A história por trás da história: “A lâmpada que nunca queima”

Réveillon e outros dias

A ideia pra esse conto surgiu da minha lembrança de um amigo ter me contado que, em uma entrevista de emprego pra uma grande empresa, um conhecido dele havia sido questionado sobre o que faria caso descobrisse um jeito de fabricar uma lâmpada que nunca queima. Obviamente, dentro da lógica capitalista, isso pode ser um grande dilema.

Sempre achei interessante essa tensão. Uma invenção como essa representaria – para a maioria das pessoas, ao menos – um avanço benéfico, algo sobre o qual não haveria qualquer questionamento quanto à validez. Mas dentro do contexto de uma grande empresa isso é apenas um produto que, na ponta do lápis, poderia dar mais prejuízo do que lucros, portanto… não é um bom invento, ao menos não para a meia-dúzia de grandes empresários que tomam a decisão quanto a esse assunto.

Achei que podia criar um conto onde são colocadas críticas a esses modelos, que priorizam o mercado e os lucros acima de qualquer benefício humano e geral. Mas, claro, sempre gosto de desdobrar o tema da história em outros ângulos ou temas paralelos possíveis. Até porque ficaria um pouco óbvio demais ficar apenas reclamando que os caras só pensam em dinheiro. Existem outras tensões aí, a serem exploradas.

Assim, quis ver o outro lado da questão também: se vivemos em um modelo capitalista, que não vai mudar da noite pro dia, como lidar com algo que vai contra a vontade de quem tem o poder? Não sou um cara muito utópico, então não consigo evitar pensar nisso como uma zebra que tenta dizer pro leão faminto que ele não deve comê-la. Não que eu seja conformista também, mas há de haver algumas alternativas aí no meio desses 50 tons de lei do mais forte.

A partir daí, o conflito estava posto: o engenheiro que inventa a tal lâmpada se vê cada vez mais incapaz de levar o projeto adiante. Com isso, achei legal também colocar em cheque outro dos lugares-comuns “bonitinhos” que ouvimos por aí (isso é um traço comum dos contos do livro). A história se tornou também uma espécie de questionamento daquela ideia de que você sempre deve seguir seus sonhos. Tendo conhecido muita gente (maluca) no meio artístico, posso dizer com certeza: nem sempre a coisa mais recomendável é você insistir nessas quimeras. Uma coisa é se esforçar pra alcançar resultados difíceis e improváveis. Outra é fazer loucuras que não levam a lugar nenhum e mais atrapalham sua vida do que ajudam.

Como o conto retratava um “choque de realidade” (com a invenção sendo surpreendentemente rejeitada), achei que funcionaria melhor um protagonista mais jovem. Alguém para quem a criação da lâmpada seria um sonho, de certa forma ingênuo, e sua rejeição uma quebra de inocência. A história acabou se tornando um rito de passagem, o que achei que podia ser bem legal. Por isso, ela tem um tom um pouco mais “fantasioso”, um olhar um pouco mais infantilizado. Em alguns momentos, a empresa e seus poderes parecem vilões de um filme com apelo juvenil.

Escrever esse conto foi razoavelmente tranquilo, exceto pelo começo. Não fazia a menor ideia de como inicia-lo, então passei um tempão parado em frente a meu notebook, olhando pro reflexo do meu próprio rosto na tela, sobre a página em branco do Word. Até que me deu o estalo e transcrevi exatamente isso para o livro. Então o conto começa assim: “Diante do imenso vazio de seu projeto ainda irrealizado, ele observava, como através de um espelho mágico, o rosto translúcido que também parecia encará-lo de volta, esperando dele a solução. Absolutamente semelhantes, as duas faces imóveis inquiriam uma a outra em silêncio, ansiando por uma orientação, um progresso; no entanto, nenhuma das duas conseguia fornecer à outra o caminho por onde seguir. Do lado de cá, ele teria que galgar por si mesmo os degraus da criação; do de lá, o rosto etéreo que o mirava não era nada além de um reflexo seu, tão desprovido de ideias e inspirações quanto ele se encontrava no momento.”

Escolhi encerrar o livro com esse conto porque achei que ele dava uma nota otimista, ao fim de tudo. Esse é um dos traços de Réveillon e outros dias (e meu também): não é porque as coisas são difíceis, não é porque não temos o Destino, Deus ou A-razão-por-trás-de-tudo-que-acontece pra nos ajudar, que precisamos cair em desolamento, barbárie ou coisa assim. Gosto do fato do livro ter começado com Réveillon, que é sobre um velho no fim da vida, e terminado com A lâmpada que nunca queima, que é sobre um jovem no começo. Além disso, os dois contos apontam pra uma redenção inesperada, o que também costuma me agradar.

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