Oficina de criação literária

Em março e abril vou dar uma oficina de criação literária na cidade de Bauru (SP), e achei que valia a pena escrever a respeito aqui, explicar um pouco melhor (e menos formalmente) do que se trata o projeto. Imagino que possa ter gente que vê a propaganda e fica se perguntando se deveria mesmo fazer ou não, mais por conta de certos temores ou dúvidas do que pela vontade (ou falta de). No fim do post, estão as informações mais “técnicas”, como local, horário, preço, etc. Se é só isso que você quer saber, basta rolar a página até o fim. Mas talvez em seu coraçãozinho esteja palpitando alguma das perguntas seguintes, e imaginei que poderia fazer uma espécie de FAQ prévio (com o perdão do paradoxo) para ajudar. Se ainda restarem outras dúvidas, é só me escrever, o contato está também no final.

Quais são os pré-requisitos para quem quer fazer a oficina?

Ser alfabetizado, bem disposto, e interessado em refinar a escrita. Só isso. Com relação a níveis de experiência, todos são aceitos: desde quem nunca escreveu nada, mas quer começar, até quem já tem livro(s) publicado(s), e quer ver se aprende uma sacada ou outra. Só não pode se inscrever quem já está no nível da genialidade incompreendida, alguém cujo texto nunca tem nada que possa ser criticado.

Oi? Quer dizer que serão feitas críticas aos nosso textos?

Sim, a maioria das oficinas funciona assim. Não precisa ficar nervoso. Estaremos lá para lidar com o processo criativo como um trabalho normal, algo ao qual nos dedicamos e podemos sempre rever, melhorar, sem grilos. Se os leitores acham que uma certa frase não está funcionando, ora, qual é o grande problema? Faz parte do amadurecimento deixar de levar as coisas tanto para o lado pessoal e pensar que simplesmente podemos reorganizar a forma como certas ideias estão colocadas no texto. Ninguém vai questionar seu talento, a “expressão do seu ser”, apenas dizer que em certos pontos você fez um golaço e em outros chutou a bola sem considerar a direção do vento, o gramado. Assim, você melhora também sua análise das jogadas e pode fazer mais gols nas próximas.

Mas a escrita não é um dom natural?

Há controvérsias, mas eu digo que não, sabe por quê? Porque nem mesmo a escrita em si é algo natural, é uma criação arbitrária do homem (que varia conforme o tempo e o lugar). Se alguém nascesse pronto pra escrever, não precisaria nem ser alfabetizado na escolinha, já saía fazendo um romance (imagina alguém nascer aqui no Brasil com o dom pra escrever em alemão?!). A escrita é algo que aprendemos – uns mais, outros menos – conforme temos contato com sua prática. E a criatividade é como um músculo, que pode (e deve) ser exercitada para uma melhor “performance”. Qualquer escritor bom teve um largo processo de melhora anterior. Como um músico que aprende a tocar seu instrumento. Imagina se as pessoas se sentassem diante de um piano na primeira aula, tateassem perdidamente como têm capacidade naquele momento e pensassem: “bem, esse sou eu como pianista”, em vez de aprender mais? Pois bem, é isso que muitos escritores fazem com seus textos, enganados pelo fato de serem previamente alfabetizados e terem uma noção de como a poesia e a ficção funcionam.

Então, mesmo que eu nunca tenha escrito nada, posso sair da oficina como escritor formado?

Calma aí. O amadurecimento na escrita é um processo constante, uma busca para a vida toda. Estamos falando de 8 encontros aqui, é apenas um ponto de partida. A oficina funcionará para expandir os recursos criativos de cada um, então você provavelmente vai sair melhor do que entrou (prometo!), mas cada um tem seu caminho pessoal também. O que eu posso fazer é ajudar em uma parte dessa trajetória, para que ao menos você avance e encontre algum direcionamento melhor do que ficar que nem barata tonta ou estagnado.

E como serão as aulas?

Teremos 5 atividades principais: 1) Em sala, veremos alguns conceitos teóricos (juro que nada de muita aula expositiva, só demonstração de certas ferramentas que precisamos conhecer, sempre com exemplos práticos); 2) Exercícios de escrita criativa em sala (não serão muitos, e nunca com extensão muito longa, ninguém vai precisar tirar um conto da manga em menos de 2 horas, apenas um parágrafo, uma sinopse, etc.); 3) Leituras para casa (uma das partes mais importantes: leituras de contos ligados aos conceitos, e sempre contos beeeem legais, prometo); 4) Escrita de contos para casa (sempre com propostas direcionadas e um prazo um pouco mais longo do que uma semana); e 5) Discussões em grupo das leituras e dos contos de vocês.

Você só mencionou contos. Não vai trabalhar com poesias, crônicas e romances?

Não. É claro que os recursos criativos aprendidos valem muito bem para os outros gêneros (então o trabalho vale também para eles), mas para efeitos de organização didática, dentro do curso trabalharemos apenas atividades práticas com contos. Mas, vamos lá: narrador é narrador em qualquer forma de prosa, construção textual vale para todas as criações literárias e, além do mais, se você quiser usar uma ideia surgida na oficina para um futuro romance ou algo assim, você é livre para fazer isso vida afora. Praticaremos só com contos, mas estamos longe de “só falar de contos”.

Qual será o material utilizado?

Você precisa levar apenas algum suporte para escrever: um caderno com lápis ou caneta, um notebook ou algo assim… (como achar melhor). Eu vou fornecer cópias digitais dos contos para leitura. É tudo o que precisamos.

Esses exercícios de escrita que você vai dar, como são?

Discutiremos alguma ferramenta ou elemento de criação em sala, alguns recursos criativos, e escreveremos textos para exercitá-los, de forma direcionada. Sempre abordando o processo criativo como um trabalho que pode ser aprimorado e não algo “acidental”, inconsequente e débil. Aprenderemos a pegar os textos com lupa e pinça para perceber que pequenas alterações podem criar grandes efeitos, que a construção dramática e narrativa está em tudo e pode ser controlada cada vez com mais rigor. Juro que não vou ficar inventando moda, de mandar vocês escreverem um conto sem usar nenhum verbo, escrever de mãos amarradas ou coisa assim. A maioria das pessoas já é restrita o bastante, o lance é expandir os recursos criativos, não reduzi-los. Não vou nem dar limites de caracteres, de laudas, etc. A história e o escritor é que precisam mandar, não o regulamento. As rédeas têm que ficar com o cavaleiro preso no cavalo, é isso. O texto é o cavalo e a oficina será a aula de equitação.

Eu posso pagar o primeiro mês e, se não gostar, sair da oficina sem pagar o segundo?

Não. O custo total do curso é dividido em duas parcelas, que precisam ser pagas, tendo você frequentado ou não. Uma vez inscrito, você está comprando uma vaga no curso que dura 2 meses, não pagando a mensalidade de um serviço a ser cancelado. Se deixar a oficina (o que é uma opção), essa vaga não tem como ser coberta por outra pessoa, portanto você deve arcar com esse custo.

E a liberdade criativa de cada um? A oficina não acaba colocando todos em uma mesma fôrma?

Não, pelo contrário! O objetivo é justamente expandir a liberdade criativa de cada pessoa, oferecendo treino de recursos criativos, repertório maior, feedback, incentivos, leitura mais aprimorada, compreensão de construção textual, etc. Cada um usa essas ferramentas da forma que quiser. O que não dá é simplesmente aceitar o seu estado atual de condicionamento e dizer que isso é quem você é como escritor. Deixa eu te contar um segredo: todos podemos ser sempre melhores.

E quem é você, para dizer o que é melhor ou não?!

Um leitor, e isso é o principal. Mas se quer um pouco mais de informações curriculares, sou também escritor, autor do livro de contos Réveillon e outros dias (2012), que foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti, e Rebentar (2015), ambos lançados pela Editora Record. Tenho contos publicados em antologias, como a Desassossego e a Machado de Assis Magazine, para a qual foi selecionada uma tradução do conto Réveillon para o espanhol. O que quero dizer é: estou razoavelmente bem treinado na área da literatura.

Você aprendeu a escrever em uma oficina?

Não, mas de tudo o que fez parte do meu aprendizado mais direto na literatura, estou tentando trazer para esta oficina o que acho que mais me ajudou. É o melhor que posso fazer para dar uma força na escrita de outras pessoas, e tenho certeza que vai ajudar muito. Além do mais, a experiência da prática recorrente de escrita e leitura é uma receita testada e aprovada por 10 entre cada 10 escritores.

E… tem ar-condicionado na sala? 

Tem!

***

Oficina de Criação Literária com Rafael Gallo

Onde: Curso Roberto Magalhães (R. Dr. Fuas de Mattos Sabino, 6-36)

Quando: Turma 1 aos sábados, das 9h às 11h, de 5/3 a 30/4 (Não haverá aula no feriado prolongado do dia 21/4). Turma 2 às segundas, das 19h30 às 21h30, de 7/3 a 2/5 (Não haverá aula no dia 25/4)

Investimento: 2x R$190,00

Contato para mais informações: contatorafaelgallo@gmail.com

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