Os livros lançados em 2014 que mais gostei

Chega o fim do ano e todo mundo disponibiliza suas listas de “Os Melhores (…) de 2014” ou algo do gênero. Bom, eis a minha listinha: os livros lançados em 2014 que mais gostei de ler.

Antes que você role rapidamente a página só para ver os escolhidos e ruminar suas revoltas contra minhas escolhas, ou enumerar os livros que faltaram – e jamais poderiam faltar, imagina! – aviso: essa não é uma lista que pretende dizer quais foram os melhores livros lançados. Não existe medidor pra isso, em primeiro lugar, e em segundo, eu passo bem longe de ser um leitor profissional, que tenha checado a maioria dos lançamentos. Sou um leitor lento, amador, e gostaria que considerassem essa minha lista apenas como uma resposta amigável a alguém que me perguntasse: “Do que foi lançado esse ano, tem alguma coisa que você acha que eu ia gostar de ler?”

É esse o espírito. Relaxem e aproveitem.

Caderno

 

Caderno de um ausente – João Anzanello Carrascoza (Ed. Cosac Naify)

Conheci o trabalho do Carrascoza ano passado, e ele foi o meu escritor “preciso-ler-tudo-desse-cara-agora” de 2013. Seus textos se tornaram uma influência muito grande na minha escrita, especialmente no trabalho com Rebentar, romance que lanço em 2015, e que foi escrito em grande parte paralelamente a essas leituras. Comecei por Aquela água toda, depois li Aos 7 e aos 40, O volume do silêncio e Amores mínimos. Posso recomendar qualquer um desses livros como uma baita leitura (aliás, já recomendei diversas vezes), mas devo dizer que Caderno de um ausente, romance dele lançado esse ano, tornou-se o meu preferido. A escrita do Carrascoza sempre teve um tom lírico, poético, mas nesse livro ela adquire uma nova tonalidade, mais… mais… hmmm, não sei que palavra utilizar. Talvez o trecho a seguir demonstre um pouco melhor o que eu gostaria de dizer.

Trecho:

[…] eu sei que quase ninguém se melhora nesta jornada, Bia, as garras nunca param de crescer em nossas mãos e em nossos pés, apenas se tornam fracas e inofensivas, mas, por tudo isso que desconheço, eu sei que não vão poupar a tua gengiva na hora de arrancar os dentes, não vão economizar saliva pra inundar de críticas as tuas conquistas, não economizarão mordaças pra amarrar a boca das palavras no teu silêncio, eu sei que as noites estreladas, se lindas e inesquecíveis, podem cegar as tuas lembranças, eu sei que certos sonhos têm a consistência dos rochedos, eu sei que o dardo dos gritos quase nunca atinge o alvo, e há outras fomes que não se come com garfo e faca, e há carícias que nos sugam mais do que solos movediços, e tudo se apaga quando o medo não consegue dormir, Bia, e tudo se acalma quando cessa o torvelinho dos pensamentos, e tudo se ilumina quando temos a manhã em nosso corpo, e a âncora do perdão nunca mais se solta da consciência, e as ideias gagas por vezes nos salvam dos abismos, e os sonhos soluçantes nos mudam os olhos […]

festa

A festa da insignificância – Milan Kundera (Ed. Companhia das Letras)

Se Carrascoza foi meu autor “preciso-ler-tudo-desse-cara” de 2013, Milan Kundera foi o de 2014. Kundera já figurava na minha extensa lista de “autores-obrigatórios-que-nã0-li” há um tempo, então o lançamento de um romance dele após anos sem nada novo parecia a desculpa perfeita. Li A festa da insignificância e gostei muito. Inclusive o citei como minha escolha de 2014 na lista do Amalgama (clique AQUI para ler). A sua forma de trabalhar o texto com ideias bastante provocantes, mas de forma muito concisa e simples, tem sido um grande exemplo pra escrita de meu próximo romance. Aliás, A arte do romance, livro do Kundera que li logo em seguida, deveria ser obrigatório nas escolas. E não, não é um livro só para pessoas que querem escrever um romance, é bem mais do que isso.

Trecho:

– Se sentir ou não se sentir culpado. Acho que tudo depende disso. A vida é uma luta de todos contra todos. É sabido. Mas como essa luta acontece numa sociedade mais ou menos civilizada? As pessoas não podem se atirar umas sobre as outras sempre que se encontram. Em vez disso, tentam jogar no outro o constrangimento da culpabilidade. Ganhará aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perderá aquele que reconhecer sua culpa. Você vai pela rua, mergulhado em pensamentos. Em sua direção vem uma moça, como se estivesse sozinha no mundo, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita, indo direto em frente. Vocês se esbarram. Eis o momento da verdade. Quem vai insultar o outro, e quem vai se desculpar? É uma situação-modelo: na realidade, cada um dos dois é ao mesmo tempo o que sofreu o esbarrão e o que esbarrou. E, no entanto, há os que se consideram, imediatamente,  espontaneamente, os que esbarraram, portanto culpados. E há os outros, que se veem sempre, imediatamente, espontaneamente, como os que sofreram o esbarrão, portanto no seu direito de acusar o outro e de fazer com que este seja punido.

Sonhos

Sonhos rebobinados – Humberto Werneck (Ed. Arquipélago)

Conheci o Humberto pessoalmente no Fórum das Letras, em Ouro Preto, ano passado. Lá mesmo, já fiquei muito admirado com as histórias que ele tinha pra contar e, claro, a forma como ele as contava (traço definidor de qualquer bom prosador – com o perdão da rima). Aliás, se houver algum evento em sua cidade com participação dele, não perca de jeito nenhum. Depois de conhecê-lo, e de tê-lo no meu Facebook, nunca mais passei um domingo sem ler as crônicas que ele publica no Estadão e compartilha o link. Em Sonhos rebobinados, estão reunidos alguns desses textos. Humberto, como um dos melhores cronistas em atividade, perpassa memórias, situações, pensamentos e jogos de palavras com uma enorme habilidade. São poucos os livros que me fazem rir ou me emocionar de verdade; esse faz as duas coisas.

Trecho:

Em 1964, aos 19 anos, entrei no Concurso de Contos da Prefeitura de Belo Horizonte, o mesmo certame em que brilhara repetidas vezes o craque Ivan Angelo. Certo de haver produzido uma pérola da ficção, inscrevi A Volta, conto no qual, entre outros horrores estilísticos, havia um telhado que “esplendia ao sol em iridescências feéricas”. Paguei caro. Meses mais tarde, já curado de tamanha literatice, alguém a quem fui apresentado me reconheceu e, numa roda, espezinhou: “Ah, você é o cara das ‘iridescências feéricas'”…

Pois bem: na empolgação de haver parido semelhante joia, perpetrei mais um conto, Aniversário de Formatura, que me pareceu menos bom que o precedente, mas ainda assim digno de concorrer ao prêmio. Levei os dois primeiros lugares – e o preferido dos jurados (aquelas antas, fulminei) não foi o tal do telhado iridescente.

Os contos foram publicados em domingos consecutivos no Estado de Minas, e na ansiedade por vê-los impressos fiz vigília na boca das oficinas do maior jornal mineiro, embriagado, devo admitir, não só de glória literária. Ganhei um cheque de 8 mil cruzeiros, e, ao descontá-lo no banco, a custo refreei a vontade de proclamar ao caixa, aos circunstantes, ao mundo inteiro, que aquele não era um dinheiro qualquer.

Mais adiante, venci um concurso universitário, e recebi das mãos de Alceu Amoroso Lima um cheque cujo valor já não lembro. Mas não esqueço o que considerei o maior prêmio: um dos jurados era o grande Murilo Rubião, que eu não conhecia e me mandou um exemplar de Os Dragões e Outros Contos, ofertado a um “contista que muito promete”. Fiquei lhe devendo, Murilo, a você e a mim, o cumprimento da promessa.

Antologia

Antologia poética – Murilo Mendes (Ed. Cosac Naify)

 

Murilo Mendes é um poeta maior com publicação menor. Nunca entendi isso muito bem. Felizmente, agora começam a surgir edições mais bacanas de suas obras, junto com essa Antologia poética, que é… bem, um tesão de livro. Um apanhado de seus melhores poemas (e a seleção é bem boa), em edição caprichada (em duas versões), com toda sua obra contemplada. Mapa é um de meus poemas preferidos na vida, mas há muitos outros que são de cair o queixo (pra não mencionar outras partes). O trecho seguinte, retirado do poema Lamentação, mostra uma das características do poeta, que foi, entre outras coisas, um dos maiores tradutores do clima de terror entreguerras.

Trecho:

Nenhum homem tem mais saída:/Antes de nós o dilúvio./Durante, o tédio no caos./Depois o épico escuro./A esperança desespera,/Os olhos não são para ver/Nem os ouvidos para ouvir.

O diálogo virou monólogo,/Meio-dia é meia-noite./Todos curvados constroem/Suas próprias algemas./O longo ai das criaturas/Sobe para o céu/Forrado de espadas.

 

 

final

 

Final do jogo – Júlio Cortázar (Ed. Civilização Brasileira)

Já que estamos falando de textos não exatamente inéditos, mas edições novas, permito-me acrescentar à lista de lançamentos recomendáveis de 2014 o Final do jogo, do Júlio Córtazar. Esse livro estava há anos fora de catálogo e finalmente tivemos uma nova edição. Eu, que sou fã do cara, já tinha lido alguns dos contos desse livro em outros volumes, no original; mas em português é a primeira vez que os leio reunidos e posso confirmar: esse livro é um dos mais bacanas de contos dele. Estão aqui alguns dos meus preferidos: O ídolo das Cíclades, As Mênades, O rio e A noite de barriga pra cima, que adoro e do qual separei um trecho aqui. Meu conto Nos olhos de Júlia, publicado recentemente na coleção Formas Breves, faz referência – ou devo dizer reverência – direta a essa história.

Trecho:

O que mais o torturava era o cheiro, como se mesmo na aceitação absoluta do sonho algo se rebelasse contra aquilo que não era habitual, que nunca havia participado do jogo até então. “Cheiro de guerra”, pensou, tocando instintivamente no punhal de pedra atravessado em sua cinta de lã tecida. Um som inesperado o fez agachar-se e ficar imóvel, tremendo. Sentir medo não era nada estranho, em seus sonhos o medo era constante. Esperou, escondido pelos galhos de um arbusto e a noite sem estrelas. Ao longe, provavelmente no outro lado do grande lago, deviam estar ardendo os fogos de acampamento; um resplendor avermelhado tingia essa parte do céu. O som não se repetiu. Tinha sido algo como um galho quebrado. Talvez um animal que fugia do cheiro da guerra como ele. Levantou-se devagar, farejando. Não se ouvia nada, mas o medo continuava ali, tal como o cheiro, aquele incenso adocicado da guerra florida. Precisava continuar, chegar ao coração da selva evitando os pântanos. Às apalpadelas, abaixando-se a cada instante para tocar no solo mais duro do caminho, deu alguns passos. Queria sair correndo, mas os mangues pulsavam ao seu lado. No caminho às escuras, procurou o rumo. Então sentiu um bafejo horrível do cheiro que mais temia, e pulou desesperado para a frente.

– Você vai cair da cama – disse o doente ao lado. – Não pule tanto, amigão.

 

 

K

K. – Bernardo Kucinski (Ed. Cosac Naify)

 

Sim, eu sei: K. foi lançado originalmente em 2011 pela editora Expressão Popular. Pensei um pouco se deveria acrescentá-lo aqui, já que o que foi lançado esse ano é apenas uma nova edição. Mas essa nova edição foi a “desculpa” que me serviu para ler o livro, então será também a “desculpa” que uso para acrescentá-lo à minha lista, esperando que isso sirva como “desculpa” para você ir atrás dessa obra fundamental. Levando-se em consideração o que vimos esse ano, especialmente na época das eleições, acredito que um relato tão pessoal e pungente da ditadura militar é de urgente leitura. Em K. (a referência a Kafka não é à toa) são esmiuçadas as diversas formas de violência da ditadura recente brasileira, seja sobre as vítimas ou sobre as pessoas próximas, como Kucinski, que escreve esse livro a partir do desaparecimento não-solucionado de sua própria irmã. Livro necessário.

Trecho:

K. cola-se ao rádio, outros esperam junto à tevê, um grupo aglomera-se defronte ao noticiário luminoso do Estadão; mães, irmãs, mulheres prenhes de espera. Aguardam o momento com a emoção antecipada de amantes de estrelas armados de lunetas à espera do eclipse único do século. Armam-se, neste caso, de esperanças. O presidente anunciara que, ao meio-dia em ponto, o ministro da Justiça Armando Falcão revelaria o paradeiro dos desaparecidos.

Ao se aproximar o instante da revelação, é como se o sol subitamente parasse no ar; o ar ficou parado no ar; o mundo parece ter parado. Quebrou-se o tabu. O Governo falará sobre os desaparecidos; por isso ressurgiu a esperança. Já haviam se passado seis meses desde a divulgação pelo cardeal arcebispo de São Paulo da lista de vinte e dois desaparecidos. Os jornais a reproduziram, embora discretamente, arriscando enraivecer a imprevisível censura.

E assim é. Meio-dia começa a transmissão. Nomes são ditos aos poucos em ordem alfabética. Em K. a esperança se esvai. O nome da filha, que por essa ordem deveria estar entre os primeiros, não chega. Outros que acompanham atentos o comunicado são tomados pela perplexidade. Este está foragido, este outro nunca foi preso, este também está foragido. Fulano já foi libertado depois de cumprir pena.

De repente é pronunciado o nome de um respeitado professor de economia que nunca desapareceu, que continua morando onde sempre morou e circulando onde sempre circulou, embora tenha sido expulso da universidade, seguido da afirmação maldosa de que está desaparecido. E depois mais outro, objeto do mesmo escárnio. Em vez de vinte e duas explicações, vinte e sete mentiras. Eis que, ao final, aparece uma referência à filha de K. Dela, diz o comunicado, assim como do marido e dois outros, não há nenhum registro nos órgãos do Governo.

Os militares cumpriram a promessa do presidente à luz da doutrina da guerra psicológica adversa. Nessa modalidade de guerra, confundir o inimigo com mentiras é um recurso legítimo; equivalente às cortinas de fumaça da guerra convencional. Enganaram-se os que esperavam a relação humanitária de vítimas de uma guerra já vencida. Ao contrário, a falsa lista revelou-se arma eficaz de uma nova estratégia de tortura psicológica. Teria sido melhor não dizerem nada, raciocina K.

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