A história por trás da história: “Os olhos castanhos de Sinatra”

Antes de pensar em me candidatar seriamente à carreira de escritor, eu comecei a escrever alguns contos e crônicas como um hobby. Na verdade, desde pequeno, eu sempre gostei de criar histórias e personagens, então esses escritos poderiam ser considerados, talvez, apenas mais uma das atividades criativas às quais me dediquei durante praticamente toda minha vida.

Escrevi várias histórias sem compromisso, até decidir que havia chegado o momento de levá-las mais a sério. Como já estava começando a gostar de algumas, comecei a ler alguns textos “teóricos” sobre a escrita. O que mais me chamou a atenção foi o “Do conto breve e seus arredores”, do Júlio Cortázar (se você escreve, recomendo-o fortemente). Uma das ideias principais desse texto é que o conto deve ser capaz de se expandir (do ponto de vista do significado, dramaticidade, etc.) para além de suas próprias fronteiras.

O que acontecia é que meus textos tinham… digamos, fronteiras bem estreitas. Eu senti que, antes de querer expandi-los para fora deles mesmos, precisava expandi-los em seu interior. “Os olhos castanhos de Sinatra” foi o primeiro conto com o qual decidi fazer isso.

A história original continua dentro do conto final, mas tornou-se apenas um pedaço dela. O conto retratava somente o momento em que o protagonista – um adolescente – trabalhava em uma loja de CDs, na qual um senhor idoso entra e pede para ouvir um CD do Frank Sinatra. A princípio contrariado, o garoto passa a gostar da canção, quando uma garota entra na loja e fica comovida com a música tocando. Ela vai embora sem deixar vestígios, e o rapaz passa os dias seguintes tocando a música repetidamente, lembrando da garota e esperando sua volta. Fim da história. Tratava-se apenas de uma passagem simples sobre como o gosto (musical, no caso) pode ser influenciado por experiências afetivas. Também havia a questão da projeção entre a música e a garota dos olhos castanhos (daí o título).

Bom, era preciso fazer esse bolo crescer, e havia potencial ali, pensei. Eu poderia mostrar esse garoto depois de adulto, transformado pelo encontro, e assim acrescentar à história um novo tema – que veio a se tornar o principal: como algumas experiências sutis podem transformar nossa vida inteira. Eu passei por algo similar, ao conhecer minha esposa por acaso e ter minha vida completamente transformada por ela, então sabia que poderia falar sobre esse assunto com propriedade.

Como a experiência de passar a gostar de uma música do Sinatra por conta de uma garota desconhecida poderia transformar a vida do meu protagonista? Eis a questão. Decidi que ele teria alguma carreira com a música. A de crítico musical se mostrou a mais profícua. Assim, após o encontro, ele passa a gostar de Sinatra, a pesquisa-lo e a desenvolver um gosto musical diferenciado. Se não fosse pela garota, ele poderia ter tido uma vida completamente diferente: nunca ter embarcado por esse caminho.

Segunda questão: se ele entrasse por um caminho desagradável, ele talvez “culpasse” a garota, ou criasse uma relação de ódio com ela. Poderia até ser divertido, mas eu não queria isso; queria preservar o encanto dela. Então, era preciso que a vida dele tivesse um bom resultado: ele seria um crítico bastante destacado. Como? Tendo dado um  salto em sua carreira justamente ao escrever um artigo relatando a experiência com a garota e como ela o fez gostar do cantor. Isso me forneceu uma camada narrativa extra, um aspecto metalinguístico, e um valor a mais à garota (que estrelaria também o artigo que mudou a vida dele novamente). Mas por que ele escreveria um artigo sobre isso? A resposta: em homenagem ao aniversário da morte de Sinatra. Então, para melhorar as “costuras”, o encontro dos dois teria se dado no dia em que Sinatra morreu.

Como foi possível ver, grande parte do processo de construção da história se dá através de perguntas que o autor se faz. Perguntas que podem leva-lo a alcançar maiores distâncias dentro de sua narrativa. No caso desse conto, acabei acrescentando diferentes níveis de realidade e metalinguagem (a experiência em si, a mesma retratada no artigo de jornal e na autobiografia do protagonista), diferentes contextos temporais (adolescência e idade adulta), e o encontro entre realidade e ficção (com a ilustre presença do Sinatra).

Aqui, é claro, só demonstrei as perguntas e respostas em que “acertei” (as aspas são porque não existe “certo” ou “errado” na criação). Mas o processo é feito também de várias perguntas e respostas que não te levam a lugar algum. Ou de saber também que, dependendo das perguntas e respostas que você se dá, toda a história poderia ter sido diferente. Assim como a vida. E é exatamente essa a pergunta central de “Os olhos castanhos de Sinatra”.

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