A história por trás da história: Violentada

“Violentada” é um conto feito antes de eu pensar em escrever um livro de fato. Ele mostra um casal de noivos no primeiro momento a sós, depois da moça ter sofrido um estupro. O conto começa com os dois saindo da delegacia e os acompanha enquanto entram no carro, tentam conversar, e chegam até a casa dela.

A tensão se dá por conta do quanto a mulher se sente ferida – física e psicologicamente – o quanto ela espera o apoio do parceiro, e a dificuldade dele em lidar com o fato, baseado em um ciúme machista e misógino.

A ideia não foi exatamente essa desde o princípio. A primeira versão que escrevi do conto tratava em especial de um outro conflito, de ordem religiosa. Pra quem nunca foi muito de frequentar a igreja, há algumas passagens na bíblia que dizem que a partir do momento em que um homem e uma mulher se tornam uma só carne, eles estão unidos perante Deus. Esses versículos são os que justificam – para a liderança religiosa e seus seguidores, ao menos – a restrição do sexo ao casamento. Na verdade, dentro desse pensamento, sexo é casamento. Portanto, quando você faz sexo com uma pessoa, está se casando com ela. Outros casamentos – sexuais ou matrimoniais – seriam adultério ou poligamia.

O conto original, então, colocava em choque o fato de os dois noivos, crentes, terem aguardado para ter relações sexuais somente depois do casamento, e a moça sofrer um estupro – que é uma tenebrosa forma de sexo, mas ainda se configura como sexo. O que aconteceria é que o rapaz não saberia lidar com o fato de sua noiva ter “se tornado uma só carne” com o estuprador.

Embora o problema orbitasse em torno da interpretação do texto religioso, eu achei que o conto poderia parecer simplesmente um ataque à igreja. Isso não deixa de ser divertido, mas achei que a questão do estupro merecia mais atenção. Eu quis justamente que ele fosse o centro da dramaticidade, e achei que qualquer outra razão para o conflito dentro do casal – que não uma cegueira machista – acabaria por desviar demais o foco da violência sexual do estuprador e a violência psicológica do noivo como questões centrais no texto.

Às vezes é bom excluir coisas da história. O famoso “menos é mais”. Quando se quer que um elemento tenha força na narrativa, na dramaticidade, um bom recurso é tirar tudo que possa ficar na sua frente. Dar espaço para esse elemento se expandir e tomar o primeiro plano.

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