A história por trás da história: “Espiral”

É um pouco estranho falar da criação de “Espiral”. Não me entenda mal, eu gosto muito desse conto – é um dos meus preferidos do livro. O estranhamento é porque seu processo de escrita se deu de maneira totalmente oposta ao que estou acostumado, e creio que oposto ao que o resultado final aparenta.

Explico: esse é um dos contos com a trama mais complexa do livro. Em nenhum outro há tantas conexões entre os elementos internos da história. Se eu fosse apenas seu leitor, e não escritor, diria que foi um dos que mais demonstra um trabalho meticuloso de estruturação. Mas o fato é: foi o conto no qual eu menos trabalhei em cima. Pois é. Eu odeio dizer isso, mas é verdade.

Eu sou um dos grande defensores do trabalho árduo sobre a criação. Sou o primeiro a debochar da ideia de inspiração e todo esse tipo de coisa. Então não quero passar uma impressão errada. “Espiral” não foi uma criação do tipo “psicografada”, “captada no ar”, ou que “caiu no meu colo”. Acho que a conversa é outra.

Vamos lá: como tudo começou. A ideia, na verdade, veio de um outro conto, que eu havia escrito antes. Um conto chamado “A dança”, na qual um pai deslocado e inadequado, acabava beijando a filha em meio à dança da formatura dela. Viúvo, perdido e querendo se encontrar, ele se perdia entre as espirais do bailado (sacou de one veio o título?) e a beijava. Mas depois joguei tudo isso fora e pensei num incesto entre mãe e filho.  Essa era uma ideia que me atraía mito, principalmente depois de ver tantas histórias sobre mães que superprotegiam tanto seus filhos, que eles nunca cresciam para longe dela.

Daí era começar a escrever. Mas eu não sabia nada do que ia acontecer na história, tinha apenas o conceito em minha cabeça. Comecei a pensar que a casa seria um lugar na qual os dois se fechariam (um símbolo do amor patológico entre eles), então, comecei com a mulher chegando a seu lar e sentindo alívio. Daí pra frente, fui inventando tudo na hora e voilá. Quando cheguei no final, vi que tinha o conto praticamente pronto. Eu costumo mexer muito – mas muito mesmo – nos meus textos. “Espiral” é uma exceção: a primeira versão deve ter uns 95% do texto final, no mínimo. Na hora de revisar, só melhorei algumas conexões, acrescentei poucas outras.

Não me peça para explicar. Pra mim, é um daqueles momentos em que sua concentração e seu trabalho realmente clicam, e as coisas vão dando certo, o que cria uma inércia auto-reforçadora. É como um jogador que em determinado dia parece estar de acordo com a bola. Não se trata também daquela história dos personagens caminharem sozinhos (assim como a bola não caminha sozinha para o jogador), é só um dia em que parece tudo “combinar” melhor.

Acho que algumas coisas colaboram para esse “fenômeno”: esse foi um dos últimos contos que escrevi para o livro, em uma época que estava totalmente focado nisso e “aquecido”. Também é uma história sobre a qual pensei muito antes de escrever de fato, e cujos elementos funcionavam muito bem. Além disso, acho que trabalhei nele com algo familiar para um músico, como eu: tema e variações. Uma das coisas que acho legais nesse conto são os pequenos “motivos” que se repetem e vão se tranformando, como na música, como em uma espiral. Aliás, um dos objetivos era esse: escrever um conto em forma de espiral. Com coisas que ficam se repetindo (como um círculo), mas que por se transformarem pouco a pouco, vão chegando a outro lugar.

Mas não é só uma questão de prática ou de estar “aquecido”. Existe essa porção meio incontrolável mesmo no trabalho de criação. Assim como um jogador, que parece ter variações de desempenho muito grandes de uma partida para outra, com a criatividade acontece o mesmo. Tem horas que a coisa flui bem, tem horas que não. Claro que isso não deve servir como apologia às ideias de inspiração ou coisa do gênero, mas é fato que tem momentos que por mais que você trabalhe, não “rola”. Ou pelo menos não rola tão bem quanto em alguns dias em que você, sem muito esforço (naquele momento), escreve uma das coisas mais legais que já fez.

Agora estou escrevendo um romance, e por se tratar da mesma história, dá pra perceber melhor essa comparação. Tem horas que a coisa anda um montão, tem horas que, mesmo com a bunda na cadeira por horas, a dificuldade é muito maior. “Espiral” foi, sem dúvida, uma exceção. Nunca mais me aconteceu algo assim.

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