Uma leitora muito especial

Quando lancei Rebentar, um dos meus maiores medos – provavelmente, o maior – era receber uma reação negativa de alguma mãe de filho desaparecido. Nas pesquisas para escrever, eu tinha entrevistado algumas delas e sabia que a busca por seus filhos e filhas era a coisa mais sagrada em suas vidas (com toda razão), e que dar fim a essa procura, como faz a protagonista do livro, seria algo impensável. Imaginei que se alguma mãe que tivesse passado por essa perda apontasse isso na minha cara, de forma nada amigável, e me repudiasse por criar algo assim – eu, que sequer tenho filhos e tampouco passei por tragédia de tais proporções – isso me faria sentir-me muito mal. Em público, eu talvez pudesse usar a velha desculpa de que sou apenas um ficcionista, que não tenho obrigações com a realidade, mas, intimamente… cara, ia ser bem difícil.

Para minha felicidade, aconteceu justamente o contrário. Um dos primeiros retornos que recebi veio de uma leitora que eu jamais poderia imaginar, e que se tornou uma das pessoas mais especiais que conheci através do livro. Recebi uma mensagem sua no Facebook, e me arrepiei inteiro logo de cara. Ela dizia que seu filho também tinha desaparecido, tendo sido reencontrado apenas muitos anos depois, e que ela gostou e se identificou muito com o livro, com as ideias que eu punha ali e com as quais ela teve que batalhar a vida toda. O fato é que eu me identificava muito com as coisas que ela me falava também. Essa pessoa era a Lia, mãe do Pedrinho. Sim, aquele famoso caso do bebê sequestrado na maternidade, décadas atrás. Eu continuo me arrepiando hoje, ao escrever sobre isso.

A Lia é especial não apenas por ser a mãe de um filho desaparecido que leu Rebentar e se identificou, mas mais do que isso: eu sinto que ela se conectou ao livro, ao que eu quis dizer, como talvez ninguém mais – talvez nem eu mesmo – poderia. E não, nem eu nem a editora lhe enviamos o livro, ela o encontrou por acaso na livraria e se interessou. Alguns dias atrás, tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente e ter contato com mais detalhes à sua história (a foto é desse dia, estamos eu, ela, minha esposa e o Maurício de Almeida, amigo e escritor que me hospedou em Brasília). O que ela viveu é inacreditável, ficamos ouvindo-a, embasbacados, por horas. Tudo o que eu quis desconstruir no livro, ela desconstruiu na própria vida, com uma inteligência e força incríveis. Foi quase como poder ter um encontro com uma Ângela encarnada. Ou talvez nem isso faça jus à emoção de conhecer a Lia, que é uma mulher muito mais profunda e forte do que minha personagem. E de verdade.

Quando escrevo, sinto que estou tentando construir uma ponte, sem saber aonde essa ponte leva. Como fiz questão de escrever na dedicatória do exemplar dela, sinto que sua leitura foi uma forma de redenção para mim, deu um sentido totalmente novo a Rebentar. É como, depois de todo o esforço para se construir essa ponte sozinho, ter alguém do outro lado, acenando para você. Sinalizando que o que você fez chegou, realmente, a algum lugar especial.

Depois desse elo com a Lia, qualquer pessoa pode falar o que quiser de Rebentar. Nada vai me tirar o sentimento completo de realização. E ainda tem mais: estimulada pelo livro, ela decidiu publicar o seu também, uma série de cartas que ela escreveu ao filho enquanto ele estava distante. Eu li e me comovi até não poder mais. A literatura que cria laços e se recria de um para o outro é minha fé maior.

Muito, muito obrigado mesmo, Lia. Não teria como eu demonstrar minha gratidão, não há palavras suficientes para isso.

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