Com a palavra: Vanessa Maranha!

A seção “Com a palavra” traz dessa vez uma conversa com a escritora Vanessa Maranha, que lançou recentemente “Oitocentos e sete dias” (Redondezas, 2012). Ela também foi vencedora de diversos concursos de contos e fez parte da antologia “+30 mulheres que estão fazendo a literatura brasileira” (Record, 2005), organizada por Luiz Ruffato. A conversa rendeu até uma descoberta “cabalística”… vamos lá!

Vanessa, pra começar, gostaria que você falasse um pouco da sua trajetória e de como nasceu “Oitocentos e sete dias”, seu último livro, que contém alguns textos seus já consagrados em concursos literários.

“Oitocentos e Sete Dias” é o meu terceiro livro. O primeiro, de contos, intitulado “Coisas da Vida”, foi lançado pela Editora Ateniense em 1995 e o segundo, “Cadernos Vermelhos”, fragmentos, em 2003, com patrocínio do jornal Comércio da Franca, onde trabalhei. Ambos em edições pequenas, que já se esgotaram. Digo que foram livros experimentais, em que eu delineava um estilo que de cinco anos para cá se firmou com maior clareza, e com “Oitocentos e Sete Dias” eu quis mostrar isso. Enviesando esses períodos ocorreram participações em antologias e premiações literárias. O livro mais recente nasceu de uma absoluta necessidade de publicar, de me desembaraçar desses textos para eu não ficar eternamente envolvida com eles. Ainda tenho muitos contos para publicar, mas nesse volume quis também fazer uma suma breve do que mais me interessou na última década.

Você tocou num assunto interessante, que é a questão “escrita vs. publicação”. Muita gente diz que um escritor deve se preocupar mais com escrever do que com publicar, mas eu acredito que a publicação também faz parte da realização do autor, da evolução de seu trabalho. Na minha opinião, quando o livro sai, há uma transformação pessoal também no autor, que acaba se revelando em sua escrita. Como você vê essa questão com relação ao seu novo livro, e a seus projetos futuros?

A literatura não se completa sem o leitor. É o leitor que dá sentido a isso que chamamos literatura. O autor pode até não fazer concessões, do ponto de vista literário, mas a publicação é fundamental. Há o momento de se preocupar com a escrita e o momento de se preocupar com a publicação, na minha visão. É sempre surpreendente e enriquecedora a amplitude de leituras possíveis a uma obra.

Uma coisa que eu percebi no seu livro, “Oitocentos e sete dias”, é que muitos dos contos parecem ser construídos partindo-se da biografia da personagem, mais do que de uma situação específica, como é comum no gênero. Alguns dos textos, aliás, levam como título o nome do personagem, ou uma referência a ele, como “Adelícia”, “Klaus” ou “O cordovês armênio”. Queria que você falasse um pouco sobre esse seu processo criativo.

Boa percepção, Rafael. E é fato. Tenho formação em Psicologia, ênfase em Psicanálise, e pensar a transgeracionalidade dos discursos e o humano como produto de sua história acaba sendo quase inevitável na minha escrita, embora eu conscientemente não deseje fazer uma literatura claramente psicológica. Fascina-me, sobretudo, a linguagem, a sintaxe e os efeitos que daí se pode extrair no casamento forma e conteúdo. Em relação ao processo criativo, é sempre um mistério, mas posso dizer que a construção de um personagem costuma vir de um incômodo ou de uma admiração, a perspectiva de sondar interiormente alguém e criar daí uma história me agrada.

Você falou que a linguagem é um dos seus focos na criação literária, e realmente isso é notável em seus contos. Eu gostaria que você falasse um pouco sobre isso e sobre suas prinicpais influências.

O meu tom segue pela linguagem, numa tentativa (ou presunção) às vezes vã, de criar estados no leitor, seja pela quebra proposital de períodos, seja pela elipse ou pela subversão sintática. Mas tenho dosado isso, não desejo mais um livro sobre nada, como quis Flaubert, somente sustentado pelo estilo. Flaubert e, no ensejo de seu mote, o nosso Manoel de Barros conseguiram isso porque são quem são. O que persigo é contar uma boa história que ressoe no leitor, e a linguagem é bom instrumento para fazer essa marca. Quando comecei a escrever eu tentava imitar Clarice Lispector (a gente começa sempre imitando alguém!). Minhas influências vão de Guimarães Rosa aos latinoamericanos, passando pelos surrealistas. Hoje nem sei mais identificar claramente em que ponto estão. Um amigo escritor, estudioso de Teoria Literária, chamado Luiz Cruz, apontou muito generosamente o livro “Oitocentos e Sete Dias” como uma espécie de reinvenção do Naturalismo. Eu mesma não consigo fazer essas distinções, separar-me da minha própria escritura para fazer uma leitura teórica a respeito.

Eu costumo ter uma curiosidade especial pelos títulos dos livros, e o seu não foi exceção. Não sei se foi uma interpretação correta a minha, mas oitocentos e sete dias são o equivalente a 2 anos, 2 meses, 2 semanas e 2 dias. É isso mesmo? E qual a razão de intitular o livro assim?

É isso mesmo? Essa coincidência de números dois não foi calculada! Que coisa… cabalística!!! rs.. O título veio aleatoriamente. Ou será um número inconsciente??? rs.. Eu queria escolher um título que desse ideia de tempo, no sentido de que esses textos levaram tempo de gestação e maturação e na ideia de cronologia que percorre muitos dos enredos. Acho bonito e sonoro, dizer oitocentos e sete e não 807. Que legal você ter descoberto isso!

Hahahaha… olha só! E eu tinha certeza de que havia sido calculado. Bom, depois dessa, nem digo mais nada: deixo o espaço final para você dar seu recado, usar o nosso já tradicional “Momento Jabá” – divulgando seu trabalho, site, enfim… – e agradeço muito pela conversa.

Você enxergou algo que nem autora viu. Bem, “Oitocentos e Sete Dias” é um livro de contos, alguns premiados, que se divide em duas partes. A primeira, com textos novelescos e efabulatórios, trata mais ostensivamente do nosso primitivismo. A segunda parte, com textos mais rápidos, retrata seres mais sofisticados, igualmente enredados, seu aspecto primitivo mais camuflado. É essencialmente um livro sobre amor e desamor, uma suma de experimentação estilística da última década. Esse livro está disponível na Livraria Cultura.

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