Rebentar: uma introdução

Em agosto lanço meu novo livro, o romance Rebentar. Já falei um pouco sobre ele em alguns lugares, mas agora, com a data de lançamento se aproximando e tudo basicamente preparado, é hora de começar a apresentá-lo mais diretamente. Ele será publicado pela Editora Record, casa que também publicou meu livro de estreia, Réveillon e outros dias, e da qual fico muito feliz de fazer parte. A foto da capa é da grande fotógrafa Nádia Maria, cujo (lindo) trabalho você pode conhecer AQUI. O layout é de Frede Tizzot, que é também editor da Arte & Letra. Tem muito mais gente a mencionar e a agradecer por participar dessa comigo (vide os agradecimentos do livro), mas gostaria de destacar aqui também o escritor João Anzanello Carrascoza, que admiro muito e foi quem escreveu o texto da orelha (aliás, maravilhoso). Em breve, devo anunciar as datas de lançamento e tudo mais; por ora, falo sobre a história aqui, para já ir aquecendo. Mas antes, claro, eis a carinha dele:

Capa Rebentar AG V5.indd

O livro conta a história de Ângela, cujo filho, Felipe, desapareceu quando tinha apenas 5 anos de idade. Ela o deixou sozinho em uma loja de brinquedos de uma galeria, por apenas alguns minutos, e ele nunca mais foi visto. Ângela o procurou desesperadamente não só pelas horas imediatamente posteriores à percepção de sua falta, mas por todos os anos seguintes em que não teve mais nenhum sinal de seu rebento. Sua vida se despedaçou por completo. Ela passou 30 anos sem fazer quase mais nada, a não ser tentar reencontrar o filho e sofrer sua perda. Mas agora decidiu que precisa se dar o direito de seguir com a própria vida, encerrando a busca e a espera por Felipe, através de um desfecho pessoal, uma renúncia. Esse é o ponto de partida de Rebentar.

Entrevistei algumas mães de filhos desaparecidos para escrever esse romance, e posso dizer que a devastação causada em seu mundo é aterradora. Não é incomum que algumas delas de fato tenham suas vidas “paralisadas” por conta do desaparecimento de seus filhos. Ângela passou três décadas nesse estado e agora, a fim de dar um recomeço a si mesma, há muito o que atravessar, especialmente do ponto de vista emocional. Aceitar que não pode ter mais seu menino de volta é quase como cometer um filicídio sentimental, em nome da continuidade. Eu gosto dessas histórias que parecem contraditórias, que parecem revelar como pode ser imenso o peso da ternura. No fundo, no fundo, Rebentar é um livro sobre a vida, a morte, e tudo o que há no meio.

Em vez de tentar explicar o livro, talvez seja melhor mostrar um pouco dele. Então, aí está, senhoras e senhores: um trecho de Rebentar. Boa leitura.

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Ela respira lentamente, regida sem perceber pelas pulsações da maré. O ar gélido atravessa seus pulmões conforme a orla inala e exala a espuma das ondas. O inverno parecia já estar se recolhendo nos últimos dias, mas seu hálito frio se reerguera de forma inesperada. Ângela se contrai um pouco, cruzando contra o peito os braços desprotegidos e as mãos guardadas; pensa em como as estações do ano se tornaram apenas mais um dos desenredos na trama do tempo, desfeita desde o dia em que Felipe desapareceu, quando tinha cinco anos.

Foi naquela data que deu início ao hábito de vir a esse lugar, o antigo cais. Hoje será a última vez que o repete. Dentro dos trinta anos que separam os dois momentos, em praticamente todos os dias ela visitara esse refúgio particular, onde sentia uma espécie de suspensão do tempo. Nem mesmo ela poderia explicar isso, mas esse recanto sempre representou uma pausa segura, desde os primeiros instantes da procura. Após chamar pelo nome de Felipe por toda a cidade surda, Ângela chegou a esse ancoradouro e, diferentemente do que ocorrera em outros pontos, não sentira que cada minuto passado ali, sem encontrar seu menino, representava uma chance desperdiçada de tê‑lo recuperado em algum outro lugar. Não sentiu que deveria sair dali imediatamente, tomando outra rota dentro desse labirinto da ausência do filho, cujas paredes começavam a se erguer do chão despedaçado. O que pesou sobre ela foi perceber o fim daquele lapso inicial: ali, onde a cidade acabava no mar, também encontrava fim a chance de que seu garoto estivesse a apenas um pequeno engano de distância e tudo pudesse ser resolvido de forma simples; que ele tivesse somente perdido o caminho entre os corredores da galeria, ou algo assim, e tentado voltar para casa sozinho, em desnorteios não decifrados pelos adultos. A ampulheta demoníaca a medir cada segundo das primeiras buscas fracassadas a partir dali cederia lugar a calendários contando dias, meses e anos — que ela ainda não sabia quantos seriam — tragados por esse vazio que se abrira. Felipe não tinha sumido por conta própria, ficava mais claro. E foi enquanto a sombra de um raptor crescia no pensamento de Ângela, no dia do desaparecimento, que ela ouviu pela primeira vez sua voz interior reverberar contra si: ele desapareceu. Repetindo‑se cada vez mais forte e mais rápido, em espirais que a afogavam: ele desapareceu, ele desapareceu, ele desapareceu

Naquele instante, Ângela, depois de tanto correr contra o tempo, caiu sobre os joelhos e permaneceu paralisada, deixando‑se pela primeira vez rebentar em choro pela perda do filho. Nesse cais abandonado. Na beira da plataforma interrompida, diante da qual se estendia o mar. Era um fim de tarde cinza e frio como o de agora — no inverno culminante do mês de julho —, e ela sentia sua pele arder trêmula sob a superfície, perpassada pelo hálito gélido da morte. Depois de trinta anos, ainda persistem essas vibrações em formigamentos ocasionais. A morte passara a inalar e exalar cada um dos dias de Ângela, em um movimento infindo. Felipe nunca foi encontrado. Não restou nenhum vestígio comprovado dele. Nas últimas três décadas, desde aquele instante em que ela soltara a mão dele na galeria até hoje, a solução de seu caso não tivera avanço algum. Apesar de todos os esforços, mãe e filho não deram nenhum passo rumo a uma reaproximação verdadeira.

À época do desaparecimento, esse cais já estava abandonado. Foram realizadas por esses arredores algumas buscas pelo garoto — por seu corpo sujeito a emergir das águas —, e ao fim dessas missões, que Ângela acompanhara de perto, ela sempre se detinha solitária no cais abandonado, quando todos já haviam se retirado de mais um dia de fracassos. Nesse recanto, cercado por montanhas que ocultavam a cidade e seus ruídos, ela encontrava seu retiro. Passara a postar‑se ali todos os dias, restabelecendo a vocação do porto, que já não guardava mais nenhuma embarcação; apenas a mulher ancorava‑se ali com sua solitude, tentando não ser levada pelas correntes do tempo.

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4 comentários sobre “Rebentar: uma introdução

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