A história por trás da história: “Réveillon”.

“Réveillon” é o conto que abre o livro, e lhe serve de título. Na verdade, mesmo antes de escrever o conto em si, eu já tinha em mente tanto esse título quanto sua variação que batizaria o livro: “Réveillon e outros dias”. Desde a ideia original até a escrita do conto de fato, demorou quase três anos. Tudo começou em uma festa de ano-novo, na qual eu vi um senhor de muita idade sentado sozinho em um canto, meio desanimado. Ao lado dele estava o DJ, com seu sistema de som potente, suas músicas eletrônicas e seu jogo de luzes. Ainda perto deles, duas meninas – de uns 5, 6 anos – brincavam e dançavam. Eu fiquei olhando essa cena e pensando como é que um senhor de tanta idade devia perceber aquela música eletrônica, algo provavelmente um pouco estranho para ele. Tentar compreender a percepção do outro sobre qualquer coisa – principalmente do ponto de vista sensorial – é algo impossível, mas sempre me fascinou. Talvez por isso esteja tão presente nesse conto (e em outros também) o jogo entre como o personagem se vê, e como os outros o enxergam.

Enfim, vendo essa cena, tive vontade de escrever um conto sobre um senhor idoso em uma festa de Réveillon, falando sobre a passagem do tempo. A questão é que isso é apenas um conceito, e não dá pra escrever uma história só com um conceito. É preciso desenvolvê-lo através da narrativa, criar cenas e personagens. A única ideia que eu tinha para isso acabou ficando de fora: o velho, na minha história, perguntaria para a menina sobre aquela música, e receberia como resposta que ela já era muito antiga: já tinha uns dois anos.

Fui anotando outras ideias de como montar a história e acredite: eu juntei muitas delas. O meu personagem ora tinha dois filhos; ora era casado, ora era viúvo; ora se matava no final, ora dançava; etc. Foi quando comecei a perceber que queria escrever uma história que, mais do que falar sobre a passagem do tempo, falasse sobre a mãe das passagens do tempo: a vida e a morte. O que me complicou ainda mais.

Depois de anos pensando na história, no conceito, e criando cenas e personagens, eu já tinha criado tanta expectativa sobre a história, que a pressão auto-imposta sobre mim começou a me fazer ter medo de escrever o conto (isso é mais comum do que você pode pensar). Tentei começa-lo várias vezes, mas sempre que o via tomar um rumo que não me agradava 100%, parava rapidamente. Isso porque eu sabia que, depois de escrito inteiro uma vez, mesmo que fosse uma versão a ser revisada, a história estaria posta, e seria muito mais difícil pensar em outra diferente depois de já ter escrito uma.

Só escrevi o conto de fato quando não tinha mais escapatória. O concurso do SESC já estava se aproximando do final das inscrições e essa era a única história que eu ainda não tinha escrito nada. Sentei em frente ao computador várias vezes para tentar fazê-la. Foi quando tive a ideia do filho surdo e mudo e ela me salvou. Comecei o conto com a contagem regressiva da festa sendo transmitida por sinais entre pai e filho. Achei uma boa cena, e sabia que – especialmente por se tratar de um concurso – o livro tinha que ter um belo começo. A partir daí, acrescentei algumas cenas que já tinha bolado, algumas novas que achei funcionarem bem na nova configuração, e escrevi o conto sem saber como terminaria.

Existe um momento – um pouco raro – para um escritor, em que parece que os personagens andam sozinhos. Isso não é nada esotérico; é uma questão de você tê-los bem formados em sua cabeça, e conseguir criar uma inércia com os diálogos que os conduza, criando uma espécie de efeito bola de neve. Foi assim que cheguei ao último diálogo na casa do velho, e então ao seu final inesperado, ao menos para mim. Lembro-me bem de, em determinada altura dessa conversa dos dois, pensar que o conto deveria terminar da maneira que foi concluído.

Às vezes a criação leva tempo, muito tempo. Às vezes, você precisa se forçar para dar conta do texto, e até mesmo superar seus próprios medos de não ser capaz. Um conceito não é o bastante, uma cena inspiradora não é o bastante, uma ideia não é o bastante: construir uma história é moldar cada tijolo dela, para depois empilhá-los e passar o cimento que os une. Cimento que, aliás, você é que tem que preparar também.

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