“Sinfonia em branco”, de Adriana Lisboa, no Clube de Leitura “Quartos de escrita”

Amanhã, dia 22/07, é o último encontro da série do Clube de Leitura Quartos de escrita, no Sesc-Bauru (mais detalhes AQUI). Como já disse antes nesse blog, tem sido uma série de conversas sobre livros de autores que fizeram parte da exposição de mesmo nome, com retratos feitos por Daniel Mordzinski. É às 18h30, grátis.

Para fechar com chave de ouro, conversaremos sobre Sinfonia em branco, livro lindaço da escritora brasileira Adriana Lisboa.

A ideia por trás das escolhas dos livros (os anteriores foram Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago e Tia Julia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa) foi ter um conjunto que pudesse oferecer uma experiência de se ter contato com uma literatura cada vez mais “nova” (para alguns) e, ao mesmo tempo, mais próxima geograficamente. Ensaio sobre a cegueira é um livro o qual a maioria das pessoas que gosta de literatura já leu, e imaginei que começar com ele seria uma porta de entrada mais convidativa. Ainda que alguém ficasse sabendo do Clube apenas em cima da hora, era mais provável que já tivesse lido o livro e pudesse aparecer na boa. Llosa seria o nosso representante latino-americano e estrangeiro, que a maioria dos leitores já ouviu falar, mas muitas vezes nunca leu à vera. Adriana Lisboa seria a nossa cereja do bolo, brasileira e grande novidade para a maioria.

Aparentemente, as escolhas foram boas. Minhas impressões sobre o conhecimento ou desconhecimento das obras se confirmou em grande parte, e principalmente: eu disse para todo mundo que iam adorar o livro da Adriana e já tenho recebido vários feedbacks confirmando isso. Preciso dizer que poder apresentar literatura brasileira contemporânea de primeira qualidade para algumas pessoas, e vê-las adorando o livro (como eu adoro) é muito realizador. Pra mim, esse é um dos grandes baratos desse Clube.

Se você não conhece Sinfonia em branco, não conhece um dos maiores livros da literatura brasileira. É de chapar, e já repeti algumas vezes que entra fácil no meu Top 10 (sim, contando com todos os livros do mundo e de todas as épocas). Quando você o lê, a primeira coisa que pensa é: “Isso é maravilhoso!”, a segunda é: “Como eu não conheci isso antes?!”, e a terceira: “Alguém liga para o comitê do Nobel, que essa entrega está atrasada”.  Meu conselho é: coloque esse livro na sua lista e o leia o quanto antes.

A história é focada em duas irmãs, Maria Inês e Clarice, e em Tomás, um conhecido de ambas. Os três tiveram grande parte de suas vidas cruzadas, e agora se reencontrarão, depois de muito tempo. Há muitos segredos de família, muitos sentimentos guardados, muitas possibilidades não vividas e muitas lembranças em jogo. Isso tudo, porém, não diz quase nada da dimensão do livro.

Para mim, o que mais fala sobre o livro é a escolha extremamente criteriosa de palavras e frases que formam a linguagem e os sentidos do texto. Como Lisboa usa o fato de se colocar em seguida, por exemplo, dois eventos que não têm uma ligação direta entre si, mas passam a ter por conta de sua localização na frase; de como isso amplifica a força de certas ações simples. Também, como suas descrições das personagens são precisas e fortes, com pouquíssimas palavras ou elementos certeiros. Ou como as caracterizações do ambiente se transformam e atuam como expressividade das personagens nesses ambientes (o tipo de coisa que deveria encerrar de vez aquele desprezo por adjetivos que certos escritores demonstram). Em Sinfonia em branco, as palavras, o lugar das palavras, as relações entre as palavras e suas escolhas funcionam como uma espécie de microcosmos de temas e variações a criarem e amplificarem novos sentidos a todo o tempo na narrativa e na dramaticidade. Lisboa é formada em música, e sendo eu também um músico e escritor, imagino que essa formação tenha a ver com esse trabalho tão ligado à estrutura e forma do texto, a seus motivos e variações, e como isso funciona tão bem.

Eu poderia dizer mais um monte de coisas e provavelmente nenhuma delas faria jus ao livro. É literatura da mais alta qualidade. E relendo o livro descubro tantos detalhes que não pude captar antes, é dessas obras que podem sempre ser redescobertas. Por isso, mudo meu conselho: coloque Sinfonia em branco na sua lista, leia-o e volte-o ao começo da fila, para relê-lo. Garanto que é uma grande experiência. Se você não ficar com vontade de me escrever para dizer que ficou muito impressionado, te dou seu dinheiro de volta.

 

 

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