“Ninfomaníaca”: orgasmo ou bocejo?

ninfo

“- Ele me deu 3 estocadas na buceta. Depois, mais 5 na bunda.

– 3+5! Isso é da série Fibonacci!”

Esse diálogo, presente no filme Ninfomaníaca – parte 1 (Nymphomaniac, vol.1), e um dos mais ridículos que já presenciei em uma tela de cinema, serve bem como representação do filme. Joe, a viciada em sexo vivida por Charlotte Gainsbourg, conta sua história para Seligman (Stellan Skarsgard), e nesse momento comenta sobre quando perdeu a virgindade com Jerome (Shia LeBeouf).

Antes de mais nada: tenho visto comentários defendendo o filme como uma grande “brincadeira” de Von Trier. Acho que, em geral, esse tipo de abordagem pode vir de gente que não conhece (ou não pensa sobre) o processo de produção de um loga-metragem. Uma obra desse tipo consome MUITO trabalho, tempo, energia e mão-de-obra (não custam milhões de dólares à toa) e envolve sérias questões profissionais e de posteridade; não acho que alguém se aventuraria em algo assim só pela diversão de se auto-ridicularizar. Ainda que o fizesse, o importante é saber como realiza-lo (uma das grandes questões da arte, sempre). Provocações também precisam ser bem elaboradas, funcionais e coerentes em sua proposta. Difícil defender essa abordagem em Ninfomaníaca, quanto toda a forma é tão oposta a esse tipo de postura. Seria como esculpir o Davi de Michelangelo dizendo que a intenção era a mesma do mictório de Duchamp.

A linguagem audiovisual de Ninfomaníaca é toda certinha, “bem acabada” – fotografia, captação e edição de áudio, montagem: está tudo muito polido, conforme os manuais. Vindo de um diretor como Von Trier, que já questionou cada um desses elementos em seu passado de Dogma, não se pode dizer que é um dado gratuito; ele sabe o que está fazendo. Compare Ondas do destino, um de seus filmes primorosos, com Ninfomaníaca: a polidez da imagem e do som são bem diferentes, não por amadurecimento técnico, mas por mudança na postura estética. Se era pra ser uma brincadeira, então Von Trier se transformou naquele tipo de gente que diz “ah, eu não sei contar piada”, mas depois o faz e confirma sua inabilidade.

Voltando à narrativa: os dois personagens principais poderiam ser lidos como a representação metafórica do binômio mente/corpo, razão/emoção, intelecto/sexo, cabeça de cima/cabeça de baixo, ou como você preferir. Assim, menos do que “pessoas” ou “corpos”, seriam a encarnação de ideias, conceitos. Analisar o filme por esse prisma alivia parte do desconforto ao vermos personagens tão maquinais e achatados, mas há muitos mais problemas na construção narrativa, e a maioria delas não está somente nas ações e falas dos personagens (que sempre podemos “culpar” pelas baboseiras ditas).

Assistindo ao filme, me senti como se estivesse vendo uma espécie de materialização audiovisual das anotações do cineasta: “Citar Fibonacci”; “Fazer um paralelo entre a sedução e a pesca”; “Usar uma metáfora de Bach e polifonia”. Tudo isso – que deveria ser uma coleção de lembretes pessoais para o autor, escritos a caneta vermelha nos cantos das páginas de rascunho – é válido enquanto parte de um processo muito primário de elaboração; não algo que se coloque sem mais nem menos na história acabada, enfiado nos diálogos dos personagens com a mesma “classe” que as estocadas de Jerome.

Quando se observa que o “olhar” do filme (ou a forma como ele é configurado pelo cineasta) endossa todos esses cacoetes, fica difícil ainda usar a desculpa de que se está ridicularizando justamente a racionalização ou a erotização da própria obra. As metáforas são todas explicadas – não somente nas falas, mas também na organização da montagem (redundância típica de comédias da TV aberta, por exemplo) -, os termos importantes surgem em gráficos ou palavras escritas (!) sobre a imagem (lembra de Rá-tim-bum, quando era criança?) e, Jesus, cada metáfora pobre! Se você já tem mais de 13 anos e já leu um mural de Facebook, não tem novidade aqui. Tudo isso exibido com a intenção nítida de causar um efeito sintônico (e não ambíguo ou questionador). Frases como a justificativa de Joe – “Talvez a diferença entre eu e as outras pessoas é que eu sempre quis mais do pôr-do-sol. Mais cores espetaculares…” – me faz pensar se Von Trier não foi afetado por algum problema cognitivo nos últimos anos. Não sei o que é pior: essa série de lugares-comuns exibidos como se fossem Shakespeare ou o filme anterior, em que um planeta chamado tristeza se aproxima da Terra, prestes a devastar tudo. Isso deveria ser plot de filme da Xuxa, vai.

É tudo tão esquemático em Ninfomaníaca, que chega a ser vergonhoso: Joe olha para um livro na cabeceira e pergunta quem escreveu; Seligman diz que foi Poe e faz uma palestra sobre o autor, encerrando com sua morte por Deliriuns Tremens; Joe diz que já presenciou algo assim e começa um capítulo centrado na morte de seu pai, que sofreu do mesmo mal. Joe vê um toca-fitas e pergunta o que Seligman ouve ali; ele diz que é Bach e faz uma palestra sobre o compositor e a polifonia; Joe começa um outro capítulo com uma metáfora entre a peça de Bach e seus amantes. Joe vê um porta-retrato oculto pela metade, revelando somente o começo do nome de uma mulher: Sra. H; começa um novo capítulo com uma tal Sra. H. Até pra transcrever isso eu me questiono se não soa repetitivo demais. E, claro, preciso fazer um desabafo pessoal: quando é que os artistas que acham bonito citar termos musicais em suas obras vão se dar ao trabalho de estuda-los melhor, parando de usa-los de forma equivocada? Sem contar que, como é que diabos Seligman ouve Joe falar que alguém tocava piano e saca que as notas executadas eram si e fá?

Para usar novamente a metáfora da construção da casa, Ninfomaníaca é como se ela fosse entregue “pronta” com todos os tijolos, canos e argamassa à mostra, sem acabamento. Sem trabalho de autoria. Talvez seja essa a razão de tanta gente falar do filme: Von Trier já foi um grande artista, à época do já citado Ondas do destino, de Dançando no escuro ou Dogville, por exemplo. São obras singulares, às quais seria difícil encontrar comparação. De uns tempos pra cá, no entanto, é fácil encontrar filmes que tenham trabalhado questões parecidas com as dele de uma forma bem mais interessante. Tem filmes hollywoodianos da década de 90 muito mais espertos do que Ninfomaníaca: Os suspeitos trabalha de forma mais surpreendente o uso do depoimento e o que há nele de invenção ou memória (um dos subtemas do filme de Von Trier). Até  o filme do Roger Rabbit tem auto-paródias mais bem sacadas.

Há bons momentos: quando Joe vê o pai sofrer no hospital e transa com um funcionário, feito alguém que sai pra fumar um cigarro atrás do outro. Isso é bacana, mostra desenvolvimento de personagens (algo do qual, no geral, Von Trier desviou pelo acostamento). O próprio retrato desmitificado do sexo (ao contrário daquela sublimação idealizada tradicional, que transforma toda transa cinematográfica num videoclipe) é bem interessante. O filme não é moralista como também andam dizendo (Joe se condena o tempo todo – o que é um saco e contraditório, claro – mas Seligman sempre demonstra conivência – o que também é um saco e contraditório). O questionamento das próprias bases do filme poderia ser divertido: em certo momento, Joe ignora toda uma fala enciclopédica de Seligman, acabando com sua relevância.  Em outro, narra um trecho inverossímil (representado em imagens e sons como todas as outras “memórias”) e ao ser questionada pelo homem responde que vai apenas contar a história, se ele quiser acreditar vai aproveitar melhor. Isso poderia até ser legal, não fosse todos os outros aspectos da obra endossando o lado ridículo e não o lado que é capaz de ridicularizar.

Há, no mínimo, um problema muito sério de execução, se você for otimista. Eu não vejo dessa maneira. A sensação é de ver um grande artista se perder mais um pouco, e isso é frustrante. Na melhor das hipóteses, Ninfomaníaca é uma piada sem graça.

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