Viver da escrita

Há alguns dias, participei de uma matéria do site Homo Literatus, em que 10 escritores respondiam a pergunta: “O que é ser escritor no Brasil em 2015?” (Você pode lê-la clicando AQUI). Rolaram muitos comentários em relação a ela, seja no próprio HL, nos seus compartilhamentos facebookianos, ou por email e inbox.

Aparentemente, uma das coisas que parece ter soado como grande – e desanimadora – novidade é o aspecto da im/possibilidade de se “viver da escrita”, no sentido de largar o emprego e tudo mais, para só escrever e pagar as contas com isso. Por isso, decidi escrever um post aqui a respeito dessas relações financeiro-empregatícias com a literatura hoje.

A primeira coisa que acho que deve ser esclarecida é que cada escritor tem sua vida e visão próprias. Não adianta pegar um depoimento e lhe dar um valor de verdade absoluto (sim, este meu incluído). Os escritores falaram coisas diferentes entre si, e provavelmente poderiam dizer ainda outras se a mesma pergunta tivesse sido feita um mês antes ou depois. A segunda coisa importante a se dizer é que há uma enorme diferença entre certas vertentes do mercado de livros. Para ficar só na ficção, consideremos: literatura infantil e juvenil, literatura mais comercial (chick-lit, young adult, livros de vampiros e os genéricos de Cinquenta tons de cinza) e “literatura-literatura” (não há um termo para essa vertente, que enquadra nomes como Cristovão Tezza, Dalton Trevisan e Luiz Ruffato, por exemplo, por isso copiei o jeito que a maioria das pessoas fala, para evitar o “literatura séria” ou “literatura de verdade”). Elas são como mundos distintos, na maior parte dos casos. Tirando o fato de que o trabalho desses escritores se centra na palavra e é impresso em um livro, todo o restante pode ser completamente diferente, quando você compara a vida do Rubem Fonseca com a da Thalita Rebouças, por exemplo. Não vou nem entrar no mérito da questão artística; só quero dizer que os escritores de cada meio circulam por rotinas, pessoas e atividades que pouco têm a ver umas com as outras. Se você reparar, mesmo os selos e editoras que priorizam um ou outro gênero são diferentes.

Por isso, se você pretende escrever livros de vampiros, voltados para adolescentes, não adianta muito ouvir o que o autor do romance premiado pelo Jabuti tem a dizer sobre a rotina profissional do escritor. Há um tempo atrás, o Santiago Nazarian fez uma pesquisa informal sobre a renda dos escritores e a publicou na Folha de São Paulo (leia AQUI). O resultado é que quase nenhum escritor vive somente da escrita. A resposta veio com uma carta do Raphael Draccon, defendendo que era muito possível viver de literatura, sim, como ele faz (leia AQUI). A questão aqui, para mim, não é dizer que um lado ou outro esteja certo, mas simplesmente ressaltar o óbvio: são dois lados completamente diferentes da questão. É claro que é possível ter sua renda apenas de literatura quando você escreve livros de fantasia e tudo mais. Você forma filas em Bienais, publica com frequência, dá origem a produtos correlatos – como vídeos, vestuário, etc. – e lida com outro público. Quando você escreve um romance polifônico, experimental, sobre dramas humanos, dificilmente vai ter também adolescentes e editores correndo histéricos atrás de você.

Sim, eu sei que você já pensou em alguns nomes que desafiam o que acabei de dizer. Os que unem os diferentes públicos, os que vendem muito mesmo fazendo “literatura-literatura”, etc. etc. Eles existem, claro, mas são exceções. Não dá pra simplesmente todo mundo planejar ser o Saramago dessa década. Então, a primeira coisa que sugiro que você faça, se pretende investir seriamente no trabalho com literatura, é tentar sacar qual é o mundo onde você entraria e como ele funciona, em geral. Não que eu defenda a postura de “planejar a escrita de acordo com o que o mercado espera”, mas sim de saber onde você está se metendo e como se ajeitar ali, para não fazer muito feio, no mínimo. Não adianta você querer entrar em uma partida de futebol e pegar a bola com a mão, já que um jogador de handebol tinha te falado que podia. Simples assim: para cada jogo a sua lógica própria.

Uma vez que você saiba em que vertente entra, é mais produtivo tentar entender como ela funciona especificamente e ver se dá pé viver só desse tipo de literatura. Claro que é tudo muito arriscado e dependente de sorte. Não dá para entrar no financiamento de um carro planejando quitá-lo quando receber o Prêmio São Paulo, ou fazer um cronograma das etapas para ser a grande vedete do terror brasileiro. Sinceramente? Meu conselho para 99% dos casos seria: em primeiro lugar, fique no seu emprego e organize um horário para escrever um livro bom. Em segundo lugar, acostume-se com essa vida.

Mas como disse, cada universo tem suas particularidades, que devem ser levadas em conta. Um autor de livros infantis, por exemplo, consegue publicar bastante, porque os textos são bem curtos; não é difícil encontrar um que tenha 30 anos de idade e 50 livros publicados já. Somar o dinheiro que vem de direitos autorais da venda de 50 livros, que frequentemente são adotados por escolas, é bem diferente de somar o que vem de 2 ou 3 romances que um cara da “literatura-literatura” pode ter, com sorte, a essa altura. Se entrarmos no mundo da não ficção – biografias, livros técnicos, auto-ajuda, etc. – a coisa é mais diferente ainda.

Vou falar um pouco mais dessa “literatura-literatura”, que é onde me encaixo. Sim, as vendas são pouquíssimas. Não vou falar em valores para não passar vergonha, mas juro que para a maioria não daria para pagar um almoço legal todos os dias do mês só com o dinheiro das vendas dos livros. Olha só: muitos dos livros dessa categoria saem com uma tiragem de 2.000, 3.000 exemplares. Se você olhar na primeira página de algum e não estiver escrito “2a. impressão” ou algo assim, saiba que o cara ainda não passou dessa marca, provavelmente (há tiragens maiores, claro, não saia julgando com tanta certeza).

Antes que você comece a falar que a culpa é dessa merda de país, onde ninguém lê, me faça um favor: escreva uma listinha com todos os livros de autores brasileiros vivos que você comprou e leu esse ano. Percebeu o problema? E olha que estamos aqui conversando já entre uma pequena parcela da população, que se interessa por literatura.

O que tem acontecido atualmente é que há muitos eventos literários, aonde os escritores vão, geralmente, em troca de um cachê. Isso é legal, do ponto de vista financeiro e de divulgação. Se você gosta, como eu, de poder conversar com o público e outros colegas, melhor ainda. Então, quando um escritor de “literatura-literatura” vive só de literatura, na verdade, dificilmente ele somente escreve. Sua renda vem, além da venda de livros, de participações em eventos e outros trabalhos relacionados com a literatura. Exemplos são as traduções de livros de outros autores, a curadoria de eventos e publicações, a escrita de resenhas e matérias para jornais, etc. Acha que ainda poderia viver em plena paz e alegria se traduzisse livros dos outros? Espere até ouvir o prazo que te dão para essa tarefa.

Você que sofre por estar no escritório enquanto desejaria estar escrevendo, não é tão diferente quanto pensa dos escritores que inveja. Provavelmente, esses escritores que “vivem da escrita” também se pegam com o mesmo tipo de pensamento várias vezes. A diferença é que eles queriam estar trabalhando em seus livros ao invés de traduzir um livro inglês de dicas para ficar magra, ou de estar esperando um voo atrasado no aeroporto, em direção à quarta viagem para um evento literário da semana (some as horas perdidas entre voos, vans, hotéis, conversas e tudo mais: pode passar das famosas 40 horas semanais de um empregado).

Não se engane, todos nós temos milhares de coisas que nos ocupam. Todos nós temos tempo e temos falta de tempo. Todos nós desperdiçamos horas no facebook e reclamamos da fila de banco que nos tira 20 minutos da potencial escrita-que-transformará-o-mundo. “Viver da escrita” não resolve isso para ninguém. Já que mencionamos o Saramago, recomendo que você assista ao documentário José e Pilar, que mostra sua rotina. Eis um cara que ganhou o Nobel, se isolou em uma ilha e só trabalhava com a escrita literária: o que tinha que aguentar de encheção de saco era muito mais do que você, provavelmente. E ele mantinha uma regularidade de publicações bem grande.

Ninguém precisa ter 100% de seu tempo diante do Word para ser escritor. Esqueça isso. Pegue seus livros preferidos e você vai ver que a maioria deles foi escrito em um momento em que o autor trabalhava com outras coisas. Machado, Guimarães Rosa e muitos outros grandes tinham uma profissão paralela à escrita. Pode ser uma questão de momento, você sempre pode ter uma prioridade ou outra, mas se está sempre dizendo que gostaria de escrever um grande livro e poderia fazê-lo se tivesse mais tempo para suas coisas, cuidado: você pode estar apenas dando uma desculpa para si mesmo.

Por último, gostaria de dizer que o fato de não poder pagar minhas contas com o que escrevo não afeta em absolutamente nada o quão profundamente mergulho em minha literatura. As horas que dediquei à escrita de Réveillon e outros dias foram de extrema dedicação e total imersão. Eu não tinha um contrato, não tinha conhecidos no ramo e muito menos poderia saber que ganharia o Prêmio Sesc. Não larguei meu emprego, nem pensei se era um bom investimento do meu tempo. Tudo o que pensei e senti era que aquilo era importante para mim, era o que eu mais queria fazer. Escrevi um livro inteiro sem nem saber se seria publicado. E foi uma das épocas mais legais da minha vida.

No momento em que se escreve, se está sempre sozinho diante das palavras. Se elas depois vão ser lidas por um milhar ou um milhão de pessoas é algo fora do seu controle e fora da sua criação. O número é o importante para você? Então, realmente acho que você deveria pensar em fazer vídeos para o Youtube, a literatura não é a onda mais popular do momento. Ah, o número não é o mais importante para você? O que importa é que você se realiza com a escrita e acha importante o que tem a dizer? Então, amig@, você não precisa se enrolar em dúvidas. Você, de certa forma, já “vive de literatura”. Não é escrevendo que você se sente mais vivo?  Então, pronto, reveja o significado da expressão. A vida é uma soma de muitas coisas, sempre vai ser. A arte, os amores, os lazeres, as demandas práticas e financeiras, os medos, as tragédias incontroláveis… Isso tudo vai estar presente na existência de todos. Como você ajeita essa grande soma e se sente em relação a ela é que é o negócio. A gente vive mesmo é de muita coisa, a escrita é uma parcela delas, ganhar dinheiro pode muito bem ser outra. Cuidado para não deixar de aproveitar o que pode viver com a escrita, ao ficar tão preocupado com o tal “viver da escrita”.

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17 comentários sobre “Viver da escrita

  1. Pingback: sobre ser escritor | Arnaud Mattoso escrever é viver

  2. Viver para escrever é diferente de viver e escrever… e de escrever para viver. Muito bom esse Viver da Escrita. A lucidez de seu autor é impressionante.

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  3. Gostei muito do seu artigo. Parabéns! Eu também me enquadro no grupo dos que pretendem um dia “viver da literatura”, mas, como você disse, o importante é “viver com a literatura” e isso é uma grande verdade, pois, hoje a única coisa que não conseguiria é “viver SEM a literatura”.

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  4. Parabéns pelo artigo, excelente!
    Foi uma indicação de meu namorado, escritor também. Seu texto provocou em nós uma grande reflexão sobre a escrita. Você não imagina o quanto nos ajudou!
    Abraços

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