A história por trás da história: “O vendedor”

“O vendedor” é também um dos contos que faziam parte daquele conjunto de textos que escrevi apenas por hobby, antes de pensar em me dedicar seriamente à carreira de escritor. Nesse caso, no entanto, restou na versão final – a do livro – apenas o argumento central: a história de um cara que decide vender seus próprios órgãos para ganhar dinheiro. Toda a construção do texto foi um trabalho recomeçado do zero.

Por que eu recomecei do zero? Por uma questão muito simples: a versão original era muito, muito fraca. Não se salvava quase nada. É uma ótima lição aprender a não ter o menor pudor de perceber que algo criado por nós está longe de ser bom. A poeta Wislawa Szymborska, quando perguntada sobre por que publicava tão pouco, deu uma resposta genial: porque tinha lata de lixo em casa. Lembre-se: as pessoas têm mais o que fazer; se você espera que elas dediquem o tempo delas à leitura do seu texto, é bom você fazer isso valer a pena. Não pela amizade, não pela educação; valer pelo texto mesmo. Quando eu leio algo ou vejo um filme que gosto, a minha sensação é de agradecimento ao seu autor por ter criado algo que me deu tanto prazer fruir. Acho que a gente deve buscar fornecer o mesmo aos outros. Talvez nem sempre consigamos, mas é nosso serviço tentar isso ao máximo. Você tem vontade de escrever, claro, de colocar para fora suas ideias. Mas ainda há a questão de se perguntar se é interessante para os outros lerem seu texto. Você pode até dizer que isso não importa, que o importante é você se expressar. Ok, pode-se ficar combinado assim, então: você se expressa e ninguém te lê, mas tá tudo certo. É um caminho.

Voltando à história: ela nasceu daquela velha piada de “vender um rim pra conseguir dinheiro”. Talvez por ter nascido de uma piada, o conto sempre manteve um certo aspecto cômico. Mas a versão original era boba, não saía muito disso. O que eu precisava para transformá-lo em um conto digno de publicação era desdobrar a questão em aspectos mais interessantes. Fortalecer suas características simbólicas.

Decidi, então, que paralelamente à sucessão de transplantes e vendas, o protagonista cada vez mais se envolveria com atitudes ilícitas, transformando o arco narrativo em uma espécie de genealogia da corrupção, ou em uma degeneração ao mesmo tempo física e moral do protagonista. Assim, ele começaria vendendo um rim seu – um “direito” que ele tem, mas a oportunidade de ganhar mais dinheiro o faria sempre “dar o próximo passo”, levando-o cada vez mais em direção à corrupção total.

Eu ainda queria preservar o humor, portanto o protagonista não poderia ser um cara essencialmente malvado, inescrupuloso. Muito pelo contrário: decidi fazer dele um sujeito que provocasse alguma empatia. Um daqueles amigos que você sabe que está fazendo algo errado, mas por ser seu amigo, você acaba sendo conivente (e até fascinando-se um pouco com a audácia dele). Também quis que ele fosse um daqueles tipos que não apenas trabalham como vendedores, mas que são vendedores em tempo integral. Aqueles que têm uma lábia poderosa, e estão o tempo todo tentando manipular os outros a comprarem suas ideias, sua imagem ou seu produto – no caso, ele mesmo.  Essas características manteriam o tom mais bem humorado do texto, além de trazer à tona um de seus temas centrais: a corrupção não como uma falha de caráter, mas como um ponto alcançado depois de se desviar pouco a pouco do caminho de conduta socialmente adequado.

Era preciso que ficasse clara essa “escada” de degeneração. Para isso, decidi que cada transplante serviria como um degrau. Pesquisei na internet quais são os órgãos possíveis de serem transplantados entre pessoas vivas (atitude que inseri no personagem também, durante a história – ele tinha que ter esse conhecimento, não?), e parti para a escrita. Também pensei em quais seriam os “degraus” da corrupção: primeiro vender os próprios órgãos, depois receber doações para então vendê-los, e finalmente envolver-se com médicos corruptos e quadrilhas de tráfico de órgãos. Tudo, claro, sempre com alguma justificativa perfeitamente cabível da parte do protagonista.

Eu gosto de quando os elementos da história têm um poder simbólico maior do que si mesmos. Esse conto pode receber diversas leituras metafóricas e isso é bom. Pode ser uma crítica ao jeitinho brasileiro, ao capitalismo, ao sistema de saúde e mesmo às ambições que nos fazem “nos vender”. O ápice do conto, claro, é quando ele abre mão de seu próprio coração. Apesar de ser um órgão como qualquer outro, é inegável seu poder simbólico na nossa cultura, de representar quem você é de verdade.

A única coisa que eu realmente gostaria de ter feito melhor, e não consegui, foi o título. Faltou alguma coisa ali.

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