Com a palavra: Marcos Peres

 LucioF_S&M-pc-00292

A seção “Com a palavra” recebe dessa vez Marcos Peres, o grande vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria Romance, com seu Evangelho segundo Hitler. Tivemos uma conversa bem legal sobre seu livro polêmico, sobre esse momento na carreira de Marcos e outras cositas más. Um dos meus objetivos com essas “entrevistas” sempre foi poder ter uma conversa mais sincera sobre o processo de escrita, sem toda aquela banca de escritores iluminados, e acho que nesse sentido essa conversa foi umas das mais bacanas. Vamos lá:

 

Marcos, não dá pra falar do seu livro sem comentar sobre o título. “O evangelho segundo Hitler”, por sua junção entre o sagrado e o nefasto, causa um impacto inegável e desperta as mais diferentes reações. Queria que você, principalmente na categoria de autor estreante, dissesse como tem sentido o retorno disso: se você sente que o título tem obtido resultado positivo no poder de atração do livro e se houve reações inusitadas e/ou equivocadas.   

Há diversos tipos de reações. Confesso que no começo, antes do livro ser publicado, este era meu maior medo. O livro vermelho, a suástica, o meu nome ao lado. Preocupei-me com um prólogo que me justificasse, que mostrasse que o autor não tinha (e não tem) nenhuma intenção política ou religiosa com o título. Hoje talvez eu não faria o prólogo. As reações vão existir de todas as maneiras e para todos os lados, independentemente de eu tentar me justificar ou não.

Quanto às reações, confesso que me divirto muito. Esses dias um senhor entrou na livraria e a acusou de fazer apologia ao nazismo. No Twitter, volta e meia alguém diz algo do tipo: “Passei na livraria hoje e vi o livro mais estranho do mundo!”. Já anonimamente perguntei em livrarias sobre o Evangelho e percebi, surpreso, a reação um pouco incrédula da vendedora. Na Jornada Literária de Passo Fundo, encontrei o Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii, e entreguei meu livro. Ele respondeu algo do tipo: “Bah, guri. Você que escreveu isso?” Afirmei que sim com a cabeça. Ele olhou para o livro, olhou pra mim de novo, e repetiu a pergunta. “Sério que tu é o autor mesmo? Olhei esse livro na vitrine ontem, fiquei muito curioso…” Acho que ele esperava um senhor barbudão ou skinhead careca, sei lá. Foi engraçada a reação dele.

Acho que o resultado final é positivo: há quem se espante e torça o nariz para o Evangelho. Mas percebo que muitos buscam o título pela curiosidade do inusitado ali proposto. Foi uma polêmica que, apesar de não querer ver instaurada, está comprada. Quando o livro foi escrito, era para ser visualizado pelos três ou quatro leitores/amigos/parentes de sempre. O concurso foi pensado em um momento posterior.

 

Legal você comentar essas coisas, porque eu queria justamente te perguntar sobre esse momento que você está, da passagem de um escritor “de gaveta” para um publicado por uma grande editora. Acho que o prólogo do livro foi bastante sintomático dessa passagem – quando se sai do “só alguns amigos vão ler isso” para “isso vai estar em todas as livrarias, nos jornais, etc.”. Queria saber como tem sido pra você essa passagem, tanto no sentido de enxergar o “Evangelho” com outros olhos, quanto para os futuros trabalhos, já que a pressão aumenta. Você já tem escrito coisas novas, tem sentido essa diferença dos dois momentos?

O prólogo foi icônico nesse sentido. O momento brusco, a primeira vez que senti essa passagem foi logo quando recebi a notícia do prêmio. Eu estava eufórico e tive que me explicar para vários colegas de trabalho. Naquele momento, senti o primeiro desconforto de escrever um livro com este tema e este nome. Em Passo Fundo, disse que este foi o momento em que saí do armário. É engraçado, a literatura sempre fez parte da minha vida, mas sempre foi uma paixão secreta. Eu escrevia, mostrava pra pouquíssimas pessoas e me contentava com isso. Não anunciava nas redes sociais nem me promovia porque meu mundo – pessoal e profissional – sempre foi muito, muito distante da literatura. Se eu dissesse, por exemplo, para os meus amigos de infância que pretendia ser um escritor, este fato seria tão inusitado quanto dizer que queria ser pintor de quadros renascentistas, ou atacante do Flamengo, ou Astronauta, ou Escavador de tesouros pré-incas. Talvez, por estas características, o meio influenciou bastante minha tímida personalidade literária. E por isso o baque foi maior quando recebi o prêmio. Tive que me explicar duas vezes, não só a respeito do título e do tema, mas também pelo fato de, subitamente, o servidor público Marcos virar um insuspeito e inusitado bardo literário. Escutei muitas vezes a pergunta: “Você começou a escrever quando? Nem sabia que você escrevia?”, além da tradicional e já familiar “Você é nazista?”

O que mudou desde que lancei o Evangelho? Acho que minha segurança. Hoje, sinto-me mais confiante do que sou e do que falo. Quando saiu o resultado, eu ficava apavorado com tudo. Lembro do frio na espinha da primeira entrevista, do receio do juiz saber que seu funcionário era um acabrunhado literário, dos olhares do porteiro do prédio ao descobrir que o seu conhecido Marquinhos escreveu um documento bíblico de Hitler.

Escrevo compulsivamente. Agora, limitado pelos compromissos burocráticos do Evangelho. Mas sempre que tenho um tempinho, vou gastar as teclas do meu teclado. Escrever sempre foi minha terapia. Meu momento de solidão. A maneira mais eficaz que conheço pra exorcizar os demônios que carrego. Brinco com isso: eu sei que eu escrevo muito – no sentido quantitativo da coisa. Por encarar o ato de escrever como necessidade, não sinto muito a pressão para futuros trabalhos. Não penso que escrever é um trabalho, porque trabalho, para mim, é o ato de bater carimbos no Tribunal. Literatura está em outro plano: é forma de expiação, necessária, prazerosa e, principalmente, personalíssima.  Isso me blinda da pressão e me incentiva a escrever sempre mais.

 

Além da junção entre sagrado e profano do Evangelho com Hitler, há uma outra união de elementos no livro que quase poderia ser entendida da mesma maneira: você une na mesma história Jorge Luís Borges, um dos autores mais respeitados da literatura, com uma trama de teoria da conspiração – algo muito típico em livros mais comerciais – o que, para alguns, poderia ser uma heresia ainda maior (risos). Aliás, tenho visto em grande parte da recepção da imprensa e da crítica uma aproximação entre seu trabalho e o de Dan Brown. Acho que fica nítida no livro sua admiração por Borges – devo acrescentar que ler o Evangelho me deu uma sede tremenda de (re)ler o escritor argentino – e por outros autores tidos como “alta literatura”, como por exemplo Umberto Eco. Já o que o aproximaria de Dan Brown (a trama conspiratória envolvendo fatos históricos reais e chamativos, como o surgimento do nazismo, por exemplo) é a espinha dorsal do livro, mas ao mesmo tempo parece receber um olhar irônico seu. Queria saber como se relacionam, para você, esses diferentes autores e formas de se trabalhar. 

Juntar Borges e Brown é uma heresia das brabas. Mas foi justamente essa heresia que me foi combustível para conceber o livro: a ideia inicial surgiu quando li As Três versões de Judas. Aquilo era uma monstruosidade muito grande, eu pensei. Falar de Judas como Borges falou é uma heresia de um profissional e faz a história do Dan Brown parecer uma lenda infantil. Neste momento eu pensei: “Cara, vou escrever sobre as versões de Judas do Borges. Vai ser o meu Código Da Vinci”.

Você foi muito perspicaz ao afirmar sobre a possível aproximação do Evangelho aos livros do Dan Brown pela crítica, ao contrário da ironia proposta no texto. Realmente, é uma coisa que tem ocorrido. Estes dias saiu uma crítica lúcida no jornal Rascunho. O jornalista afirma certa decepção inicial ao esperar por um texto crítico e encontrar capítulos acelerados, lineares, com tramas capazes de segurar o leitor para mais capítulos, artificio usado por Brown e por escritores de livros best-sellers. Quando a ironia começa a ficar evidente, o jornalista usa a palavra esquizofrênico para, em seguida, afirmar que naquele momento não sabia qual a direção que o romance buscava, se era uma cópia ou uma verdadeira ironia ao texto de Dan Brown. No final, ele entende que o teor crítico prevalece, é verdade, mas foi algo que me fez refletir um pouco: de fato, há um Gregor Samsa dentro de uma barata. Forma e conteúdo distintos, este no sentido crítico, aquele voltado para o comercial e popular. Percebi com isso que posso perder leitores dos dois lados: quem imaginar que o proposto é uma conspiração no estilo Código da Vinci ou Anjos e Demônios, pode se decepcionar com o desfecho da trama. Pelo contrário, quem procurar no texto uma ironia, pode desistir nas primeiras 50 páginas. Aos dois lados, apenas rogo por tolerância.

O curioso é que, apesar de parecer agora um pouco esquizofrênico, foi justamente o que pretendi, quando o livro foi escrito: na forma, na estrutura, na utilização das palavras, tentar deixar o mais comercial possível. No conteúdo, pretendi usar o vetor oposto ao utilizado pelo autor de Código da Vinci. Para isso, é óbvio, li os livros de Brown e estudei a estrutura de seu romance, a velocidade, as relações afetivas, os trejeitos dos personagens. Neste ponto, ele foi, sim, importante. No resto, foi avacalhação mesmo, ironia.

 

Você disse que teve a ideia do livro a partir do conto “As três versões de Judas”, do Borges. Mas daí a conecta-lo a Hitler e ao surgimento do nazismo, como foi? Porque você conseguiu encontrar muitas conexões notáveis, como, por exemplo o ano da morte do personagem borgiano Funes, o memorioso, ser o mesmo do nascimento de Hiltler. Como funcionou esse jogo de ligar os pontos? Você chegou também a pensar em outras conexões possíveis antes de decidir por Borges e Hitler?

O grande barato do livro é este, ao menos para mim. No momento de pesquisa, tudo vira conexão para tudo. Como você disse, o primeiro elo foi o conto das versões de Judas. As outras conexões vieram ao acaso. Algumas eu mesmo me assustava e mais de uma vez me perguntei como podia tanta sincronicidade. Aí eu percebi que, de uma maneira ou outra, as coisas se encaixam, porque os fatos estão sendo distorcidos, até se tornarem convenientes. Esmiúço um exemplo aqui, só para se ter uma ideia de como as coisas se dão: eu estava na análise (peremptória, partidária, propositalmente tendenciosa e mentirosa) de um conto de Borges. Em determinado momento, pá, ele dá uma data. Era um conto muito bom e eu precisava encontrar algo para aquele dia, que encaixasse na minha teoria. Procurei, procurei, procurei e não havia nenhum fato nazista que se encaixava naquela data. Digitei a data no Google e cruzei os dedos para ter ocorrido algo que fosse relevante e favorável. Alguma coisa, no mundo todo, deve servir como muleta argumentativa do meu plano. No fim, vejo que é o dia em que a irmã Lúcia, aquela menina do segredo de Fátima, decide contar o 3º segredo para o Vaticano. É uma história obviamente sem comprovação e cheia de mistérios. Neste ponto, dei algumas piruetas, criei pontes frágeis, conexões estreitas e o laço se ligou: consegui unir uma data de um conto de Borges com o terceiro segredo de Fátima, que interpretei como sendo o fim do mundo que meu protagonista acreditava que estava por vir. Foi um capítulo que, sem querer, inseri dados do Vaticano e de lendas católicas. O acaso me foi favorável e, no momento de revisão, o Papa Francisco foi eleito como o primeiro Papa argentino da história. Inseri, então, duas linhas, em um ato irônico, porém com respeito, afirmando que o segredo de Fátima era confiado a todos os Papas que, por sua vez, decidiam se tal segredo seria revelado. Coloquei Borges como o primeiro papa argentino da História. Era a cereja do bolo. As coisas se deram muito pelos solavancos e pelo acaso. Este é um exemplo de como o Evangelho foi arquitetado.

 

Marcos, muito obrigado pela entrevista, gostei demais da nossa conversa. Agora, pra finalizar, o “Momento Jabá”: aproveita aí pra divulgar site, blog, evento, livro, o que quiser. Valeu, abraço!

Obrigado, meu amigo. Eu que agradeço – pela sua amizade, pelos seus valiosos ensinamentos Jedi, pela sua compreensão e por esta conversa bacana.  Bom, estou com um blog novo na área (www.marcosperes.com) e com a Fan Page do Evangelho segundo Hitler no Facebook.

Além disso, há o Clube de Leitura dos Premiados Record, que terá o livro como pauta em novembro.  A indicação é algo que me deixou super feliz, uma honra imensa e, aqui, quero deixar consignado meu sincero agradecimento pela escolha.

No domingo, 03/11, eu e João Vereza falaremos na Bienal de Alagoas, em Maceió. Quem estiver na área, apareça que será uma conversa descontraída e gostosa. O João com aquela barbicha que parece o vocalista do System of a Down, eu com meu sotaque caipira e interiorano pareço um sertanejo universitário. Ele com seus contos, com seus maneirismos musicais, com sua prosopopeia de mineiro (só falo isso para irritá-lo), eu com um romance que se passa em outro continente, em diversos países, em um tempo pretérito. Somos bem distintos, mas nos entendemos na hora da conversa. E quem não gostar do papo, prometo que pago uma cerveja depois.

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Um comentário sobre “Com a palavra: Marcos Peres

  1. Pingback: Post de fim de ano | Labirinto Invisível

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s