Com a palavra: Paula Fábrio

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A seção “Com a palavra” recebe dessa vez Paula Fábrio, autora de Desnorteio (Patuá, 2012), romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante Acima dos 40 anos, e do ainda por lançar Ponto de fuga, premiado pelo ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

Paula, em uma nota no início do livro, você diz que a história foi “inspirada em histórias de família, misturada a ficções”. Queria que você comentasse um pouco sobre essa gênese de Desnorteio e seus personagens; como esses elementos se relacionam à memória de sua própria família e à criação ficcional.

Acredito que os melhores préstimos que a história familiar me forneceu foram os temas que o livro percorre, como a loucura, a mendicância e a possibilidade de olhar o Brasil a partir do microcosmo daqueles três irmãos, numa cidade como Sorocaba, sobretudo num passado recente, como os anos da ditadura, do desenvolvimentismo e até mesmo do período seguinte ao fim do regime escravocrata, que não me parece tão distante assim, afinal são apenas quatro gerações atrás, no caso da minha ascendência. No entanto, para sair um pouco do plano macro referente aos temas, posso dizer que alguns detalhes da composição de personagens também vieram da vida real, e não somente da minha família: o cajado, alguns trajes, a imagem do casebre, a fotografia sépia, frases latejantes, acho que tudo se misturou na minha mente, como um caleidoscópio, a ponto talvez de já não se saber mais o que é ficção. A História escrita assim em maiúscula também é um pouco memória e ficção, em doses que dependem do narrador, e talvez por esse motivo a mulher de quarenta anos, que julga narrar a história dos irmãos Oliveira, tenha estendido a mão para outros personagens, num pedido de ajuda e numa tentativa quase vã de justiça.

De fato, o papel da narração e a forma como ela se coloca ou se organiza parece ser um dos elementos centrais no livro. Não só ela é bastante questionada, mas a própria estrutura literária é colocada em xeque, quando a escrita parece se assemelhar a outras formas de arte como o cinema e o teatro. Dentro do livro, os personagens que poderiam ser considerados realistas, em alguns momentos, têm tratamento parecido ao de atores na composição de uma “cena”, havendo até mesmo o que poderia ser a interferência de um suposto “diretor”. Imagino que esses recursos têm também a função de borrar ainda mais as fronteiras entre narração documentarista e ficção. Como você enxerga a influência dessas outras formas de arte em seu trabalho?

Confesso que não foi premeditado, o livro foi “acontecendo” aos poucos, algumas ideias surgiam intuitivamente, como a incorporação do teatro e do cinema. Acho que tem mais a ver com uma tomada de empréstimo das outras artes, mas que como você colocou, ajudou a botar mais neblina na linha tênue que separa ficção e realidade, assim como loucura e sanidade. Essa forma múltipla de expor os fatos, seja na linguagem adotada, seja na voz dos personagens, contribuiu diretamente para a sensação de mosaico (este sim era um dos objetivos) e para o processo de invenção, e acabou por me conceder liberdade na criação, mas é claro que por outro lado eu corria riscos, mas resolvi apostar.

E o livro é dividido em muitos capítulos, com cada um deles recebendo um título e havendo uma espécie de “categorização” em alguns casos. Há uma divisão bastante clara, por exemplo, entre os temas “amor”, “loucura” e “morte”, que farão parte da nomenclatura de alguns trechos-chave. Pensando nessa composição em uma espécie de mosaico, como você disse, queria que você falasse um pouco mais sobre essas divisões.

Arrisco dizer que essa estrutura está ligada à fragmentação. Não apenas da memória, da mente humana, mas também das vozes narrativas, das versões de uma história. Seria uma tentativa de desconstruir a seleção do olhar, a posição do narrador, e aproximar a história do real, nem que essa aproximação fosse um afastamento dos fatos, muito embora buscasse a imersão no clima, na atmosfera das personagens e dos diversos tempos e espaços narrados. Se é um livro sobre desigualdades, não havia chance para a linearidade, para a univocidade. Por outro lado, tendo a ponderar que não há escapatória ao “amor”, à “loucura” e à “morte”. Há tudo isso dentro de nós, em gradações diferentes. Dessa forma, essas três noções operam como cores repetidas na construção do mosaico.

O “Desnorteio” foi lançado por uma editora de menor porte, a Patuá. Depois ganhou o Prêmio SP de Literatura, o que lhe deu uma notoriedade bem maior, com resenhas em grandes veículos da imprensa etc. Como você avalia esses dois momentos do livro – antes e depois do prêmio – e da sua carreira como escritora? Sei que pode ser um pouco estranho para um autor falar sobre isso, já que a obra em si não se alterou em nada, mas a percepção ao redor dela parece se transformar radicalmente, não?

Na verdade essa questão é muito relevante. Ganhar um prêmio faz toda diferença na carreira de um escritor, ainda mais quando se é mulher, nossa visibilidade é menor que a dos homens (veja o número de mulheres premiadas e publicadas). Mas voltando ao prêmio, a visibilidade alcançada é fundamental, amplia-se o número de leitores pelo Brasil e até no exterior, e não apenas por causa da imprensa, mas por uma série de fatores. Por exemplo, depois do prêmio passei a trabalhar com uma agente literária, o que aumenta as chances de vender o livro ao mercado externo e também para o audiovisual, isso sem falar nos convites para eventos, salões do livro, bienais, que também contribuem para a divulgação do trabalho. Mas o que é estranho mesmo é outra coisa, é verificar a debilidade do mercado nacional de livros, tanto das editoras quanto da imprensa, a falta de dinheiro em circulação, porque não temos um número suficiente de profissionais na imprensa e nas editoras para selecionar as obras, tampouco espaço na mídia, nas livrarias. São milhares de autores “competindo” por centenas de editoras, que por sua vez procuram inserir suas obras nas dezenas de livrarias, que buscam quase um leitor unitário. Essas casas decimais são apenas uma metáfora, mas creio que explicitam essa pirâmide ao contrário, essa pirâmide da distribuição do livro no Brasil, que já começa com um gargalo que trava todo o sistema e acaba por trazer aos prêmios a responsabilidade pela triagem, sobretudo no caso dos autores estreantes. Para ilustrar isso, basta lembrar que os dois títulos vencedores, respectivamente nas categorias abaixo e acima de 40 anos, não tiveram quase menções na mídia antes do prêmio, e ambos foram publicados por editoras pequenas. Ou seja, pela falta de um mercado consumidor, as instituições se organizam como podem. E as vezes nos vemos brigando por migalhas.Tem gente dizendo, o autor deveria receber mais que 10%, as livrarias deveriam ter descontos menores que 50% etc e tal, a verdade é que 10% de quase nada é nada mesmo. E a cultura da leitura está por trás disso, porque afinal existe mais gente escrevendo do que lendo. É um paradoxo que deveria consumir mais tempo em nossas discussões.

E seu próximo livro, “Ponto de fuga”, foi contemplado pelo ProAC. O que você pode nos contar sobre ele?

Posso adiantar que é um romance que busca loucamente fomentar a leitura de livros e, de quebra, incentivar a leitura de autores nacionais contemporâneos. Trata-se de um projeto que também contempla blog e workshops. Em suma, não é um livro passivo, desses que ficam muito paradinhos na prateleira.

Paula, muito obrigado pela conversa e parabéns mais uma vez pelo Prêmio SP! Fica um último espaço aí, para você divulgar eventos, páginas na internet, ou o que mais quiser. Obrigado!

Eu que agradeço o convite e o apuro das perguntas. Deixo aqui meu blog, onde escrevo quando o tempo permite: www.incursoesliterarias.blogspot.com. Quem quiser entrar em contato, estou no Facebook, como grande parte dos mortais. E para quem quiser adquirir o Desnorteio, pode comprar no site da editora Patuá.

 

 

 

 

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2 comentários sobre “Com a palavra: Paula Fábrio

  1. Ótima entrevista. Excelente trabalho da escritora, da Editora Patuá e do Eduardo, no qual tive o prazer de conhecer tempos atrás…Como pode um país com 200 milhões de habitantes, ter um mercado tão restrito p/ literatura.

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    • Olá, Alécio, obrigado pela visita e pelo comentário!
      Pois é, é bastante pertinente o que a Paula falou. Infelizmente, a leitura (especialmente de autores brasileiros atuais) é bastante restrita, o que tem diversos efeitos colaterais na forma como o mercado se organiza, como o conteúdo é selecionado e chega às pessoas. Mas o lance é continuar na luta rs…
      Abraço!

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