A história por trás da história: “Balas”

Eu já tinha nove dos dez contos do livro definidos. Estava feliz com o espectro de temas coberto, mas achei que faltava uma história que lidasse com as relações entre um indivíduo e o coletivo a seu redor: como as divisões de classes e a colocação social podem atuar sobre uma pessoa e definir suas escolhas, ou no mínimo pesar muito na balança.

Pensando nesse tema, passei um tempo tentando encontrar um personagem que fosse marginalizado, mas possuísse algo distinto. No Brasil a gente já tem centenas de histórias (literárias, cinematográficas ou televisivas) sobre isso; eu precisava encontrar algo ao menos um pouco diferente.

Parado no trânsito da Av. Paulista, em São Paulo, voltei minha atenção para aqueles vendedores de balas que ficam nos semáforos. Sei que não há isso em todas as cidades, então explico para quem nunca viu: são pessoas que perpassam a fila de automóveis parados nos semáforos, pendurando saquinhos com balas ou outros doces nos retrovisores. Depois eles voltam ao início e repassam os carros. Se o motorista não quiser comprar, basta deixar o pacote pendurado ali, que eles recolhem. Se quiser comprar, é só pegar os doces para si e entregar o dinheiro para o vendedor quando ele passa.

Algumas coisas me intrigaram e resolvi pesquisar na internet, onde achei uma matéria sobre esses vendedores ambulantes. Decidi criar um personagem que fosse um ex-presidiário tentando “a vida honesta”, com o trabalho de vender balas nessa modalidade. A tensão, expressa no trocadilho do título, seria se compensa viver dessa maneira ou se como criminoso o custo-benefício era mais atraente.

O protagonista é uma espécie de “homem simples filósofo”, em uma reverência a um dos escritores que mais admiro: Guimarães Rosa. Eu queria que o marginalizado fosse, nesse conto, o “centro”: por isso ele é o narrador em primeira pessoa, aliás o único do tipo no livro. A história ganha muito mais força contada pela sua própria voz do que se fosse através de um narrador em terceira pessoa: uma entidade que não passa por aquelas dificuldades para sentir o quanto elas influenciam no comportamento.

O conto não se trata de uma defesa do criminoso, mas de explorar as contingências que fazem com que a via do crime pareça a mais lógica. A maioria das pessoas preferem uma situação em que ganham mais dinheiro pelo seu esforço, têm mais poder de decisão e mais respeito, sem sofrer tantas humilhações. Você não?

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