Fui ver amigos em Paraty, na época da Flip

Pouco depois de postar no Facebook que eu iria para a Flip, recebi um convite para falar sobre ela em um programa de rádio, quando voltasse. Como uma espécie de “comentarista” do que eu visse lá, de quais foram os destaques, do que eu li, etc. Eu delicadamente recusei a proposta. E a única razão pela qual fiz isso (não sou de dizer muitos “nãos” quando se trata de divulgar a literatura) é que eu não passo nem perto de ser a pessoa adequada para a tarefa. E se tem um tipo de tarefa que não topo fazer é aquela que não posso fazer direito, submetendo os outros a perder tempo com minha inépcia.

Foi a quinta vez que fui até lá e antes eu até via algumas das mesas da programação principal, ficava mais antenado a tudo. Mas nos últimos anos a festa (não me culpe, é essa a denominação que escolheram para si) foi adquirindo um outro papel para mim. Hoje, quando alguém me pergunta como é a experiência de ir para lá, e se vale a pena, eu fico sem saber muito o que dizer, porque para mim trata-se de algo muito diferente do que para pessoas que não estejam envolvidas mais diretamente com o meio literário. Ou melhor, que não tenham amigos nesse mundo.

Calma, não estou falando de panelinhas, muito menos estou dizendo que haja coisas que só quem tem amigos lá tenha acesso. Ok, isso rola também, mas eu também não entro nos lugares onde é preciso conhecer alguém importante para entrar.

O que estou dizendo é que, para mim, a Flip virou uma grande desculpa para encontrar alguns dos meus melhores amigos, que não consigo ver em todo o resto do ano. E também para fazer novos amigos, os quais eu dificilmente encontraria em outros momentos. Pelo menos, não com tanta disponibilidade, tanto no sentido da quantidade de amigos juntos, quanto no tempo que podemos passar em comunhão.

Nada se compara a poder se sentar às mesas de bares e restaurantes para comer e beber, desde de manhã até de madrugada, trocando muitas ideias, risadas e tudo mais com essas pessoas por dias seguidos. Além do mais, algumas delas podem ser seus heróis. Imagina o barato de ter uma grande afinidade com alguém de quem você é fã, gastar horas de conversa com essas pessoas. Encontrá-las ao acaso pelas ruas e poder dizer: “Vamos sentar pra beber em um lugar mais quieto?” Eu não consigo escolher assistir a uma mesa em vez de fazer isso.

É por isso que eu decidi curtir 100% desse lado da Flip. É legal ver as Mesas – e eu vejo, sim, algumas na programação paralela – mas eu não resisto a deixar de lado esse barato de me sentir como naqueles acampamentos de quando você é criança ou adolescente e passa alguns dias envolto por amigos que parecem eternos, embora você tenha acabado de conhecê-los. Sabe aquela sensação de já ter saudade de algo que você vive ao mesmo tempo? Quando a gente pode ter isso a vida adulta? Só na Flip, para mim.

A Flip sempre me faz pensar muito, porque há ali uma grande efervescência de “contatos” sendo feitos, especulação de afetos, selfies oportunistas (e outras sinceras) e trocas de favores sutis. No meio literário – ou artístico, em geral – essas coisas são muito fortes, e acontecem quase o tempo todo. Sim, há momentos em que você pode cair na confusão também. Conversar com uma pessoa em uma mesa pode ser, ao mesmo tempo, uma refeição agradável e uma oportunidade de estabelecer uma relação “comercial”. Tem gente que se atola até o pescoço nessa atividade.

De minha parte, tento manter um certo equilíbrio. Mas acabo não conseguindo muito, acho. Quando vejo, passei a maior parte do tempo junto mesmo das pessoas que me agradam mais, com quem tenho mais afinidade. Não cuido tanto de “fazer contatos”, mas sim de “ter contato”. É essa a sensação preponderante que tenho ao fim da viagem.

É por isso que sinto que não estive propriamente na Flip, cuja programação não aproveitei tanto – esse ano não fui a nenhuma mesa da programação principal – mas em uma viagem com amigos, para Paraty, na época da Flip. Claro que estão todos ali por causa dela e, com todas críticas que se pode fazer, eu fico muito feliz que o evento ocorra e torço para que continue.

Esse não é um texto para fazer minha autoficção, ops, minha autopromoção, tampouco a de outros. Não é um texto para analisar criticamente a Flip, o mercado editorial ou a literatura (vocês não devem estar sentindo falta disso, creio) e, claro, não é para ser um “comentário” sobre a Flip, coisa que eu não estou capacitado para fazer e por isso recusei aquele convite mencionado no começo.

Esse é só um texto para falar o quanto foi bom estar lá com meus amigos. Para defender esse sentimento e essa vivência, com engajamento. Os amigos que me proporcionaram momentos que, mesmo que não representassem absolutamente nada profissionalmente, seriam a minha escolha de como investir meu tempo. Os amigos que foram a coisa mais importante pra mim lá, buscando novamente suas companhias, trocando confidências, risadas e tudo mais. Os amigos que foram minha programação principal, meu centro histórico, meu evento. Eu não tenho fotos para colocar aqui, porque estava curtindo demais para parar tudo e sorrir diante de um aparelho. Mas vocês sabem quem são. Espero que esse texto os faça sorrir e traga de volta alguma lembrança boa. Seguimos, esperando que nos encontremos mais vezes.

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