Com a palavra: André de Leones

Foto: Renato Parada

Foto: Renato Parada

A seção “Com a palavra” conversa dessa vez com André de Leones, autor dos romances Terra de casas vazias (Rocco, 2013), Dentes negros (Rocco, 2011), Como desaparecer completamente (Rocco,2010), Hoje está um dia morto (Record,2006), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2005, e do livro de contos Paz na terra entre os monstros  (Record,2008) . Vamos lá:

André, no seu novo livro, “Terra de casas vazias”, há várias tramas paralelas, divididas em diferentes capítulos que ainda contêm algumas subtramas. Embora tenham suas conexões, elas poderiam também sobreviver de forma autônoma, já que têm grande independência narrativa entre si. Como foi o processo de criação nesse sentido? Você partiu do conceito de ter um romance com essas narrativas e depois criou uma a uma do zero, ou você inseriu ideias que já tinha guardadas?

A ideia é que o livro aponte para Jerusalém desde a sua estrutura. Eu estava por lá quando comecei a escrevê-lo e não é por acaso que seu desfecho tenha lugar naquela cidade. Então, eu pensei em uma narrativa dividida em cinco partes, da mesma forma como a Cidade Velha de Jerusalém é dividida em cinco partes: quatro bairros (judaico, cristão, árabe e armênio) e o local onde estão tanto o Muro das Lamentações quanto o Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa. Estes, é claro, também fazem parte desse ou daquele bairro dentre os citados, mas sempre penso neles (pela sua simbologia, e por caracterizar tão claramente a discórdia que ainda divide a cidade) como algo à parte. É por isso que, no romance, o trecho que se refere ao passado mais distante de dois dos personagens, a infância de Arthur e Aureliano nos anos de 1980, é o único narrado no tempo presente. As outras quatro partes são narradas no tempo passado. É Jerusalém, ou a ideia que faço de Jerusalém, que liga as histórias, muito mais do que eventuais parentescos entre os personagens, e justifica “Terra de casas vazias” como um romance e não uma coleção de narrativas mais ou menos autônomas. Na minha cabeça, e conforme a maneira como concebi o romance, suas partes não têm razão de ser isoladamente. Não por acaso, estranho muito quando alguém diz ter gostado mais (ou menos) dessa ou daquela parte.

Mas do ponto de vista criativo, trabalhar com um novo núcleo de personagens, tramas e subtramas a cada capítulo demanda uma organização de escrita diferente daquela de um romance centrado em apenas um – ou alguns poucos – protagonista(s), não? Você, que já escreveu romances dessas duas maneiras, além de um livro de contos, como vê as distinções entre essas formas de trabalho? Entre as maneiras de se montar a trajetória dos personagens?

Quanto à forma de trabalho, sempre parto da ideia de que histórias diferentes exigem aproximações diferentes. “Dentes negros”, por exemplo, é algo mais seco, direto. Logo, não precisei quebrar a cabeça para soar alusivo ou encontrar formas indiretas para abordar personagens e histórias. “Terra de casas vazias” pediu o contrário disso: traços menos claros, notas mais longas, contornos mais dispersos. É um mural cujas margens parecem fluidas. É um passeio noturno pelo deserto. A imagem presente no final do romance (a outra margem invisível do Mar Morto) resume bem isso.

Você mencionou o “Dentes negros”. Eu lembrei dele, principalmente na parte em que Teresa sai de casa e tem uma visão apocalíptica da cidade, Brasília. Ela diz: “Fim do mundo, mas um apocalipse higiênico, que extinguisse a vida humana, não as edificações. (…) Silenciosa e tranquila terra de casas vazias.” O novo romance foi escrito entre 2009 e 2012, período em que você publicou “Dentes negros” e “Como desaparecer completamente”. Como você vê o diálogo entre o “Terra” e seus outros livros, especialmente esses dois?  

“Como desaparecer completamente” me ajudou a sedimentar uma noção fragmentária da estrutura narrativa, coisa que procurei afinar em “Dentes negros” e “Terra de casas vazias”. Todos são romances constituídos por blocos de histórias que se relacionam de diversas maneiras. Assim, sob esse aspecto, são romances aparentados. Os livros anteriores, “Hoje está um dia morto” e “Paz na Terra entre os monstros”, foram esforços noutro sentido, o de permitir que os temas ali desenvolvidos contaminassem ao extremo as formas narrativas. Por exemplo, é fácil notar isso no palavreado desbragado do “Dia Morto” e na constituição alquebrada de “Aneurisma”, novela que fecha “Paz na Terra entre os monstros”. A partir de “Como desaparecer completamente” (embora ainda explore essa contaminação na segunda parte desse romance), procurei me distanciar um pouco e cada vez mais, até atingir a secura de “Dentes negros” e a frialdade de “Terra de casas vazias”. Ao mesmo tempo, pela escolha do vocabulário e dada a maneira como formulo determinadas circunstâncias, é como se, a cada livro, eu falasse mais e mais baixo. “Terra de casas vazias”, não obstante alguns arroubos em seu miolo, é um longo sussurro. Remeto, de novo, ao desfecho: a ideia era que a parte final do livro instituísse uma desaceleração. A imobilidade final é o silêncio se instalando. Teresa chama por Arthur, mas ele não a ouve. Talvez ela não o esteja chamando, então. Talvez ela já se tenha calado.

 

Sempre perguntam pros escritores – especialmente os mais novos – quais são suas influências literárias. Mas muitas vezes as influências podem vir de outros lugares: eu, por exemplo, sou muito influenciado por alguns cineastas, e penso em muitas cenas do meus livros como imagens cinematográficas antes de escrevê-las. Você, que é formado em cinema, atua como crítico nessa área, e algumas vezes faz seus personagens citarem frases de filmes, passa por isso também? Se sim, quais seriam suas principais influências nesse sentido e a relação do cinema com sua escrita?

O cinema não é uma influência em minha escrita. É, quando muito, uma referência, algo a que aludo para explicitar determinadas circunstâncias ou certos aspectos de um ou outro personagem. Agora, no que diz respeito à forma como escrevo, o cinema, enquanto linguagem, não tem nada a ver com ela. Há quem aprecie lançar mão do lugar-comum segundo o qual uma narrativa seca e ágil (como a de meus primeiros livros, sobretudo) é “cinematográfica”, o que é ridículo. Quem diz isso externa uma incompreensão fundamental do que sejam tanto o cinema quanto a literatura, como se a gramática de uma coisa correspondesse diretamente à da outra. Uma frase não equivale a um plano. São ordenações distintas, que exigem tempos distintos e se comunicam com o leitor/espectador de maneiras diversas, exigindo respostas diferentes. Assim, quando cito cineastas cujos filmes aprecio (Ford, Hawks, Kazan, Kubrick, Haneke, Fellini, Scorsese, Bressane, Gray, Anderson), eu me refiro a uma identificação com suas visões de mundo ou, melhor dizendo, com as diferentes formas como eles expressam essas visões de mundo, quaisquer que sejam, e não a uma qualquer proximidade estética relativa ao meu trabalho.

André, obrigado pela conversa, e pra encerrar, temos aqui nosso “Momento Jabá”: a hora de divulgar sites, blogs, eventos, livros ou o que você quiser. Então, aproveite, e obrigado mais uma vez!

Blog: vicentemiguel.wordpress.com. Twitter: @andredeleones. E meu livro mais recente, lançado pela Rocco há poucos meses, é o romance “Terra de casas vazias”. Está à venda nos formatos impresso e eletrônico. Obrigado, Rafael. Foi ótimo!

 

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