Com a palavra: Ronize Aline

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O “Com a palavra” dessa vez é um pouco diferente. Não em sua essência, que continua sendo a de uma conversa com um escritor, mas pelo fato de essa entrevista em específico fazer parte do projeto Blog Tour de Ronize Aline. Ronize, além de escritora, é tradutora, jornalista e professora universitária. Autora dos livros infantis O dono da lua e Anete, nariz de chiclete, Ronize tem um blog sobre criação literária e agora conta um pouco mais sobre seu trabalho e essa iniciativa do Blog Tour.

Ah, e tem mais: O primeiro a comentar esse post aqui no Blog ganha um marcador e um calendário da Anete Nariz de chiclete de brinde! Entregue em casa, sem burocracia nem nada.  Vamos lá minha gente!

Ronize, você está com o projeto de um Blog tour, que é um conceito muito interessante. Queria que você comentasse um pouco dessa sua iniciativa: como funciona e o que você espera de um projeto como esse no meio literário?

Desde o lançamento do meu primeiro livro, O dono da Lua, em 2012, que venho utilizando as mídias sociais de forma intensa. Sou professora universitária do curso de Jornalismo e uma das disciplinas que ministro é Mídias Digitais, por isso venho estudando há algum tempo o uso das estratégias online como alternativa para a mídia tradicional – que, por ter alto custo, não está ao alcance de todos. No entanto, seu uso por escritores ainda não é tão amplo quanto em outras áreas, por isso resolvi me aprofundar no assunto. Naquela época, montei uma campanha de pré-lançamento totalmente na internet que, devido ao alcance obtido, acabou rendendo valiosos espaços espontâneos na mídia offline, como jornais e rádios. Desde então venho ampliando o uso de diferentes estratégias de marketing digital, culminando com a estruturação do meu blog de criação literária e, agora, com o blog tour. Essa é uma técnica de divulgação ainda pouco utilizada pelos autores brasileiros, mas já bem disseminada entre os de língua inglesa. Em blogs ingleses e norte-americanos pipocam iniciativas do gênero. O blog tour é uma turnê virtual em que, em vez de o autor viajar de cidade em cidade para divulgar seu livro, ele marca presença em diversos blogs, seja com uma entrevista como essa ou com posts sobre assuntos relacionados ao seu ofício. Eu acredito firmemente que essa é mais uma poderosa estratégia ao alcance de escritores que, sem verba para promoção nos veículos de comunicação, podem utilizá-la não apenas para o lançamento de um novo livro, mas de qualquer tipo de projeto literário. Cada vez mais os escritores têm se transformado em verdadeiros empreendedores de sua carreira. Seu trabalho não termina quando assina o contrato de publicação com uma editora, na verdade ele está apenas começando. E temos o privilégio de viver em uma época em que as novas tecnologias estão todas aí, à nossa disposição. Só nos cabe descobrir, ou inventar, novos usos para elas.

Você falou sobre a figura do “escritor-empreendedor”, que é um dado muito relevante atualmente, com o escritor tendo que ser mais “midiático”. Você trabalha isso bastante no seu blog, ao lado de dicas de escrita. Como você disse, ainda há muitos escritores um pouco resistentes – ou mesmo inábeis – com relação ao uso das mídias digitais, especialmente quando não se trata de literatura de gêneros mais comerciais. Queria aproveitar um pouco de sua expertise, pedindo algumas dicas que você pode dar para escritores que buscam um caminho para ampliar seu alcance, mesmo dentro da literatura tida como mais “séria” (não gosto muito dessa divisão, mas não consegui pensar em um termo melhor).

Hoje em dia o escritor precisa, realmente, jogar nas onze, fazendo uso do ditado futebolístico. Por ocasião da Bienal do Livro do Rio, o escritor de literatura de Fantasia Raphael Draccon (na época, diretor do selo Fantasy, da Casa da Palavra, e recém-contratado da Rocco) causou polêmica ao declarar que não há mais espaço nos dias de hoje para o escritor introspectivo, que passa o dia dentro de casa, escrevendo. E acrescentou: “Rubem Fonseca, hoje, não seria publicado”, referindo-se ao caráter conhecidamente recluso do autor, e não à qualidade de seu trabalho. Sem querer entrar na polêmica se Rubem Fonseca seria ou não publicado devido à reconhecida qualidade de sua obra, digo que, no que diz respeito à necessidade de exposição, Draccon tem razão. As novas tecnologias, à medida que colocaram em nossas mãos inúmeros recursos – desde aqueles voltados à promoção do nosso trabalho até mesmo os voltados à auto-publicação -, também, com isso, aumentou em muito a concorrência. Vejo inúmeras possibilidades para que o autor se faça presente, visto, e, com isso, tenha possibilidade de expor o seu trabalho. Aqui vão algumas:

– Ter um blog (ou, no mínimo, um site). Hoje em dia não dá mais para pensar em um autor que não tenha uma plataforma online. E só estar presente nas mídias sociais não é suficiente, é preciso ter uma base na qual você tenha o controle total. E a base dessa plataforma é o blog. Há os que preferem um site, onde colocam todas as informações que querem divulgar e não precisam ficar atualizando constantemente. Funciona? Em certa medida, sim. Mas não tem o alcance de um blog, justamente por conta dessa atualização constante e da possibilidade de interação que proporciona através dos comentários.

– Estar presente nas mídias sociais. Apesar de eu ter dito que não é suficiente, no entanto é fundamental. Ouve-se muita reclamação a respeito de redes como o Facebook, por exemplo, mas tudo depende do uso que se faz delas. Se você se expõe demais pessoalmente, provavelmente irá sofrer as consequências dessa exposição. Se o objetivo é utilizar profissionalmente, é preciso dosar o que é compartilhado. Tenho colhido muitos bons frutos profissionais da minha presença nas redes, mas sempre trabalho o conteúdo disponibilizado com muita responsabilidade.

– Buscar seus pares. Em nenhuma circunstância vive-se sozinho, em literatura isso é ainda mais forte. Essa não é uma área com um alcance tão grande quanto o cinema ou a televisão, por exemplo. Se, em vez de trabalharmos juntos, preferirmos nos confrontar, disputar espaços em vez de somar, só temos a perder. Aproveite os espaços que já foram mencionados – blogs, redes sociais – e busque conhecer outros escritores, seu trabalho, seus projetos, participe, compartilhe, ajude a divulgar. Quanto mais a literatura conseguir em termos de espaço, mais haverá para compartilhar.

– Planeje-se. Aquele estereótipo do escritor desorganizado, que escreve o que quer e quando quer, deixando-se levar por sua intuição e sem a mínima ideia de quando conseguirá terminar seu livro, atenção: isso não funciona! É preciso ter objetivos claros para a sua carreira, o que quer alcançar, onde quer chegar e como quer chegar. Sem planejar sua carreira você corre o risco de ficar andando em círculos e não chegar a lugar algum. No final do ano escrevi um post justamente dando dicas de como planejar sua carreira para 2014, de forma a aproveitar as oportunidades e obter melhores resultados dos seus esforços. Quem se interessar, pode ler o post AQUI.

– E, para encerrar, uma dica offline: frequente eventos literários. Toda essa movimentação online dá um ótimo resultado, mas estar cara a cara com outros autores, ouvir suas histórias, trocar ideias, aprender com eles, estar no mesmo espaço que editores e agentes, isso não tem preço. E vale desde eventos grandiosos, como as Bienais, passando por eventos de médio alcance, como as inúmeras festas literárias que pipocaram pelo país nos últimos anos (Flip e Fliporto, só para citar duas), até chegar aos pequenos eventos, como lançamentos de livros e debates com autores. Faça-se presente, veja e seja visto. Mas cuidado! Não chegue já impondo o seu trabalho, querendo empurrar um original goela abaixo de quem encontrar pela frente. Estabeleça laços, desenvolva esses laços e, quem sabe, lá na frente não surge a oportunidade de você mostrar o que tem a oferecer?

Essas dicas são bem bacanas! E com relação à escrita em si? Você discorre bastante sobre isso em seu blog, tendo produzido inclusive um eBook com exercícios de escrita. Você parece ter uma abordagem bastante metódica, com muito planejamento e rigor na organização criativa. Gostaria de saber como você lida com essa abordagem na sua própria escrita, na elaboração de livros infantis como O dono da lua ou Anete, nariz de chiclete, já que esse tipo de obra parece não demandar uma enorme complexidade de organização prévia de personagens, tramas e sub-tramas. Ao mesmo tempo, encontrar na simplicidade o jeito preciso de se alcançar os efeitos buscados também pode ser desafiador. Como você lida com o próprio processo criativo?

Acredito em planejamento. Mas não da forma que muita gente vê, como um limitador da criatividade. Há quem defenda que a criação deve ser completamente livre, deixar fluir a inspiração à medida que apareça – ou não apareça. Mas grandes escritores e obras já mostraram que literatura é trabalho duro, carpintaria, a tal decantada transpiração em vez da excessiva valorização da inspiração pura. Planejamento, método, estrutura, nada disso deve ser uma camisa de força para o autor, mas ferramentas que o ajudam a atingir seus objetivos criativos com mais precisão. Em textos mais longos, gosto muito de trabalhar primeiramente a estrutura da história (como a que apresentei nesse post: http://www.ronizealine.com/2014/01/como-estruturar-um-romance-o-guia-definitivo.html). Isso te dá um controle da narrativa, ao mesmo tempo em que, à medida que vou escrevendo, sou surpreendida por situações inesperadas que afloram e se tornam fundamentais ao desenvolvimento. No caso da literatura infantil, a complexidade é menor, assemelhando-se ao conto, dado o tamanho do texto. Mas isso não precisa significar ausência de planejamento. Podemos pensar em uma estrutura mais básica: exposição da situação inicial, evolução, clímax e desfecho. Assim como no conto, a obra infantil parte de um único conflito, normalmente um só espaço (ou número reduzido de espaços), número reduzido de personagens e narração concisa. Essa aparente simplicidade frente ao romance adulto pode enganar. Como você mesmo colocou, é desafiador alcançar os efeitos buscados com uma narrativa menos rebuscada em termos de tramas e sub-tramas mas que seja, ao mesmo tempo, atraente e elaborada para as crianças. É preciso desenvolver uma história coerente – já que a criança é esperta, não se deixa enganar – com uma estrutura mais simples e menos texto para desenvolver personagens e conflito.  Não se esqueça que são as histórias que lemos na nossa infância que irão criar – ou não –  nosso gosto pela literatura.

Você, que trabalha com literatura infantil e com mídias digitais, como tem visto as diferenças ou semelhanças entre as crianças de hoje e a relação com os livros ou a literatura? Para um autor de infantis e juvenis, como se pode pensar nessas instâncias?

A criança funciona muito a base de estímulos. Acredito, e muito, naquela prerrogativa de que criança que vê os pais lendo tem muito mais chance de se interessar pelos livros. Eu mesma sou um exemplo. Desde pequena me acostumei a ver meu pai lendo. Ele lia muito. Então, antes de aprender a ler, eu ficava impaciente querendo entender o que tanto atraía meu pai naqueles livros, revistas, jornais. Não via a hora de também conseguir ler sozinha. Meu filho de cinco anos é outro exemplo. Nascido em uma geração com tantos estímulos tecnológicos, é claro que ele gosta de jogar videogame, mexer no computador, tablet… Mas toda noite, quando vou colocá-lo para dormir, ele vai até a estante dele e escolhe dois livros (isso mesmo, dois) para que eu leia para ele. Como agora já está sabendo ler, faço a leitura compartilhada: eu leio uma parte, ele lê outra. E ele também adora inventar suas próprias histórias para me contar. Mas esse gosto pelas histórias não nasceu do nada. Desde pequeno que eu leio para ele antes de dormir, levo-o a livrarias, bibliotecas, lançamentos de livros e outros eventos. Cada livro que leio digo o nome do autor e do ilustrador, para que ele saiba que aquilo é fruto do trabalho e dedicação daquelas pessoas. E nos lançamentos ele tem a oportunidade de conhecer quem está por trás daquelas histórias. Isso tudo fora o fato de que ele se acostumou a nos ver lendo nossos próprios livros. A tecnologia não é boa nem má, depende do uso que se faz dela. É importante que as crianças aprendam e saibam como utilizá-la em seu proveito. Mas tenho o prazer de vivenciar o encanto das crianças com o livro de papel, seja nos meus lançamentos e nos de amigos, seja em uma livraria, seja nas escolas em que vou falar sobre meus livros. A história se torna palpável e, em uma idade em que acontecem tantas descobertas, poder “segurar” os personagens, virar-lhes as folhas, sentir o livro – isso é insubstituível.

Ronize, muito obrigado pela entrevista e pela participação no blog tour. Você pode aproveitar o espaço agora pra divulgar eventos, site, lançamento, o que quiser: o espaço é seu. E obrigado novamente!

Rafael, eu é que agradeço a sua participação no blog tour da Anete e o carinho com que abriu seu blog para mim. Quero convidá-los para conhecer Anete, nariz de chiclete, meu mais recente lançamento. O livro, que tem ilustrações maravilhosas de Bruna Assis Brasil e foi lançado pela Escrita Fina Edições, conta a história de Anete, uma ruivinha para lá de simpática que tem um talento especial: faz bolas de chiclete como ninguém. O problema é que essa habilidade a coloca em enrascadas. Porque quando as bolas ficam muito grandes, estouram e deixam o seu nariz todo melado. A garotada na escola faz troça: Anete tem nariz de chiclete! Mas uma aventura incrível a espera. E tudo graças à sua habilidade em fazer bolas e ao seu nariz de chiclete. Quero convidar a todos, também, para visitarem o blog da Ronize Aline. Lá, além de encontrar informações sobre meu trabalho e meus livros (inclusive sobre Anete), vocês também podem encontrar um farto material sobre criação literária: técnicas de escrita criativa, construção de personagens e tramas, informações sobre mercado editorial, resenhas de livros, entrevistas com profissionais do mercado (escritores, ilustradores, agentes…). Ou seja, se você gosta de literatura, se é um leitor interessado ou um aspirante a escritor, vai ter muito com o que se divertir por lá. Outros espaços onde podem me encontrar é na minha página do Facebook e no meu perfil do Twitter.

DSC_0336

A escritora Ronize Aline (clique para ampliar).
Foto de Ana González.

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3 comentários sobre “Com a palavra: Ronize Aline

    • Olá, obrigado pelo comentário!
      E como foi o primeiro, você ganha o marcador e o calendário da Anete de brinde! Já é um estímulo a mais pra leitura.
      Entraremos em contato por email em breve para combinar a entrega.
      Obrigado.

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