Sobre “Gravidade”, ou a arte de não deixar sobrar sutileza na história.

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Quando vi o trailer de Gravidade pela primeira vez, pensei: “É uma boa ideia. Mas como os caras vão fazer pra manter o interesse em uma história que é só uma pessoa, ou um casal, à deriva no espaço?” Tolinho, eu. Claro que eles nunca iam fazer isso. Afinal de contas, é preciso “manter o espectador agarrado à poltrona”, não é mesmo? A história precisa “passar uma mensagem”, certo? O filme precisa ser “acessível a todo tipo de público” também.

Se fosse gastronomia, Gravidade seria algo como uma receita de ceviche de salmão e ervas finas, que Hollywood, ao preparar, esparrama molho barbecue por cima, e ainda joga bacon com ovos mexidos pra arrematar. Do jeito que o povo gosta.

Comecemos pelo lado bom, vai: sonoramente, o filme é uma das coisas mais legais que vi lançadas ultimamente. É uma espécie de “demonstração” do Dolby Atmos, novo sistema de som da empresa que lidera as tecnologias sonoras cinematográficas. Tentando explicar de forma simples: esse sistema tem um monte de alto-falantes e canais independentes, muito mais do que os 3 frontais e os 2 de trás tradicionais, mais o subwoofer (vulgo 5.1). Ou seja, você pode ter sons distintos vindos de diferentes partes da sala, inclusive do teto (e de várias partes diferentes do teto!). Entendeu agora por que o filme é “O” produto pra exibir a tecnologia? Lembre-se: apresentação é tudo pra esses caras. A primeira fala do cinema foi Al Jonson cantando num show em O cantor de jazz, o primeiro 3D da nova era foi Avatar. É preciso espetáculo, sempre. Não tenho informações sobre isso, mas não duvido que a Dolby tenha financiado parte do filme, como fez com Star Wars, para propagar seu produto. Nada contra, claro; só digo isso pra a gente ver um pouco melhor como a coisa funciona.

A triste notícia é que no Brasil só há uma sala com sistema Dolby Atmos. E ela fica em Campo Grande. Pois é.

Mas isso não enfraquece o poder sonoro do filme: a música finalmente se desprende do plano frontal e pinta e borda pelo surround. Preste atenção e você vai ouvir os violinos ora saindo na caixa de som da esquerda frontal, para logo em seguida saírem na da direita traseira. As vozes fazem o mesmo, principalmente quando emanam de personagens fora de quadro. Sim, isso é parte fundamental da sensação de vertigem do filme. Só por isso, acho que vale a ida ao cinema. Baixar pela internet e assistir no seu iPad vai subtrair grande parte da experiência fundamental do filme.

Além disso, o uso de silêncios é bem proeminente, o que sempre cai bem em filmes no espaço, e em tempos tão barulhentos como o nosso. O silêncio debaixo d´água, quando a astronauta se afoga, faz uma conexão com o espaço bem legal também. As vozes alternam entre filtradas para simular comunicadores e a voz pura, criando diferentes graus de empatia “humana”. Outro aspecto muitíssimo bem trabalhado no filme são as subjetivas. São de fato, das melhores; tanto do ponto de vista sonoro quanto visual. Aliás, a melhor cena do filme é logo que a astronauta vivida por Sandra Bullock se desprende da nave e fica à deriva pela primeira vez. A câmera vai até ela, se aproxima do vidro do capacete até vermos seu rosto e ouvirmos sua respiração pelo comunicador. Então, a câmera atravessa o vidro e ouvimos seu ofegar sem o filtro do rádio, emanando direto de sua boca. A câmera gira e fica entre o rosto dela e o vidro do capacete. Temos uma bela subjetiva com a visão da mulher: tudo rodando, enquanto sua respiração ofega nos alto-falantes traseiros do surround. Depois a câmera sai e faz o caminho reverso. A música e os efeitos sonoros giram pelo surround causando um efeito bem legal. Nessa hora você pensa: “Uau, pode ser um filmão isso.” Calma.

Depois disso… bem, o que fazer com a história? Aí é que a coisa desanda. Pra “manter o espectador agarrado à poltrona”, os astronautas se desprendem, se reconectam, chegam a uma estação ou nave e trombam, desprendendo-se de novo e conseguindo se salvar por pouco. Isso se repete tantas vezes, que eu perdi a conta. Tudo, claro, com música de tensão, pancadas sonoras altas só pra disparar sua adrenalina e tudo mais que o “Combo Blockbuster” sempre dá direito. Como os astronautas não podem se salvar facilmente (se não o filme acaba), e têm que ficar fazendo esse ping-pong, toda nave que entram dá mil panes diferentes. É a famosa “montanha-russa de emoções”, recurso ausente em 10 entre 10 grandes filmes.

Mas mais incômodo que isso, pra mim, é a necessidade de fazer com que seja impossível que algum espectador não entenda absolutamente TUDO o que o filme quer passar como mensagem. É aquela concepção de que o espectador é incapaz de compreender algo mais complexo que uma sitcom.

Os personagens, óbvio, passam o filme se auto-explicando: a base, logo no começo, fala para os astronautas qual é a missão deles (imagine-se um cientista de primeira linha trabalhando em uma missão por uma semana, e alguém dizendo para você, depois de tudo isso, o que é que você está fazendo ali); a astronauta conta a história de sua filha morta, e depois explica – falando sozinha – quando seus sentimentos mudam, o que aconteceu. E todo o resto é sempre explicado: pra onde eles devem ir pra se salvar, como fazer isso, etc. etc. Não sobra NADA pro espectador presumir sozinho.

Além disso, as analogias são sempre encharcadas de obviedade. Quando a astronauta volta para a nave, há uma cena bem legal em que ela se livra de todo o peso do traje e flutua. A sensação de voltar a um lugar bem protegido também funciona muito bem. Mas, não basta: os caras têm que fazê-la assumir posição fetal, com um cenário circular por trás, mudar a fotografia de azulada para avermelhada e alaranjada, e deixar os cabos em uma posição semelhante a um cordão umbilical. Sim, é uma volta ao útero materno. Precisa mesmo ser tão óbvio assim?!

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Precisa mesmo ser TÃO óbvio?!

Uma das coisas que separam narrativas mais interessantes das mais “comerciais” costuma ser o fato de haver outras camadas na história, elementos que tornam mais complexa a trama. No caso de Gravidade, essa outra camada até existe: todo o vazio do espaço, e a difícil luta para sair dele, funcionam como metáfora para a astronauta e a superação de seu luto pela filha. Legal, poderia ser interessante. O problema é que o filme pesa tanto a mão nisso, que o que era pra ser sub-texto vira texto. A astronauta explica o que aconteceu à filha, diz que não consegue desapegar. Adiante, o astronauta vivido por George Clooney fica preso a ela e vê que os dois morrerão se ela não desapegar. Sacou? Ainda não? Não tem problema, o personagem ainda reitera na sua fala: “Você precisa desapegar para continuar vivendo”. No ápice do filme, quando a astronauta consegue encontrar o caminho para sobreviver, despede-se antes da filha, em um solilóquio. É pra você, espectador, não ter dúvidas de que o adeus ao espaço é também um adeus ao luto pela filha.

E o pior é que os dizeres no pôster do filme são exatamente: “Don´t let go” (Algo como: “Não desapegue”). Sim, uma mensagem contraditória ao mote principal do filme. Mas lógica não importa, o que importa é o “efeito”, certo?

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4 comentários sobre “Sobre “Gravidade”, ou a arte de não deixar sobrar sutileza na história.

  1. Muito boa a sua crítica, Rafael.
    Não há nada mais irritante que a narrativa explícita, que disseca até as miudezas. Fazer isso é especialidade de Hollywood, não é…
    Embora eu tenha gostado bastante do filme, a mensagem de superação ali colocada é tão flagrantemente explícita e enervante que juro que ao fim do filme eu pensei: “pronto, agora põe a protagonista pra escapar de uma tribo canibal que eu fico feliz (se ela escapar, é claro)”.
    E quanto ao 3D, puxa, não entendo, de verdade, pra que diabos essa porcaria serve.
    Um grande abraço.
    Gostei muito do seu livro.

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    • Obrigado, Guilherme!
      Hahahha… Cara, de fato, os “conflitos” ficam tão banalizados, que você espera mesmo que vá acontecer mais alguma bobagem, só pra manter a “ação”. Quando vi ela se afogando, pensei “putz, lá vamos nós de novo”.
      Um amigo meu disse que a personagem dela parece o Coiote do Papa-léguas: é basicamente uma sucessão de acidentes. rs…
      Também não me sinto muito confortável com o 3D, não. O óculos não encaixa direito na minha cabeça, o filme também não.
      Obrigado pelos elogios, fico contente que tenha gostado do livro!
      Abraços.

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