Com a palavra: Julián Fuks!

Foto: Fernanda Sucupira

Foto: Fernanda Sucupira

A seção “Com a palavra” tem a honra de receber dessa vez Julián Fuks, autor de “Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu” (7Letras, 2004), “Histórias de literatura e cegueira” (Record, 2007) e “Procura do romance” (Record, 2011). Este último foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Portugal-Telecom e Jabuti. Além disso, Fuks foi selecionado para a edição brasileira da Granta e para a 2a edição da Revista Machado. Foi uma entrevista das que mais gostei de fazer; um aprendizado. Vamos lá.

Julián, em seus livros você tem usado como material dentro da narrativa, de maneiras distintas, a própria literatura, o fazer literário e as relações entre realidade (ou níveis de realidade) e a ficção. Queria que você falasse um pouco sobre isso, e se você também vê essa característica como uma marca sua.

Há tempos a literatura tem se visto forçada a questionar os elementos que a constituem, a ponderar seu alcance, a vislumbrar seus limites. Escrevemos numa época de ilusões partidas, época em que poucas quimeras sobrevivem, e em que a manutenção de certas ingenuidades culturais pode às vezes beirar o cinismo. Não quero me render a esse cinismo, contar histórias de forma quase acrítica para conquistar leitores que se entregam e se dissipam nas narrativas. Fazer da literatura o cerne da própria escrita tem sido, para muitos autores, um modo profícuo de se preservar dessa prática empobrecedora, dessa construção irrefletida dos mais diversos enredos. Mas sei que a literatura gira em falso quando se ensimesma tanto, quando se esquece do mundo e só fala sobre si. A busca seria por um equilíbrio talvez impossível: uma literatura que se autocritica para melhor lidar com tudo aquilo que a circunda, e para melhor criticá-lo também.

O seu livro “Procura do romance”, além de demonstrar o processo de escrita nos aspectos técnicos e criativos, também põe em pauta essa ausência de posicionamento político, social ou cultural, presente na vida do personagem-autor, Sebastián, que é algo bastante discutido nessa nossa “geração”. Você acha que falta isso em nossa época? Você acha que talvez estejamos um pouco confortáveis (ou conformados) demais?

Sim, sinto que por vezes nos conformamos com o aparente vazio ideológico que marca o nosso tempo, a nossa geração ao menos. Distraidamente acreditamos no discurso falso e conveniente do fim da história, da vitória do capitalismo, do triunfo do consumo, sem atentar para as muitas maneiras em que, dia a dia, o mundo se confirma ou se desmente diante dos nossos olhos. Se já não cabe ao escritor pregar uma revolução, se a literatura voluntarista já se revelou limitada e até nociva, isso não significa que ela não comporte ainda algum engajamento, alguma política. Creio que, em bons livros, tanto a forma como o conteúdo devem refletir algo dessa instabilidade do mundo, ou ao menos contrariar a morosidade do discurso estabelecido.

Uma coisa que acho muito curiosa no seu texto é que está bastante presente nele essa tensão de se buscar inovações na obra literária, mas na linguagem – provavelmente o terreno onde outros escritores parecem mais perseguir novidades – você parecer ser menos preocupado com experimentações. Não há uso de recursos visuais com as palavras, o ritmo é mais lento do que parece pregar a contemporaneidade em geral, e você lança mão de um vocabulário mais rebuscado. Esse cruzamento é também uma forma de se buscar algo distinto?

Pois é, é uma questão capciosa, de difícil resposta. Em primeiro lugar porque literatura e liberdade nem sempre caminham juntas, ninguém escreve como bem quer, como bem deseja, todo escritor acaba se vendo à mercê de suas possibilidades, de sua própria linguagem. Mas penso, de qualquer modo, que tem imperado na literatura uma visão reduzida do que pode ser a experimentação, a novidade. Você cita recursos específicos, recursos visuais, ritmo acelerado, que já foram radicais e inovadores, mas que aos poucos podem ter se convertido em dogmas. A frase curta, a ideia ágil, o palavreado fácil foram de fato uma ruptura na história da literatura, mas uma ruptura que já perdeu seu impacto, seu poder de surpresa e choque. Prefiro pensar que adoto um estilo diferente não por conservadorismo, mas para buscar a expressividade que pode haver na minúcia, na riqueza lexical, na escansão das imagens. Mas posso estar apenas me defendendo indevidamente, e o leitor haverá de me perdoar.

No “Procura do romance”, ao demonstrar o processo de escrita, você aborda muito a questão da escolha do material: o que deve ir para a narrativa ou não. E dentro desse contexto, há uma frequência bastante grande de cortes, de redução; ou seja, o aperfeiçoamento da história viria mais da escolha precisa do que se subtrair do que do que se acrescentar. Acredito que saber fazer essas escolhas seja um grande diferencial no amadurecimento do autor. Queria que você falasse um pouco mais sobre isso.

O caso é que o mundo é vasto demais, múltiplo demais, incoerente demais, e tudo cabe na realidade inclusive o implausível, o inverossímil, o irreal. Caso se deseje criar um livro plausível, verossímil, real, será necessário então editar, deixar de fora esse excesso do mundo e partir em busca de algo que lhe seja essencial. É pela negação dos acontecimentos maiores que se pode alcançar o menor, o ínfimo, o detalhe, o que há de mais sutil e delicado na realidade, e isso requer um escrutínio rigoroso da parte do escritor. Devo dizer, no entanto, que desde o início o “Procura do romance” tinha também o propósito de indagar os limites de toda essa negatividade: porque o escritor que muito corta, que propõe essa seleção tão estrita do material, acaba no fim por calar, acaba por não escrever nada. Sempre é preciso acreditar no algo que resta, na expressividade das palavras, e de todas as palavras possíveis, em excesso ou em falta. É falsa a ideia do corte absoluto, do rigor implacável. Até Graciliano por vezes se vale de alguns adjetivos esparsos.

Julián, agradeço muito pela conversa, foi legal demais! Para encerrar, pode fazer uso do nosso “Momento Jabá”, divulgando seu trabalho, algum site, evento, etc…. E agradeço muito novamente, foi um papo muito engrandecedor.

Opa, rapaz, a satisfação foi minha. Sempre bom descobrir a existência destes canais para o diálogo franco e irrestrito sobre este nosso duro ofício. Como não tenho muito a divulgar pelo momento, nada que esteja quase por sair, vou aproveitar o Momento Jabá para fazer uma exortação mais coletiva. Um apelo para que os leitores atentem para a literatura ainda possível, para a vitalidade que ainda se pode encontrar na narrativa – também entre os contemporâneos, também entre os brasileiros, também entre os jovens. Sem perder de vista as falácias e ingenuidades da representação, ainda dá para acreditar num vínculo indissolúvel entre a literatura e o mundo, entre a literatura e seu tempo. Tenho a convicção de que a literatura ainda preserva seu poder de afirmação sobre o presente. Basta que mantenhamos os ouvidos atentos.

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