A história por trás da história: “Encantamento”

Réveillon e outros dias

Já comentei que me iniciei na literatura escrevendo alguns contos sem muita pretensão, sem muito trabalho de refinamento. O resultado óbvio dessas primeiras narrativas era bastante questionável. Creio que grande parte da maturidade artística é resultado direto do alto crivo que a pessoa criativa coloca para si, não se satisfazendo em geral com “o que saiu” ou em tratar sua obra como algo que não deveria demandar muito trabalho e dedicação, ou seja, algo que se possa resolver facilmente com as primeiras ideias (sei que as primeiras ideias podem ser as melhores em alguns casos, mas isso dificilmente é uma regra).

Alguns dos contos de Réveillon e outros dias nasceram com esses primeiros “ensaios”. Mas o que me fez crer que eles mereciam ser publicados foi, em primeiro lugar, um grande questionamento sobre sua construção e, em segundo, muito trabalho para levar esses contos ao ponto em que eu acreditava que eles podiam chegar. Mesmo os contos originados dessas primeiras brincadeiras – como O vendedor, Violentada ou A lâmpada que nunca queima – sofreram transformações radicais na narrativa e na linguagem, mantendo-se somente o argumento original.  A maioria foi praticamente reescrita por completo.

Com Encantamento não aconteceu nada disso. Ele foi um dos últimos que escrevi nessa primeira fase, então creio (ou quero crer) que eu já estava com a mão um pouco mais bem treinada. Isso justificaria porque ele não evoluiu muito de sua concepção até a versão publicada, sendo o conto que menos passou por alterações. Não foi por falta de tentativa ou nada assim, eu simplesmente sentia que não tinha muito mais o que fazer com ele à época. Confesso que cheguei a pensar em não inclui-lo no livro, por conta dessa sensação de que “o bolo não cresceu”.

O que aconteceu, eu acho, é que senti que a história devia ser contada como estava ali mesmo. Trata-se de um encontro casual no fim das contas, cujo efeito de banalidade poderia se perder caso houvesse uma grande exploração da biografia das personagens. Aliás, um dos defeitos em narrativas que frequentemente vejo por aí é essa preocupação em querer demonstrar uma “justificativa” para o personagem ter se tornado quem ele é. Nem sempre isso é necessário, nem todo mundo precisa de um grande trauma ou evento pra fazer coisas estranhas.

Um dos pontos principais de Encantamento é esse contraponto entre a banalidade – da vida dos dois protagonistas e de seu encontro – e o caráter divino, metafísico (bem, o “encantamento”) que incutem em sua própria experiência, em sua “loucura” (se me perguntarem, vou dizer que são do tipo pseudo-loucos). Por isso acho que o texto funciona bem com a junção entre uma narrativa simples e uma linguagem mais lírica. Também gosto da brincadeira com as duas linhas temporais paralelas que se encontram quando os personagens se encontram, demonstrando o lado de cada um, antes e durante o encontro. Foram esses elementos que, à época, me convenceram de vez a deixar o conto no livro.

Talvez você possa questionar: “Mas você começa seu post dizendo que é preciso sempre retrabalhar a criação, pra no fim defender um conto que não passou por esse processo?” O que eu quero dizer é que nem sempre retrabalhar um texto é ficar mexendo e remexendo. Às vezes, ser capaz de reler o texto muitas vezes e descobrir que a melhor coisa é não fazer nada também é algo que merece nossa dedicação e treino. Saber quando não alterar nada faz parte do trabalho. E do retrabalho.

 

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