Com a palavra: Ronaldo Cagiano!

A seção “Com a palavra” traz uma conversa com Ronaldo Cagiano, prolífico escritor, organizador de antologias e colaborador de jornais e periódicos. Em seu currículo como autor estão, além de muitas outras, obras como Dezembro indigesto (contos, 2002  – Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, 2007), O sol nas feridas (poesia, Dobra Ideias, 2011) e Moenda de silêncios – novela juvenil, em parceria com Whinser Fraga (Dobra Ideias, 2012). Vamos lá.

Ronaldo, você é de Cataguases, uma cidade que poderia ser apenas mais um pequeno município do interior de Minas Gerais, mas que do ponto de vista cultural tem uma relevância especial. Queria que você falasse um pouco sobre as particularidades desse local, e como elas influenciam sua obra.

 Ninguém consegue explicar o mito Cataguases, cidade de tradições vanguardistas desde o início do século XX, quando surgiu o cinema pioneiro de Humberto Mauro e a corrente modernista da revista Verde – um braço da Semana de 22 em Minas. O próprio Ribeiro Couto chegou a expressar seu espanto, ao dizer no final dos anos 20: “Todo o Brasil está perplexo, existe Cataguases”. Eu nasci e cresci sob o influxo dessa mitologia, desse sentimento em torno da vocação vanguardista de Cataguases, que teve repercussões também em outras artes, como a arquitetura e a música (Cataguases é terra de Maria Alcina e Lúcio Alves). A cidade, para mim, sempre foi um laboratório de experiências estéticas, ainda que na minha adolescência eu tenha atravessado um período em que vivíamos mais de nostalgia e de lembranças desse passado, por conta de um certo ostracismo. De certa forma, essa aura teve influência em minha vida e despertou-me interesse particular pelas letras, associado a uma propensão natural para a leitura e a escrita, algo que se manifestou desde a minha tenra infância. Vivi em Cataguases até os 18 anos, quando me mudei para Brasília, onde vivi por 28 anos. Há seis anos moro em São Paulo, mas ainda que na Capital da República eu tenha experimentado uma grande metamorfose em minha formação (diria, como Gilberto Gil a respeito da Bahia, que Brasília me deu régua e compasso), no fundo são as minhas raízes cataguasenses e mineiras e todo o apelo da ancestralidade geográfica e psicológica que sustentam minha produção, seja na poesia ou na prosa. Ainda que Brasília esteja presente no meu cenário criativo, é Cataguases que insiste e resiste, com sua precedência em minha produção, o apelo da memória, da infância, do tempo, das experiências existenciais mais remotas.

Você transita por vários gêneros, como a poesia, os contos, o romance e os infanto-juvenis. Embora possa parecer para o leigo que tudo isso se trata de algo parecido – calcado no ato da escrita – são atividades bastante diferentes. Como você lida com essas plataformas diferentes? Você sente que elas são muito distintas ou nem tanto assim? E há alguma dessas vertentes em que você se sinta mais confortável ou que te sirva até mesmo como guia para escrever nas outras?

Minha relação com a literatura vem desde a infância. Sempre fui um leitor compulsivo: ao mesmo tempo em que engatinhava na escritura, cometendo pequenos poemas e contos, ainda no primário percebi uma certa paixão pelas redações. Então, desde cedo, eu lia todos os gêneros e foi por meio da leitura de jornais diários (O Globo, O Dia, Jornal do Brasil e Última Hora) que meu pai comprava para os fregueses de sua barbearia que a literatura descortinou-se para mim, pois nos cadernos de cultura e de literatura tomei contato com autores de diversas vertentes e gerações. Quanto à minha produção literária, comecei escrevendo poemas em jornais estudantis e na adolescência passei a assinar uma coluna de crítica no hebdomadário municipal, o jornal “Cataguases”, que hoje tem mais de 100 anos de circulação ininterrupta. Sempre me considerei essencialmente poeta, porém eu escrevia pequenos textos em ficção que ainda não tinha publicado antes do meu quinto livro de poesia. Alguns amigos e leitores, e até mesmo alguns críticos, perceberam que minha construção poética abrigava intenções prosaicas, porque eram arquiteturas mais caudalosas, textos menos contidos. Passei a dar atenção a essa característica e nesse trajeto fui dotando minha poesia de maior concentração textual e explorando a ficção com mais intensidade, pois até então eu a percorria apenas como exercício, sem intenção editorial. Foi quando mostrei a um poeta de Brasília, já falecido, Joanyr de Oliveira, alguns contos e ele vislumbrou qualidades suficientes para publicação, e sugeriu-me que o inscrevesse num concurso aberto em 2000 pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal, que premiaria livros inéditos de poesia, conto, romance e infanto-juvenil. Então, reuni essas histórias e enfeixei-as num volume a que dei o nome de “Dezembro indigesto”. Entre mais de 60 obras concorrentes, o livro foi contemplado com o primeiro lugar, tendo como prêmio a publicação pelo Governo do DF. Ali foi minha estreia ficcional, esse salto que faltava para que eu me dedicasse também à ficção, sem contudo abandonar a criação poética. Portanto, a escrita constituiu-se para mim num terreno híbrido, que proporciona transitar, estética e criticamente, por várias vertentes, do verso ao conto, da crônica ao juvenil, campos estruturalmente distintos, mas que guardam entre si a mesma raiz motivadora, o mesmo leitmotiv, que é a necessidade existencial, psicológica, social e metafísica de comunicar um mundo, vencer a poeira do tempo, despistar a morte e exercer o salto sobre os escombros e os vazios que nos circundam. Como disse, minha origem é a poesia, por isso tenho certa propensão a buscar uma linguagem que incorpore um viés poético, porque não me interessa apenas contar (bem) uma história, mas dar-lhe contornos plásticos que estilizem o seu discurso narrativo. Assimilei completamente duas verdades, de dois grandes gurus literários: Baudelaire: “Seja poeta mesmo em prosa” e Kafka: “Tudo que não é literatura me aborrece.” Enfim, eu me sinto confortável em qualquer dos gêneros, desde que um ou outro me confiram as armas necessárias para expressar meu sentimento do mundo.

Além de transitar por gêneros diferentes, você também teve a experiência de escrever a quatro mãos: a novela “Moenda de silêncios”, em parceria com Whisner Fraga, e o infanto-juvenil “Espelho, espelho meu”, com Joilson Portocalvo. Como foi escrever dessa maneira? Como vocês dividem o trabalho, e o quanto cada um interefere na escrita do outro? Imagino que seja preciso bastante flexibilidade nesses casos, já que em geral a gente quer ter um controle absoluto da história, e de repente você pode ter alguém com ideias bem diferentes em alguns momentos.

 

A construção desses dois livros aconteceu por acaso, mais como um desafio ao qual nos lançamos (como seria escrever a quatro mãos) do que como uma intenção editorial. Os livros surgiram praticamente na mesma época, entre 1998 e 2000, sendo que primeiro saiu “Espelho, espelho meu” e doze anos depois o “Moenda de silêncios”, que tinha o título inicial de “O fio da meada”. Joilson, meu amigo de longa data, realizava algumas oficinas literárias e numa delas, ministrada no presídio da Papuda, em Brasília, convidou-me para um encontro com os detentos. Foi uma experiência fascinante o contato com aquele universo, em que tanta gente privada de um dos valores primordiais do homem – a liberdade – encontrou na poesia, na crônica, na ficção e em outras linguagens (como a música, o teatro e a pintura) asas para ascenderem à liberdade. Após esse contato, ele propôs-me que escrevêssemos um livro a quatro mãos e surgiu a ideia de se construir uma história juvenil, ainda que eu não me sentisse muito à vontade para escrever para esse público tão especial, que requer outra embocadura. Então, combinamos que seria uma história sobre adolescentes, mas com uma linguagem mais madura, que abordasse questões encontradiças em qualquer família de condição financeira mediana. Então, ele redigiu o primeiro capítulo e de onde ele havia parado eu continuei a escrever. E assim por diante: onde um colocava o ponto final, o outro dava sequência, como num desatar de um novelo. Concluída a novela, chegou o momento de juntar os retalhos, fazer uma leitura de todo o conjunto e começar as interferências. Cada um leu o todo e na medida em que as leituras iam ocorrendo, havia um processo crítico e autocrítico, em que nos permitíamos correções, acréscimos, mutilações, limpeza, enxugamento, alteração de títulos, mudança de diálogos etc. Foi um processo simbiótico, em que houve uma sinergia muito produtiva, em que estilos e linguagens, vozes e dicções, pegadas e rastros bem distintos se interpenetraram, de maneira que o conteúdo final revelou-se um texto híbrido, flexibilizado por nossas idiossincrasias, chegando um momento em que já não se podia perceber qual era a minha escrita, qual a de Joilson. O livro foi amalgamado por ilustrações feitas por diversos presidiários, que leram a novela e cada qual, a seu modo, emprestou seus traços com um olhar muito peculiar, o que enriqueceu nosso trabalho. O “Moenda de silêncios” também teve a mesma gênese: eu, em Brasília, e Whisner, em Minas e depois vivendo no interior de SP, dividimos o mesmo prazer estético da escrita compartilhada, via computador, e que se traduziu numa história sobre amizade e desafios, cujo cenário foi a cidade de São Paulo. Nessa obra, transitamos por outro ambiente, refazendo a trajetória de dois jovens que chegaram do interior de Minas – um de Ituiutaba, outro de Cataguases – e se encontraram por acaso num pensionato de uma grande metrópole, onde floresce uma amizade, por meio da qual compartilham seus sonhos, suas esperanças, ao mesmo tempo em que experimentam o desafio de um novo tempo e uma nova vida, na luta cotidiana na imensa roldana da vida agitada de uma capital cosmopolita, com todos os seus enfrentamentos, exigências e demandas. Não tínhamos também a intenção de publicá-lo, mas depois de tantos anos, meu parceiro de escrita convenceu-me a inscrevê-lo no ProAC, da Secretaria de Cultura do Estado de SP, e acabamos sendo contemplados com a verba de publicação. Então, o livro sofreu uma nova leitura após tanto tempo, além de outras metamorfoses, principalmente para adequá-lo à realidade contemporânea. É um livro que tem como pano de fundo a história recente do país, possibilitando aos dois protagonistas, Fabiano e Murillo, discutirem também questões tão presentes na vida contemporânea, tangendo temas e assuntos ligados à vida política, econômica, cultural e até literária do país, abrindo flanco para inquietações pessoais e outras angústias; para questionar o status quo da sociedade em que vivemos, tão premida pelos abismos éticos e pela falta de rumos. É um livro que investiga alguns valores tão negligenciados nos tempos vigentes. Dois livros escritos de forma compartilhada, com viagens diferentes, mas que nos deram um grande prazer em sua realização.

Ronaldo, muito obrigado pela entrevista! Pra finalizar, o nosso “Momento Jabá”: pode usar o espaço pra divulgar livros, eventos, site, enfim, o que você quiser. Um grande abraço!

 

Foi um prazer conversar com você e falar um pouco de minha gênese literária, como leitor e como escritor. Como não gosto muito de puxar a brasa para minha sardinha, gostaria de sugerir a leitura de alguns autores marcantes em minha vida: Samuel Rawet (“Contos e novelas reunidos”, org. de André Seffrin, ed. Civilização Brasileira), um autor judeu brasileiro que precisa ser redescoberto; Rosário Fusco (“O agressor”, considerado o romance inaugural do realismo fantástico no Brasil); Carlos de Oliveira (“A abelha na chuva”, romance desse português – nascido no Pará); Raul Brandão (“Humus”, belo romance simbolista português); Ciro Alegría (“Grande e estrnaho mundo”, romance de um grande autor peruano); Juan Carlos Onetti (“Vida breve”, obra fundamental do autor uruguaio) e para finalizar, outro português, Vergílio Ferreira (“Aparição” e “Alegria breve”).

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