Com a palavra: Sérgio Tavares!

 

Sergio Tavares

É com muito prazer que apresento mais um entrevista aqui na seção “Com a palavra”. Dessa vez, minha conversa foi com Sérgio Tavares, escritor e jornalista, autor dos livros de contos “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2009, e “Queda da própria altura” (Confraria do vento, 2012). Foi uma entrevista muito legal de fazer e muito reveladora. Bom, sem mais delongas, com vocês: Sérgio Tavares.

 

Sérgio, uma coisa que acho bem legal nos seus dois livros é que eles parecem concebidos não apenas como uma coleção de histórias independentes, mas como uma obra única, em que os contos se inter-relacionam, do ponto de vista temático e narrativo. Como você pensou isso na concepção dos seus livros?

Confesso que, a princípio, isso não foi intencional. Em dezembro de 2008, eu e minha esposa perdemos o nosso primeiro filho, faltando poucas semanas para o nascimento. Foi um período devastador, contra o qual precisava reagir, e optei por enfrentá-lo através da literatura. Comecei a ler muito, reler os autores que admiro, e acabei me deparando com o estupendo “Carta a D.”, do filósofo André Gorz, que é a declaração de amor mais sensível e entristecida que um homem poderia oferecer a uma mulher. Esse livro me direcionou para um outro momento: o da escrita. Percebi que precisava escrever sobre o que se passou, e me entreguei de maneira avassaladora, produzindo um híbrido de retratação e depoimento de dezenas de páginas. Contudo, por mais que insistisse, não foi difícil me dar conta de que era inútil buscar compreensão na tragédia, no inexplicável. A saída, portanto, era contar isso por meio de uma voz ficcional, um personagem que passasse pela mesma circunstância, atacado pelos mesmos sentimentos incontornáveis. Desse modo, surgiu o conto “Sono”, uma declaração de amor que é um extrato daquele volume de páginas, que viria a ser o núcleo do livro “Queda da própria altura”. Escrevi mais três contos, então aconteceu o Prêmio Sesc.

Foi um período de hibernação do “Queda…”, no qual aconteceu algo interessante: alguns comentários sobre o “Cavala” traziam a impressão de que um mesmo personagem – o mendigo dos contos “Cavala” e “Fome” – transitava entre as narrativas. Eu gostei da observação e resolvi estabelecer essa condição no original inacabado, recorrendo a elementos e passagens que inter-relacionassem os contos. São pontos de comunicação que vão de objetos dos mais triviais até sentimentos devastadores e sensações de desaparecimento e de suspensão no tempo. Além disso, os três capítulos são antecipados por relatos mínimos que, ao chegar ao desfecho da antologia, o leitor perceberá que se encaixam, entretecendo toda o livro e trazendo a sensação de uma obra única, algo semelhante ao romance.

 

Você já escrevia antes, ou começou a partir desse ponto? E por que, entre os dois livros, decidiu-se por enviar o “Cavala” para o Prêmio SESC e lançá-lo primeiro?

Escrever com a proposta de constituir um livro foi, de fato, a partir desse momento. Escrever e ler para mim são práticas tão incutidas na minha vida que é, na realidade, impossível determinar um ponto de partida. Aprendi a ler muito cedo, incentivado em casa. O que lia vinha da biblioteca da minha mãe, composta por alguns clássicos e muita literatura policial. Depois dessa fase, já na pré-adolescência, influenciado pelo fanatismo por filmes de horror, tornei-me um leitor contumaz de obras do gênero. Era uma época em que escrevia histórias de terror e suspense que, felizmente, se perderam. Foi somente mais tarde, no fim do ginásio e depois na faculdade, que adquiri uma percepção literária, por assim dizer. Comecei a buscar livros e autores obrigatórios, até encontrar a minha predileção. Mas isso não significava um amadurecimento da escrita, e tampouco desobrigava o que produzia de um caráter reverencial. De fato, apesar de ter lançado dois livros, sei que ainda continuo me aprimorando. O que desenvolvi foram técnicas que me permitem erigir uma estrutura onde a ideia da trama se estabelece como narrativa. As influências continuam lá, mas agora sei transformá-las em referência, e não em simulacro.

Quanto à ordem dos livros, isso é algo completamente acidental. Para mim, “Queda…” seria o meu primeiro livro, porém estava inacabado quando li sobre o fim das inscrições para o Prêmio Sesc. Eu simplesmente arrisquei: reuni esses contos cuja carga emocional se distinguia do livro no qual trabalhava, e mandei.

 

Aproveitando que você falou dessa sua formação, queria saber um pouco das suas influências, e se elas têm se alterado ao longo do caminho? Digo isso também porque o “Cavala” e o “Queda da própria altura” têm em comum um estilo muito característico seu, mas ao mesmo tempo parecem apontar em direções diferentes, do ponto de vista narrativo e estético.

As influências de um escritor, na maioria dos casos, refletem suas preferências literárias. Quando disse que comecei a compreender que existiam autores que eu precisa conhecer, fui, paulatinamente, rastreando os movimentos literários e lendo os clássicos que ficaram destes cenários. O realismo, por exemplo, foi um dos que mais explorei. Aliás, no meu entendimento, a literatura que é feita hoje sofre uma incidência direta desse período. Outra tendência que aprecio bastante é a literatura fantástica.  Contudo, encontrei meu porto na literatura latino-americana, sobretudo no chamado realismo mágico. Sabe aquele misto de assombro e arrebatamento que só um livro é capaz de causar? Eu fiquei de imediato fascinado por autores como Cortázar, Borges, Arreola, Felisberto Hernández, Onetti, Bioy Casares, Garcia Márquez, e, em especial, Murilo Rubião. Considero “Teleco, o Coelhinho” o melhor conto da literatura brasileira. “Queda…” tem inúmeras referências às histórias do Rubião, além de singelas homenagens. “Hera” toma emprestado um personagem dele, inclusive. É lamentável que Rubião não tenha o reconhecimento devido.

Antes de decidir escrever “Queda…”, reli muito esses autores. Com o conto “Sono” terminado, a ideia era desenvolver narrativas que refletissem a morte, suas consequências e a corrupção dessas consequências. E esse é, na verdade, um dos aspectos mais latentes do realismo mágico: infiltrar o absurdo no cotidiano, nos contextos mais prosaicos. Diante dessa decisão, naturalmente a prosa não poderia ter a mesma velocidade da de “Cavala”. Portanto, as narrativas de “Queda…” são urdidas com sutileza, com uma estética carregada de lirismo.

Por outro lado, como os contos de “Cavala” nasceram durante um processo em que eu revivia um momento trágico, acredito que depositei ali toda a raiva, a amargura, a sensação incontornável de impotência. Esse talvez seja um bom argumento para explicar a violência explícita, a prosa frenética e fragmentada. Contudo, embora pareçam apontar direções diferentes, os livros compartilham o mesmo vigor. Costumo dizer que o nocaute continua lá, mas agora conduz o leitor até o último round.

 

O conto é bastante subestimado na literatura brasileira, infelizmente. Você, que publicou dois livros do gênero, provavelmente acredita, como eu, que há muitos nomes de valor na produção contista brasileira. Gostaria que você citasse alguns que destaca. E também gostaria de saber se você pretende investir em outros gêneros, como por exemplo o romance.

Temos grandes nomes já estabelecidos no gênero, como Sérgio Sant’Anna, Luiz Vilela, Dalton Trevisan, João Anzanello Carrascoza, Nuno Ramos, Marcelo Moutinho, Heloisa Seixas e Amílcar Bettega; sem contar, é claro, com o mestre Rubem Fonseca, que está num nível inalcançável. Para mim, o principal contista brasileiro, na atualidade, é o Antonio Carlos Viana. São obrigatórios, para aqueles que gostam de contos, “Aberto Está o Inferno” e “Cine Privê”. Da nova geração de contistas, posso destacar Alessandro Garcia, Tony Monti, Flavio Torres, Daniel Lopes, Victor Paes, Maurício de Almeida, Leandro Sarmatz, Rafael Mendes e, sem confete, Rafael Gallo, cuja coletânea, como escrevi e reitero, é um dos melhores debutes que li. 

Com dois livros de contos publicados, decidi que é o momento de tentar um romance. A trama se passa na transição entre os anos 80 e 90, o período assolado pela epidemia da Aids, e tem com ponto central o desmoronamento de um núcleo familiar, a partir do momento em que a mãe, após uma transfusão de sangue, contrai o vírus HIV e morre. Essa ausência provoca o desligamento entre o pai e o filho, que começa a converter a raiva provocada pela perda e pelo abandono em atos aterradores. Tudo se agrava depois que o pai leva uma colega de trabalho, uma mulher mais jovem com quem se envolve, para viver na casa, tornando-se um sujeito submisso, emasculado, incapaz de agir contra contínuas traições a olhos vistos. É um livro sobre a construção do mal, que pretendo concluir até o fim do ano e lançá-lo no segundo semestre de 2014.

Pô, agradeço os elogios! E muito obrigado também pela entrevista, foi muito legal mesmo. Pra encerrar, temos aqui o “Momento Jabá”: pode aproveitar pra divulgar livro, blog, site, evento, o que for. Mande seu recado, e muito obrigado novamente.

Eu que agradeço o convite. Foi bem legal falar sobre o livro, principalmente sobre aspectos pouco ou ainda inexplorados. Vendendo o meu peixe: “Queda da própria altura” é o meu segundo livro, uma coletânea composta por oito contos, que vai surpreender de maneira positiva quem gostou de “Cavala”, bem como quem não conhece meus escritos. Saiu pela Confraria do Vento, e está à venda nas principais livrarias físicas e onlines.

Também edito o blog www.infinitoconveniente.blogspot.com, onde posto contos. Quem quiser comentar sobre os livros ou sobre qualquer outra coisa, só me adicionar no facebook: www.facebook.com/sergio.tavares.3517, ou mandar um e-mail para sergiotavares.cavala@gmail.com. Obrigado novamente, meu caro Rafael, pela oportunidade! Que você tenha muito sucesso na sua promissora carreira de escritor. Abraços para todos!

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