Com a palavra: Santiago Nazarian

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Eis que depois de um tempo ausente desta seção, volto a ter o prazer de conversar com outros escritores aqui no blog. Pra retomar os trabalhos, bati um papo com Santiago Nazarian, autor de diversos romances, como Biofobia, o mais recente, Mastigando Humanos, Feriado de Mim Mesmo e do volume de contos Pornofantasma. Suas obras foram publicadas em vários países da América Latina e Europa, e também têm direitos vendidos para cinema e teatro. Vencedor do Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura, com seu romance de estreia, foi também eleito um dos escritores jovens mais importantes da América Latina pelo júri do Hay Festival em Bogotá. Além de escritor, é tradutor, roteirista e colabora em diversos periódicos. Vamos lá para a conversa.

Santiago, o “Biofobia” tem sido anunciado como uma volta sua ao romance adulto. No entanto, ele parece tratar de questões que antes não eram centrais em sua obra – como a crise de meia-idade ou o questionamento do sucesso na carreira artística – bem como ter uma relação diferente com aspectos do thriller e do fantástico, que permearam muito do seu trabalho anterior. Em que medida você vê “Biofobia” como uma retomada do que você vinha fazendo antes ou, por outro lado, como uma nova abordagem sua em relação ao romance?

A crise com o amadurecimento já apareceu em várias obras minhas, na verdade, geralmente eram crises da adolescência, a saída da infância, a entrada na idade adulta. Agora essas crises já estão tão distantes de mim… tive de subir uns degraus, mas sempre há motivo para crise, haha. Em “Pornofantasma” eu já havia tocado um pouco nesse tema, de toda forma. Então acho que é uma retomada dos meus temas pessoais, que sempre estiveram lá, mas num novo contexto.

 

Falando nesses tipos de crise, me pareceu que o livro trata, de forma alegórica, de um embate que você também parece transparecer em entrevistas e depoimentos, que é a relação com a dita “literatura séria”. Na trama de “Biofobia”, a mãe do protagonista é uma escritora que tem uma coleção enorme de livros, uma biblioteca que representa um mundo com o qual o personagem se relaciona de forma distanciada, nunca participando de fato dele até passar por uma espécie de “catarse”, com sua eliminação. Quer dizer, a “alta literatura” parece uma Grande Mãe, que o filho tem de superar também com a morte da própria mãe. Queria que você comentasse um pouco como essa metáfora se relaciona com a sua própria relação com a literatura e com o seu trabalho. 

Há um entendimento por aqui de que cultura pop é sinônimo de cultura jovem. Então a literatura que traz uma atmosfera pop – em referências, ambientações – seria uma literatura mais fácil, descartável, voltada ao público adolescente. Mesmo a música, ou é MPB séria, cabeçuda, ou é pop descartável – Restart, sertanejo universitário. Eu tenho essa literatura “alternativa” que flerta com o pop, mas não me considero descartável, busco densidade, tanto nos temas quanto na estrutura, na linguagem. Então queria discutir um pouco isso no livro – porque é uma questão que me aflige bastante: como crescer na carreira, como sobreviver, ser relevante e continuar publicando com esse espaço tão restrito para o que faço. Eu utilizei o cantor de rock por ter óbvios paralelos com o tipo de arte que eu faço e também por ser uma figura mais assimilável – quando se retrata esse tipo de crise para um cantor, é mais fácil de ser compreendida do que num “escritor alternativo”, que as pessoas nem saberiam o que é… E, bem, talvez eu seja o único? Talvez eu seja dos poucos no Brasil. Além disso, não queria MAIS UM livro sobre livros, com um escritor de protagonista. Isso já existe demais. O fato de ser um personagem com aversão pela leitura é mais uma provocação; eu obviamente sou um leitor muito mais sofisticado do que ele; minhas maiores influências literárias são de autores clássicos, Thomas Mann, Kafka, Oscar Wilde… As influências pop vêm principalmente dos filmes e música. Mas há também os autores contemporâneos norte-americanos, britânicos, que conseguem trabalhar esse aspecto pop com consistência. É o que quero fazer por aqui.  

 

Uma das cenas que achei mais divertidas é quando os personagens jogam os livros no fogo, para acender a lareira. São queimadas obras de Cortázar, Ali Shaw e muitos outros, incluindo um livro seu, “Feriado de mim mesmo”. Sei que nem toda escolha do autor quer necessariamente apontar uma mensagem em específico, mas fiquei curioso com o porquê da escolha dos títulos incinerados. Imagino que a “Granta”, ao menos, não esteja lá por acaso.   

Eu cresci numa casa tomada por livros. Aquela imagem da guerra da literatura com as artes plásticas descrita no livro – da mãe ano após ano tirando quadros das paredes para dar mais espaço às estantes – foi algo tirado de fato da minha infância. E cresci com imagens de muitas lombadas que não faziam muito sentido para mim como criança. Daí fui alfabetizado, daí fui me desenvolvendo como leitor e fui descobrindo o que havia por trás daquele “Todos os Fogos o Fogo”, aquela “Pedra do Reino”. Muitas dessas lombadas que se fixaram na retina eu reproduzi no livro, algumas permanecem apenas como lombadas, porque nunca cheguei a ler; para o personagem são todas apenas lombadas, frases soltas. Esse foi um motivo pelo qual discuti muito com a revisão para não colocar os primeiros títulos de lombadas em itálico no livro, por exemplo, porque para o protagonista são frases soltas, só se tornam livros mesmo quando eles os queima. A escolha por quais queimar… Alguns foram aleatórios, apenas títulos que tinham se fixado na minha mente, tipo Pássaros Feridos, mas que tinham a ver com os temas do livro. Eu também procurei citar por toda a narrativa livros com os quais me relacionei de diferentes formas – há os que nunca li, os que adoro, os que odeio, os que resenhei, que traduzi e que escrevi. Claro que queimar a Granta é uma provocação – nunca engoli o processo de seleção, e nem quis ler aquele volume. Mas os autores de lá que eu cito são todos amigos, gente que respeito e que sei que entenderia a brincadeira. Fico feliz por exemplo que o Galera entendeu, curtiu a brincadeira e escreveu sobre o livro no Globo. Na verdade, ter queimado a Granta parece ter incomodado mais os perdedores, gente que foi excluída…

 

Você está trabalhando agora em uma adaptação de “Biofobia” para o teatro. Como tem sido essa experiência, considerando que alguns elementos da história têm que ser alterados por questões práticas – o tempo de duração da peça, a possibilidade de realização cênica – e talvez até por questões que você possa ter repensado na trama, com a sua revisitação após passado um tempo da escrita original?

A adaptação para o teatro tem sido surpreendentemente fácil. Eu já escrevi o livro tendo em mente as possibilidades cênicas. Nunca há mais de três personagens em cena – e a peça pode ser feita com essa quantidade de atores, dois homens e uma mulher, se revezando nos papéis. Também já tinha em mente essa imagem poderosa do cenário da casa, que vai sendo cada vez mais esvaziado, móveis sendo retirados, até o personagem estar num palco quase nu. Na verdade o texto dramático é mais próximo do literário do que um roteiro de cinema, por exemplo. Os diálogos internos do personagem podem ser verbalizados de fato em monólogos. Então a coisa está fluindo e já estou começando a conversar com um diretor interessado. Para o cinema também, já há um produtor interessado e eu mesmo devo trabalhar no roteiro, mas aí acho que as alterações serão mais drásticas.

 

 

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