A história por trás da história: “A casa iluminada”

Muito antes de pensar em escrever um livro, eu já pensava, como uma brincadeira, no quanto seria estranho alguém encher a casa de luzinhas de natal em outra época – no meio do ano por exemplo. Na verdade, o que me interessava nisso era o quanto o que é tido como normal é uma questão de convenção social: se estamos em dezembro e está todo mundo fazendo isso, tudo bem você cobrir sua casa das lampadinhas; se for junho e você fizer a mesma coisa sozinho, vão te taxar de maluco.

Quando fui escrever os contos do livro, quis retomar esse tema e percebi que o que me fascinava nele não era o ato em si, mas as reações que ele despertaria. Daí A casa iluminada ser a única história do livro voltada para a resposta coletiva a um evento, ao invés de um ou mais personagens relacionando-se entre si.

Se houvesse na trama um dono da casa, algum responsável pela instalação inesperada das luzinhas, o conto provavelmente se resumiria à classificação desse cara como um maluco. É uma solução válida, e que poderia dar bons resultados. Mas eu achei que, se queria focar nas reações ao redor, seria mais divertido não haver um dono da casa, uma solução para o estranhamento geral. Assim, ao invés de termos um maluco para o qual apontamos o dedo, podemos ter os outros enlouquecendo ao redor com algo que não compreendem.

A partir daí, o conto abriu novas portas (com o perdão do trocadilho), e eu sempre gosto quando uma história – mesmo breve – aponte para muitos sentidos além de seu próprio espaço. Liçãozinha que Cortázar passa muito bem em Do conto breve e seus arredores (leitura recomendadíssima para qualquer pessoa envolvida com criação). A casa iluminada passou a ser, além desse pequeno questionamento da ideia de normalidade, também uma parábola sobre a percepção de crenças e mistérios, e sobre como o coletivo realimenta a si mesmo, principalmente após a casa ser ressignificada por sua veiculação massiva, na TV e na imprensa jornalística.

É um conto simples, mas que eu gosto bastante, principalmente do final.

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