Com a palavra: Flávio Izhaki

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A seção “Com a palavra” tem a alegria e a honra de receber dessa vez Flávio Izhaki, autor dos romances Amanhã não tem ninguém (Rocco, 2013) e De cabeça baixa (Guarda-chuva, 2008), e de contos publicados em antologias como Prosas Cariocas (Casa da Palavra, 2004), Paralelos – 17 contos da nova literatura brasileira (Agir, 2004), Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Primos – histórias das heranças árabe e judaica (Record, 2010) e  Wir sind bereit (Lettretáge, 2013), lançada na Alemanha.  Foi uma conversa muito, mas muito legal mesmo. Vamos lá:

 

Flávio, pra começar, gostaria de saber como você lida com a organização do material para o livro, antes ou durante a escrita. “Amanhã não tem ninguém” tem uma estrutura bastante complexa, com vários personagens assumindo a narração em primeira pessoa, uma duração temporal bastante longa – atravessando quatro gerações – e que muitas vezes retoma um momento já narrado, mas sob outro ponto de vista. Como você costuma trabalhar, e como foi no caso específico desse livro, para estruturar toda essa trama? Você faz esquemas dos capítulos antes de escrever, monta a árvore genealógica da família, ou algo do tipo?

Esse livro, de fato, tem uma estrutura bastante peculiar. São seis narradores, em momentos cronológicos diferentes, narrando em primeira pessoa. Mas de início eu não concebi o livro com essa estrutura. O romance nasceu dos personagens. Pensando posteriormente, foi como uma grande sala escura em que a luz iluminou as pessoas até vazar para a sala toda. Só depois de ter escrito longos trechos sobre três deles eu entendi que aquilo era uma família.

Com o livro quase pronto eu precisei fazer um esqueminha de datas, fatos e encadeamento (o mais complicado). Escrevi um resuminho de cada trecho para fazer a costura das histórias. Mas foi uma escolha. O livro poderia ser desmontado e montado com outra ordem.

Mas essa foi a estrutura possível para esse romance. No primeiro eu comecei escrevendo exatamente a primeira cena e fui adiante. E neste terceiro, que ainda tateio, ainda não sei se o que escrevi vai abrir o livro ou não.

 

Puxa, é muito legal saber disso, porque me identifiquei bastante com o seu livro, do ponto de vista literário, e creio que isso se deve, em grande parte, ao fato de eu também pensar as coisas a partir dos personagens. Senti isso no seu livro, de que independente do grande intervalo cronológico e geográfico, você não procura ficar colocando referências históricas ou espaciais só para “retratar” ou “localizar” o contexto geral o tempo todo. Parafraseando um pouco o Paulinho da Viola, é como se o tempo de cada personagem fosse hoje, não importando a que década ou idade pertence muitas vezes. Isso causa um efeito muito interessante de aproximação, quase como se o livro dissesse “não importa se isso foi há quarenta anos atrás ou semana passada, o drama das pessoas tem um peso que independe disso”; o mundo interior é o que conta.

 Apesar de ser localizado num tempo etéreo de várias décadas, esse livro não é um romance de época, então não tinha necessidade de ficar pontuando as situações com clichês temporais. E a vida não mudou tanto assim. As pessoas vão para o trabalho, para a escola, amam e deixam de amar, têm doenças e se recuperam (ou não). Nossa vida cotidiana é diferente (e o adolescente mais novo joga muito vídeo-game, o personagem mais velho é relojoeiro, uma profissão que ruma para extinção), mas para o material bruto da literatura, não. O objetivo do livro (se é que é lícito falar em objetivo com literatura) era trabalhar situações e sentimentos incômodos, não detalhar como era a vida numa época.

 

Dentro desse trabalho de lidar com situações e sentimentos incômodos, as diferentes formas de perda e de se lidar com ela são um dos grandes temas do livro. Os personagens têm contato com a morte de entes queridos ou de estranhos; com a dissolução dos valores judaicos na família; com o distanciamento entre pessoas que podem estar em outro país ou vivendo na mesma casa, e mesmo com a perda de seus próprios objetivos e cuidados na vida. O título, “Amanhã não tem ninguém”, aponta para essa finitude geral. Durante a escrita, esses temas nortearam a criação das subtramas e dos personagens? Como foi esse processo?

Antes e durante a escrita do livro, tive que conviver e pensar sobre esses sentimentos de perda, vulnerabilidade física e permanência. Eu não sou um autor que consegue pensar o romance de antemão, então obviamente eu sou afetado pela realidade e pelos sentimentos que ela traz. Escrever um romance é um processo de anos (pelo menos no meu caso), então, de algum modo, esse romance retrata um período da vida que passei, mesmo que os personagens em si não tenham relação direta com as pessoas em minha volta.

Já sobre a dificuldade de comunicação entre as pessoas, não exatamente. É um tema que sempre me interessou e que esteve no primeiro romance, com força até maior, e estará no terceiro, mais ainda. Sempre me interessou o que é pensado, mas não verbalizado. A literatura nos dá essa opção artística. Imaginar o que as pessoas pensam, mas não dizem (ou fazem) me encanta. Nos revela ainda mais que o mundo verbal em que vivemos.

 

Você já tem dois romances publicados, está começando a trabalhar a no terceiro, mas além deles tem vários contos publicados em antologias de destaque. Vou aproveitar a ocasião para inverter aquela pergunta que sempre fazem a contistas: E aí, quando vai lançar um livro de contos?

Meu caminho como escritor começou no conto, mas me sinto muito mais confortável no romance. Já fiz parte de oito antologias, ou seja, se o leitor curioso quiser encontrar meus contos não terá tanta dificuldade em achar. Mas um livro de contos só meu não está nos meus planos. Esses contos foram escritos isoladamente e não acho que funcionariam em conjunto. Não é só a disparidade de temas, mas de fases do autor que ainda estava procurando seu caminho.

 

Flávio, muito obrigado pela conversa. Já tinha gostado muito de seu livro, agora admiro-o ainda mais. Agora tem um espacinho aí de saideira pra você divulgar algum evento, página de internet ou deixar a mensagem que quiser. Valeu, abração!

Obrigado, Rafael. A admiração é mútua. Espero que os leitores desta entrevista tenham ficados curiosos para ler meu romance.

 

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Um comentário sobre “Com a palavra: Flávio Izhaki

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