de ser modinha. Ha! Brincadeiras à parte, o grande vencedor do Prêmio Jabuti deste ano fez por merecer, e já tinha minha torcida antes do resultado. Essa é daquelas obras que o momento histórico pode até ter ajudado a ser mais bem apreciada, mas cujo mérito está, antes de tudo, na composição em si. Poderia ter sido lançado em 1990 ou em 2090 e seria um grande livro, ponto. Inspirado em sua própria biografia, Julián mostra que, autoficção ou não, o que faz de um livro algo grande ou pequeno é a sua construção. A sinopse: uma família argentina, de opositores ao regime militar, vem exilada para o Brasil, depois de terem adotado uma criança na Argentina. Às voltas com os dilemas familiares e sociais dessa escolha – será o filho sequestrado de algum resistente? – os personagens confrontam as várias formas de resistência, em uma demonstração de que mesmo essa palavra, tão romantizada e na moda ultimamente, pode ser questionada em alguns pontos (a resistência do filho adotivo em relação à família, por exemplo) e reforçada em outros (o não curvar-se às adversidades). Coisa linda esse livro, TEM que ler.

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A instrução da noite – Maurício de Almeida

Por fim, o único lançamento de 2016 da minha lista (não consegui ler muitos dos que saíram esse ano), A instrução da noite é dos romances mais originais publicados ultimamente. Quem me conhece, sabe que sou amigo do Maurício e, se há uma desvantagem em ser amigo de quem você é fã, é que os elogios podem perder um pouco de credibilidade. Não caia nessa: esse livro é avassalador. A linguagem viva, que deixa as palavras parecendo um redemoinho; o domínio da estrutura e seu desenvolvimento; os conflitos entre os diferentes personagens; o lirismo e a musicalidade; a expressividade das imagens e seus símbolos… é tudo de primeira classe. Uma aula de escrita. Não à toa, esse romance tem sido comparado com o Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar. É um pé na porta da literatura brasileira atual. Escrevi uma resenha mais completa sobre ele AQUI. Imperdível, senhoras e senhores, imperdível.

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