“Tia Julia e o escrevinhador”, de Mario Vargas Llosa, no Clube de Leitura do Sesc

O segundo encontro do Clube de Leitura do Sesc-Bauru será na próxima quinta-feira, dia 25 de junho (Mais informações AQUI). Veremos o trabalho de outro escritor retratado na exposição Quartos de escrita, de Daniel Mordzinski, em exibição também no Sesc: Mario Vargas Llosa, com seu Tia Julia e o escrevinhador.

Quando escolhi os três livros para o projeto, procurei manter uma certa diversidade, para que não somente cada livro fosse interessante, mas também o conjunto como um todo. Reunindo Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, Tia Julia e o escrevinhador do Llosa e Sinfonia em Branco, da Adriana Lisboa (tema do encontro seguinte), temos um europeu, um latino-americano de fora do Brasil e uma brasileira, e mais do que isso, temas bastante diferentes para discutir. O primeiro contém questões de alegorias e de elementos que se relacionam diretamente à nossa vida cotidiana, em sociedade; Tia Julia, imagino que vá despertar questões de relações entre realidade/ficção, vida/obra, memória/invenção, alta cultura/cultura de massa; ao menos em minha leitura, essas tensões se destacam na feitura do livro.

O próprio Llosa já mencionou em entrevistas que esse livro teve o projeto de misturar memória e ficção. A história tem dois universos e dois eixos principais: um deles é a parte mais diretamente autobiográfica, que conta sobre quando Vargas Llosa (ou “Varguitas”, como é o apelido de seu alter-ego no livro) começou a se envolver amorosamente com sua tia Julia.  O outro eixo vem do personagem de Pedro Camacho, o tal “escrevinhador”. Ele escreve radionovelas e vem trabalhar na mesma estação de rádio que Varguitas, um escritor em início de carreira. Na verdade, essa ideia de escrever sobre Camacho e suas telenovelas surgiu primeiro; somente depois Llosa decidiu colocar junto a ela sua trama com tia Julia, a parte mais autobiográfica do livro. Se você está com o espanhol em dia, pode ver o próprio autor falando sobre isso.

Se você assistiu o vídeo, deve ter visto que Llosa comenta sobre ter começado a escrever uma história que parecia artificiosa demais, portanto lhe pareceu uma boa ideia inserir algo de “real”, no caso a parte “documental” de seu relacionamento com a tia Julia. O que descobriu, segundo ele, é que tudo vira ficção no romance, não há uma versão definitiva da “realidade”.

Outra coisa vista no vídeo é que a plateia ri quando Llosa comenta sobre o escritor de novelas que inspirou Camacho, dizendo que ele não lia nada por alegar que “não queria ser influenciado”. É de fato risível e a maioria dos escritores que dizem isso estão um tanto sem direção, mas… O fato é que no livro há essa tensão entre a alta cultura (representada pela literatura, especialmente a que Varguitas produzia e lia para os amigos) e a cultura de massa (representada pelas telenovelas de Camacho, sempre popularescas e com sucesso de público). Llosa faz um jogo interessante de contrapontos, ao mostrar, de um lado, seu período de formação, como Varguitas, e a crença inicial de que a literatura deveria ser altiva. Isso o leva a escrever contos com títulos pedantes, que parecem se afastar de uma força inerente para buscar uma conquista formal que tampouco alcançam, bem como falham em comover a seus leitores. Ao ver os resultados da atividade de Camacho, Varguitas parece aprender que talvez “baixar a bola” de sua escrita possa ser um caminho saudável. O “escrivinhador” (é claro que a alcunha pejorativa aponta um julgamento) faz o percurso contrário: escreve um produto popularesco – as telenovelas – mas enxerga a si mesmo, cada vez mais, como um ser iluminado, portador de uma arte que fica acima de tudo, inclusive de sua própria vida ou dos meios de produção. Camacho tem o discurso de um artista “puro”, praticamente sacerdotal. Daí vem sua ruína, em grande parte.

Realidade e ficção, memória e invenção, vida e arte, tudo isso se confunde o tempo inteiro no livro. Llosa ficcionaliza a realidade, ao escrever sobre fatos de sua própria vida, e “realiza” a ficção, ao intercalar no livro capítulos que são as histórias das telenovelas, como se lêssemos diretamente a obra de Pedro Camacho. É um jogo bem interessante de construção, que nos coloca “em contato” com os personagens, em vez de somente “narrá-los”.

E, sim, a tia Julia realmente existiu (são ela e Llosa na foto do topo) e eles realmente se casaram. Se foi tudo como está no livro? Bem, basta dizer que anos depois Julia escreveu um livro chamado Lo que Varguitas no dijo (título que poderia ser traduzido mais ou menos como “O que Varguitas não contou”), com seu relato da história sobre o relacionamento. Se houvesse uma versão definitiva da “realidade”, não haveria porque se escrever dois livros.

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