Os livros não lançados em 2015 que mais gostei de ler em 2015

Clima de fim de ano, listas por todos os lados, por que não fazer a minha? Posto aqui minhas leituras preferidas de 2015, sem contar os livros que foram lançados este ano. Por que essa exclusão? Explico: em primeiro lugar, não sou um leitor tão rápido assim e não me pauto exatamente pelos lançamentos. Assim, não poderia julgar o que se destaca entre os livros lançados esse ano, simplesmente porque li poucos deles e estou bem longe de poder servir como referência. Em segundo lugar, esse foi um ano em que muitos amigos meus lançaram livros, e, especialmente por ainda não ter lido todos, esse julgamento ficaria ainda mais questionável. Para não ficar uma lista meio a meio, a melhor solução que encontrei foi essa. E, além do mais, é sempre bom, mesmo em um contexto de lista, aliviar um pouco essas mensurações instantâneas e prestar uma homenagem à atemporalidade dos livros. Vamos lá, então (não está por ordem de preferência).

Capa Sinfonia em branco alta.indd

Sinfonia em branco (Adriana Lisboa)

Adriana Lisboa foi minha grande descoberta (tardia) de 2015. Eu já tinha ouvido falar dela, claro, mas não tinha lido nada pra valer (com quantos autores não temos essa relação?). Rapaz, que porrada maravilhosa: Sinfonia em branco não só entrou para minha lista de leituras favoritas do ano, como também para o meu top 10 de livros preferidos na vida. É meu grande destaque das leituras de 2015. Levei-o para o Clube de leitura do qual faço a mediação no Sesc e todo mundo pirou nele também (até hoje comparam com os livros seguintes, tipo: “É, não é um Sinfonia em branco, mas é bom” rs). Enfim, é uma obra-prima da literatura brasileira e, em um ano em que se falou tanto de feminismo, esse é um dos grandes livros que abordam questões femininas, entre tantas outras coisas. Se você ainda não leu, sugiro fortemente que comece seu 2016 com ele. É grande a chance de você acabar fazendo o que eu fiz: depois correr pra ler todos os outros romances disponíveis dela (dos quais destaco o ótimo Hanói)

Livro

Livro (José Luís Peixoto)

José Luís Peixoto é um dos meus escritores preferidos e Livro é um dos melhores dele (Cemitério de pianos continua sendo meu favorito). Tem frases e expressões que você lê e dá vontade de jogar o livro na parede, de tanta inveja de alguém escrever bem assim. Olha só essa cena, em que o Ilídio reencontra sua amada, Adelaide, agora com outro homem: “Reconheceu a forma da Adelaide à distância, quando ainda caminhava de mãos dadas com o Constantino. Depois, viu-a abraçá-lo, distinguiu a vontade com que se dirigiu a ele, aqueles braços, aquele corpo. O Ilídio deixou de acreditar que ainda a conhecia. […] Havia um poste escuro à espera do encosto do Ilídio. Dentro dos seus olhos, ainda a via a abraçar aquele homem tão diferente de si. Encostado ao poste, era um campo anoitecido. Para que lhe serviam as mãos?” É uma pena que a edição nacional, da Companhia das Letras, não tenha se atentado para os aspectos auto-referenciais do livro, pois são importantes para a história e para o objeto como obra. Há um trecho, por exemplo, em que palavras são circuladas em determinadas páginas para formar frases, mas por conta da diagramação descuidada, elas ficaram fora do lugar e o efeito original se perdeu um pouco. Espero que uma nova edição corrija isso, mas já garanti meu exemplar português também, por via das dúvidas.

Riso e esquecimento

O livro do riso e do esquecimento (Milan Kundera)

Kundera foi minha grande descoberta (tardia) de 2014, e desde então tenho lido vários dos livros dele. Gostei de todos, o que é um caso bem raro. O livro do riso e do esquecimento é um híbrido de contos e romance, e é um dos meus preferidos do autor. Estão lá os elementos tradicionais de sua literatura: o olhar analítico e perturbador sobre relações amorosas e eróticas, a conjuntura política da República Tcheca e seus efeitos, os elos familiares, a memória e o esquecimento, o poder, e as inter-relações entre tudo isso. Para mim, Kundera é um dos grandes intelectuais da literatura hoje, e sua leitura é imprescindível. Talvez esse livro seja uma boa indicação para se começar a conhecê-lo. É só ler a primeira página para ver que um romance pode ser muito mais poderoso do que a maioria das coisas que a gente vê por aí.

carrascoza

Espinhos e alfinetes (João Anzanello Carrascoza)

Quem me conhece sabe que sou bem fã do Carrascoza. Tenho lido tudo que posso dele, e acho que Espinhos e alfinetes é um de seus melhores livros de contos. Uma vez li uma definição do crítico Alfredo Monte sobre o trabalho do Carrascoza, que é a melhor: “ousar investir no lirismo dos laços afetivos elementares em nossa vida (pais, filhos, cônjuges), atravessando a corda bamba sob a qual aguardam, ansiosos, o sentimentalismo e a fraude”. Nessa coletânea, estão lá os relacionamentos entre pais e filhos, marido e mulher, e outros, que poderiam facilmente se tornar piegas, mas na mão do Carrascoza são mais pungentes do que muitos “desfiles de tragédias” que a gente vê em outros escritores, no afã de causar impacto no leitor. Meus contos preferidos aqui são Poente e Mar, pelo belo trabalho com a linguagem. Ler Carrascoza é sempre uma aula.

A_OBSCENA_SENHORA_D_1274303817P

A obscena senhora D (Hilda Hilst)

Fui tirar o atraso dessa leitura e me surpreendi pra caramba. Eu tinha uma ideia completamente diferente desse livro, achava que seria algo mais na linha de O caderno rosa de Lori Lamby ou do Contos d´escárnio/Textos grotescos. Mas A obscena senhora D é uma prosa bem diferente, é um livro único. Não me peça para defini-lo, só mesmo lendo e entrando nesse fluxo de pensamentos, imagens, palavras e sensações para compreender a força e a estranheza que minam desse livro. Não é para amadores. Acho que ainda vai levar alguns anos para que estejamos preparados para ler a Hilda.

ariel-sylvia-plath

Ariel (Sylvia Plath)

Eu adoro essa edição de Ariel, porque além de os poemas serem apresentados traduzidos e no idioma original, estão ali os fac-símiles dos poemas, tais quais deixados por Plath. Para quem não conhece a história desse livro, não somente é um de seus trabalhos mais importantes, como também é a coletânea de poemas que ela deixou organizada para ser publicada, e foi encontrada sobre a mesa, na ocasião de seu suicídio. Por muitos e muitos anos, o livro foi publicado com severas alterações, tendo alguns de seus poemas subtraídos pelo marido da poeta, o também escritor Ted Hughes. Somente em 2004 tivemos acesso ao Ariel original e é essa a edição que temos aqui, com prefácio da filha de Sylvia e Ted, uma das responsáveis pela restauração. Poemas como Lady Lazarus, Papai e Um presente de aniversário deixam qualquer leitor assombrado.

A_CAIXA_PRETA_1249693970P

A caixa-preta (Amós Oz)

Eu não sou um grande entusiasta de textos epistolares, e esse romance do Amós Oz, todo baseado em cartas, bilhetes e telegramas, tem seus problemas por conta disso (acho estranho, por exemplo, que alguém reproduza em uma carta um longo diálogo, como se lembrasse de tudo o que conversou com outra pessoa), mas tirando esses pequenos detalhes, A caixa-preta é sensacional. O livro mostra as trocas de correspondência entre um casal desfeito, o filho deles, o novo marido da mulher, parentes e advogados, em uma trama que mistura a intimidade dos amantes e ex-amantes, os movimentos políticos de Israel, as disputas familiares e os joguetes com dinheiro e sentimentos entre os envolvidos. É bem legal ver como as conversas mudam entre os personagens e os diferentes estilos de narrativa utilizados, especialmente na escrita de Alec, o pai e intelectual.

lobo antunes

Ontem não te vi em Babilônia (Antônio Lobo Antunes)

A leitura mais difícil do ano e também uma das mais prazerosas. O que sempre me faz pensar: por que diabos algumas pessoas acham que essas duas coisas são opostas?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s