A Feira Internacional do Livro, em Guadalajara, e seus arredores

Semana passada, participei da FIL – Feria Internacional del Libro, em Guadalajara, no México. Foi a primeira vez que participei de um evento literário em outro país, e segue aí meu humilde relato.

A Feira

Para descrever a FIL, talvez o melhor seja dizer que é uma mistura de Bienal com FLIP – ou suas primas próximas – em escala aumentada. Tem elementos de todas essas, em uma quantidade impossível de acompanhar. A FIL completou 30 anos agora em 2016, e é considerada a 2ª maior do mundo, atrás apenas da Feira de Frankfurt.

O que vemos lá, de um lado, são os estandes e corredores enormes – e cheios de gente – que costumamos ver por aqui nas Bienais do Livro de São Paulo e do Rio. Sim, muitas excursões de escola, aquela coisa toda. Mas, por alguma razão, as pessoas lá não se atropelam tanto ou fazem a algazarra tão grande como aqui. É um clima bem parecido com o de uma Bienal, mas um pouco melhor.

Em outros espaços acontecem os debates. Aqui, sim, a discrepância com as Bienais se torna gritante, e o perfil se direciona mais para as Mesas como há na FLIP e eventos desse tipo. São salas fechadas, bem separadas da muvuca, com controle de entrada e saída, e os autores e mediadores podem dialogar tranquilamente sobre os mais diversos assuntos, com traduções simultâneas para os não-falantes de espanhol. É tudo MUITO bem organizado. Mesmo com centenas de autores presentes, não soube de nenhuma falha, desde os traslados até os bate-papos.

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A entrada da Feira.

As mesas

Eu participei de três mesas: a primeira foi pelo projeto Destinação Brasil, uma parceria da Feira com nosso país, que a cada ano leva um grupo de escritores brasileiros para lá. Esses autores são agrupados em diferentes mesas do projeto, uma a cada dia, e ainda participam de outras atividades. Na minha mesa, estavam, além de mim: Marçal Aquino, Marina Colasanti, Adriana Lunardi e Lucrécia Zappi. A mediação foi de Kátia Gerlach. Eram autores bem heterogêneos, a maioria desconhecida do público de lá, mas a coisa andou bem, achei a mesa equilibrada no fim.

A segunda mesa foi sobre o Prêmio São Paulo, comigo e a Beatriz Bracher, mediados por Marcos Vinicíos, da embaixada brasileira no México. Eu não tinha conseguido conversar muito com ela no dia da premiação, então foi bem legal podermos ter esse tempinho extra lá. Eu gostei muito do livro dela, da ousadia em tratar de temas ligados à sexualidade – que desafiam as noções mais simplistas do engajamento pop das redes sociais – e pudemos bater um papinho sobre isso. Nessa mesma mesa, percebi – pela pergunta de uma pessoa na plateia e pela conversa que tive com um jornalista mexicano que me entrevistou em seguida, o quanto o desaparecimento é uma questão central no México, no quanto a história de Rebentar poderia adquirir um outro significado lá.

A terceira e última mesa de que participei foi sobre a família como material literário. Nessa, eu era o único brasileiro, ao lado de Renato Cisneros (Peru), Rafael Gumucio (Chile), Alicia Dujovne Ortiz (Argentina) e a mediação de Gabriela Alemán (Equador). Foi muito legal poder participar dessa conversa, poder arriscar falar em outro idioma (importante frisar: eu fiz alguns anos de aula de espanhol e, mais importante, propus ao público se podíamos fazer dessa maneira, com eles tolerando meus errinhos sem me julgar tanto, no lugar de ficarmos colocando e tirando os fones só por minha causa). Essa foi a mesa que eu mais tive vontade que durasse mais. O Renato, por exemplo, contou de sua história com o pai, um general que torturou pessoas durante o regime militar e ele só veio a descobrir quando foi escrever seu livro.

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Da esq. para dir.: Alicia Dujovne Ortiz, Rafael Gumucio, Renato Cisneros, eu e Gabriela Alemán.

Os arredores

Mas nem só de literatura vive o homem. Aproveitei as horas vagas em Guadalajara para conhecer os pontos turísticos que podia. O primeiro passeio foi pelo Centro Histórico de Guadalajara, que é bem legal. Muito próximos uns dos outros, há muitos prédios históricos, cuja maioria foi transformada em museus e estão muito bem conservados (aprende, Brasil). O antigo Hospício Cabañas, o Teatro Degollado, o Palácio do Governo e a famosa Catedral são só alguns dos exemplos de lugares bacanas para se visitar. No espaço de alguns metros e horas dá para ver o esqueleto de um mamute, os murais impressionantes de Orozco, peças antigas e esculturas de cair o queixo. E tudo com a maior tranquilidade do mundo.

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O impressionante mural pintado por Orozco (ao vivo é bem mais impressionante).

O segundo passeio foi a Guachimontones, um sítio arqueológico a uma hora de Guadalajara (de Uber saiu baratinho). A atração principal aqui são as pirâmides circulares, construções que eram usadas como altares em cerimônias religiosas do antigo povo de Teuchitlán. Como é comum em construções dos povos pré-hispânicos, a arquitetura tem um sentido na própria ordenação (aqui, por exemplo, são 13 andares inferiores e 4 superiores, com uma divisória clara no meio. 4 x13 = 52, que é o número de anos pelo qual se dividia o calendário deles) e tem também uma relação de interação com a natureza (considerada divina em si). Repare em como o altar na foto segue exatamente a forma da montanha.

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Pirâmide circular, no sítio arqueológico de Guachimontones.

O último passeio foi para Tlaquepaque, um condado perto de Guadalajara, onde há muitas lojas de arte e artesanato. Eu não sou muito de compras, mas quando você vê um monte daquelas caveirinhas típicas do dia de los muertos, desde bonequinhos baratos, até esculturas caríssimas, convenhamos que é bem legal. Ah, e Frida Kahlo. Por todos os lados, ela aparece: em souvenirs, propagandas, etc. etc. Claro que eu trouxe uma de lembrancinha pra mim.

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A Friadazinha, lembrança de Tlaquepaque.

 

Foi uma viagem beeem legal, uma das melhores que fiz, claro. Mas eu também sinto falta, especialmente nesses eventos internacionais, de uma articulação maior entre as forças que envolvem os autores e os livros. A FIL oferece um material maravilhoso, com biografia e trechos dos livros dos autores brasileiros traduzidos para o espanhol, reunidos em um catálogo muito bem feito. Acho que se setores da cultura aqui no Brasil, editoras e outras organizações pudessem somar esforços como esses, a nossa ida para lá poderia ser bem mais frutífera, porque às vezes dá a sensação de que você está falando para pessoas que, por mais que se interessem por seu trabalho, não poderão lê-lo nem que queiram, afinal não há traduções (ao menos no meu caso e no de muitos outros, seja nesse ou em outros eventos fora do país) nem perspectiva disso.

Sei que a ideia pode ser justamente levar autores com potencial para serem traduzidos e ver se acontece algo lá. E é justamente por isso que acho que precisa ter algo mais de nossa parte, porque nesses eventos há milhares de pessoas com o mesmo objetivo, não somos nem de longe o centro das atenções. Sem querer parecer sofrer do complexo de vira-latas, acho que o Brasil pode pensar um pouco mais em estabelecer trabalhos a longo prazo, mas que tenham consistência, que tenham uma razão de ser, uma estratégia mais estruturada. Um autor sozinho não faz verão, especialmente em um lugar em que até o verão é invertido com o nosso.

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