Sobre “Amor”, de Michael Haneke, ou como contar uma história.

Atenção: isso não é uma resenha.

Eu já disse isso algumas vezes e não me canso de repetir: Haneke é uma das minhas maiores influências na literatura. Sim, amigos, pois não é só porque ele se dedica a outra forma de contar histórias que não possa ser um modelo para um autor de literatura como eu. Claro que nem cinema nem literatura tratam-se somente de contar histórias; ou melhor, não são unicamente sobre o que é o material, mas como ele é trabalhado dentro do suporte escolhido. Isso é válido mesmo dentro das formas de arte mais abstratas – como a pintura não-figurativa ou a música instrumental – e algo que pode servir, em muitos casos, como divisão entre as boas narrativas e as ruins. Os autores ruins, em sua maioria, nem têm real consciência desse fato e se preocupam apenas com o que forma a trama: quem mata quem, quem se sente de determinada maneira, quem é do bem e quem é do mal, em que época se passa a história, etc. O pouco que conseguem enxergar do trabalho de como contar essas histórias muitas vezes se resume a selecionar qual clichê vão escalar para “dar um colorido” à narrativa: os meteorológicos (“era uma manhã chuvosa de novembro”), os eu-preciso-dizer-isso-de-uma-forma-bonita (“os cabelos dela eram dourados como um campo de trigos banhado pelos raios solares”) e outros cacoetes do gênero.

Mas o quesito como contar uma história vai muito além: envolve saber que cada um dos elementos da sua trama – e suas inter-relações – podem servir para determinado efeito (narrativo, dramático e estético, não só pirotécnico), e então ter o cuidado de organizar esses elementos em uma narrativa extremamente eficiente. Mesmo uma boa história nonsense precisa ter coerência dentro de seu próprio código. Uma falha muito comum nos roteiros atuais de Hollywood é que as regras estipuladas pelo roteiro não são respeitadas pelo próprio roteirista (vide “A origem”, “O motoqueiro fantasma” e outros).

Haneke é uma grande influência para mim porque ele sabe organizar uma narrativa como poucos. Sua consciência de que cada pequeno elemento (incluindo o próprio ferramental cinematográfico, como a presença da câmera, por exemplo) é representativo no discurso, e como ele os controla com mão firme, é admirável. Em “Amor”, fica mais uma vez patente sua destreza com a narrativa: apesar de ser um filme mais “comedido” dentro de sua carreira, a montagem (com algumas das elipses temporais mais bem colocadas que eu já vi), a banda sonora, a fotografia, a direção de arte, as atuações, tudo é parte do preciso desenho de sua trama. Em especial, sua condução precisa de qualquer dado narrativo e dramático.

Um exemplo dessa maestria: um dos temas que ele revelou interesse em abordar nesse filme é o fato de que a vida de alguém próximo da morte se passa em um espaço bastante delimitado, entre quatro paredes. Se fosse um autor ruim, provavelmente lançaria mão de um expediente comum para expressar essa ideia: um personagem a falaria em alto e bom som. Ou seja, teríamos uma cena em que um personagem diria (não sem antes soltar um belo suspiro e deixar claro ser um momento e uma fala “especiais”): “A vida de alguém próximo da morte é entre quatro paredes”. Um autor bem ruim colocaria na história essa mesma cena e essa mesma fala, mesmo após ter criado várias outras situações nas quais os idosos aparecem fora de casa, sem se importar com (ou mesmo perceber) a contradição. Quando se trata do comportamento de personagens, não são raros os exemplos de ações contraditórias.  Haneke, obviamente um bom autor, expressa o tema com um trabalho sutil na narrativa: a história se inicia em um ambiente externo (um teatro); depois dessa primeira cena, o casal de idosos volta para casa e nunca mais os vemos fora dela (apesar das idas ao hospital ou das saídas do marido, que – voilà – não são mostradas). Isso cria o contraste preciso entre a vida (com atividades externas) antes do derrame da esposa, e depois (com a proximidade da morte, a clausura).

A progressão narrativa é outro ponto forte. Pense: o argumento é de que há um casal de idosos, e que a esposa fica inválida por conta de um derrame. Portanto há as dificuldades (emocionais e práticas) do marido em lidar com isso. Em que ponto da história deveria acontecer esse derrame? Se a mulher for devastada por ele (perder a fala, os movimentos, etc.) logo no começo, muitas cenas interessantes poderiam ter sido geradas, mas a empatia do espectador com a senhora ainda não teria amadurecido a ponto de se criar muita comoção. Seria praticamente como acompanhar uma estranha deixar de ser o que era (e nem saberíamos direito como ela era). Provavelmente não funcionaria tão bem. Uma solução possível para isso seriam os famosos flashbacks, mas vamos lá: dá pra fazer melhor do que isso. Outra solução narrativa poderia ser deixar o derrame mais para o meio ou final do filme. Isso forneceria tempo suficiente para criar a devida empatia, mas por outro lado, excluiria vários elementos interessantes do filme (como a repetição exasperante dos cuidados), além de possivelmente transformá-lo numa daquelas histórias que parecem duas-em-uma: um filme metade sobre o casal bem, metade sobre um casal que tem a mulher doente. Não existem regras, claro, e todos esses “contra-exemplos” que cito poderiam ter sido bem trabalhados (como, por exemplo, em “Psicose”, do Hitchcock, um caso raro de morte da protagonista no meio do filme), mas convenhamos: não é nada mal ver uma obra em que a narrativa é tão bem acabada em todos os detalhes. É como olhar para uma escultura de Michelangelo e perceber que cada detalhe – mesmo um pedaço do cabelo – revela uma busca intensa pela perfeição. Haneke opta por dois derrames, um mais leve e outro mais avassalador adiante. Pronto: tem o melhor dos dois mundos às mãos.

Outra característica do cineasta que sempre me serviu de norte é a de conseguir tratar temas difíceis, chocantes até, de forma a não parecer sensacionalista. Não foram poucas as vezes em que me perguntei – como um critério de auto-crítica – o que Haneke faria com a história que eu pretendia escrever. Não se trata de copiá-lo, mas de percebê-lo como um referencial do padrão de qualidade que almejo. Não há ninguém tão bom em cortar exageros, sentimentalismo e sensacionalismo como ele, e acredito que isso é imprescindível pro tipo de história que, em geral, quero contar. Em “Amor” essa sua característica se revela principalmente no ápice do filme, e a cena que poderia ser uma afronta ou parecer uma tentativa imatura de simplesmente chocar o espectador – como vemos aos montes por aí – se prova, através de toda a construção, lógica e até mesmo esperada. Ele consegue mover nos espectadores, em geral, não o asco, mas a compreensão. Pra mim, esse é um de seus grandes méritos: a construção narrativa é extremamente meticulosa, não a fim de virtuosismo, ou de que renda frutos nos papos intelectuais apenas, mas também de criar uma história, acima de tudo, que comova. No sentido de “mover junto”.

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