“Ensaio sobre a cegueira” e o Clube de Leitura “Quartos de Escrita”

 

Clube de Leitura “Quartos de Escrita”

Na próxima quinta-feira, dia 21/05, tem início o Clube de leitura paralelo à exposição “Quartos de escrita – escritores em quartos de hotéis”, no Sesc – Bauru. A exposição mostra retratos feitos por Daniel Mordzinski de vários autores da literatura e recomendo muito a visita. Como atividade complementar da exposição, foram programados três encontros mensais, mediados por mim, para se conversar sobre alguns dos livros dos escritores retratados.

O primeiro encontro, na próxima quinta-feira, dia 21, será focado em “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. O segundo, em junho, será sobre “Tia Júlia e o escrevinhador”, de Mário Vargas Llosa e o último, em julho, sobre “Sinfonia em branco”, de Adriana Lisboa. Um português, um latino-americano (fora do Brasil) e uma brasileira. Três livraços.

Os encontros são gratuitos, abertos a qualquer pessoa, e se você se interessou, pode buscar mais informações clicando AQUI.

Agora eu queria falar um pouco sobre o livro em questão.

“Ensaio sobre a cegueira”

Esse é um dos meus livros preferidos na vida. E preciso dizer uma coisa: é a narrativa que eu mais invejo, a que eu mais gostaria de ter escrito (quem me dera!). Pra mim, “Ensaio sobre a cegueira” é um grande retrato do funcionamento das pessoas. Eu sempre gosto de situações em que pessoas ou personagens são espremidos até o fim, para mostrar do que são feitos. Uma epidemia de cegueira – e um trancafiamento em um manicômio abandonado – são elementos perfeitos para se levar essa pressão ao máximo, expondo não só os comportamentos dos indivíduos, mas também sua relação com o coletivo. É um verdadeiro ensaio sobre o funcionamento das sociedades.

É comum fazerem uma leitura desse livro na chave de “como seria” a sociedade se acontecesse algo como uma cegueira coletiva, mas acredito que o tempo verbal da metáfora seja outro. A proposta aqui é dizer “como é” a sociedade, com sua cegueira coletiva. Há várias passagens do livro que indicam essa ideia de que a cegueira sempre existiu (“A mulher do médico disse ao marido, O mundo está todo aqui dentro”, p. 102; “[…] sendo este mundo dos cegos o que é, sucedeu o que sempre há-de suceder”, p. 191; “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.”, p. 310), além dos comportamentos “sem visão” que se repetem entre os cegos e não cegos (a forma como os soldados que cercam o manicômio lidam com os internos é sempre exemplar disso).

O próprio título do livro, e sua menção a um “ensaio”, fazem da história mais uma analogia, um recorte, do que uma estória localizada em determinado tempo e espaço, isolado da realidade. Os conflitos, comportamentos, violências e relações de poder do livro, por mais brutais e animalescas que pareçam, não são muito diferentes das que se vê todos os dias no jornal. Eu não sou exatamente uma adepto de se tomar as metáforas da literatura para ver o que elas dizem sobre “os dias de hoje” ou algo assim (isso me parece coisa de redação do Enem), mas o poder de “Ensaio sobre a cegueira” em relação à síntese do funcionamento das sociedades e dos comportamentos humanos/animais é algo que não dá para não “enxergar”.

Enfim, conversaremos bastante sobre tudo isso e muito mais no nosso encontro do dia 21, no Sesc – Bauru. Se podes ir, vá. Se podes ler, repara.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s