A história por trás da história: “O lugar de cada um”

Eu viajo bastante de ônibus. Ainda continuo transitando entre São Paulo e Bauru, e houve uma época em que ia bastante de São Paulo para Campinas, onde minha esposa fazia um curso de especialização aos fins de semana.

Nessas viagens, é muito comum ver alguém sentado ser abordado por outra pessoa alegando que aquele é seu lugar. Já vi essa cena incontáveis vezes. Eu sei que ela não tem nada de especial, mas algo nesse tipo de interação (ou como as pessoas reagiam a ela) sempre me interessou. Talvez fosse observar como diferentes pessoas lidavam com esse tipo de “conflito”. As que mais me atiçavam a curiosidade eram as muito regradas, que independente do contexto, faziam questão de ocupar o assento demarcado na passagem, como se isso fosse uma lei a nunca ser desrespeitada.

Daí, inventei um personagem bem regrado só para vê-lo sofrer ao não poder manter-se dentro de seus princípios. Para isso, alguém precisava ocupar seu lugar e se recusar a sair. Está aí a premissa central da história. Mas, obviamente, um conto precisa de mais do que isso pra ficar interessante.

Decidi, então, transformar a coisa em uma espécie de parábola sobre ética. Deixei o ônibus sem mais ninguém (para efeito de contraste e de demonstração que o protagonista tinha todas as escolhas à mão, mas ficava preso a uma que julgava “a certa”), e a marcação de lugares sem grande importância, já que a viagem era curta e a seleção era feita pela atendente mesmo, não pelo cliente. As viagens entre São Paulo e Campinas são assim (e ainda tem gente nesses ônibus que faz questão do lugar marcado!).

O outro personagem, sentado na poltrona, é mais “solto”, mas achei que ele também precisava de um toque de grosseria, para a empatia não recair tanto sobre ele (já que o protagonista é alguém que provoca menosprezo) e para que a resistência dele fosse de fato intransponível. O dilema precisava ficar bem demarcado. O terceiro personagem é o mesmo dilema, visto pelo avesso (para mostrar que muitos conflitos são simplesmente uma questão de ponto de vista).

É uma história bem simples, mas eu gosto de seu valor metafórico. No fim, é uma boa demonstração de que muitas vezes, nos conflitos, não há necessariamente um lado certo e outro errado. Há apenas dois lados com objetivos opostos em relação a uma mesma coisa, e ninguém disposto a ceder. Também gosto do questionamento das regras, de como elas podem trazer mais problemas ao invés de soluções simples.

A arte imita a vida, que imita a arte, etc, etc. Um dia, após já ter escrito o conto, estava eu num desses ônibus da vida quando sobe um cara que, logo no primeiro instante, me lembrou meu personagem. Bastante caxias, eu só precisava que ele repetisse o gesto de cobrar de alguém que aquele assento era o dele para acha-lo idêntico. E foi o que aconteceu. Quando eu já pensava que a coisa não podia ficar mais cômica, esse homem no ônibus disse para o ocupante de sua poltrona: “Talvez tenha havido duplicidade na passagem”. Caramba, quem é que usa a palavra “duplicidade” na vida real?! Não tive dúvida: acrescentei essa fala ao meu conto, pro personagem parecer ainda mais caricato.

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