Sobre a FliPipa e, em especial, sobre Sérgio Sant’Anna.

Nessa última semana, entre os dias 22 a 24 de novembro, participei da FliPipa, o Festival Literário da Pipa. Pra quem não conhece, Pipa é uma praia perto de Natal – RN. Se tem duas coisas que eu queria sempre ter na minha vida são praia e literatura, então vocês podem presumir o quão contente eu estava de ter sido convidado.

Além disso, há outra coisa muito importante nesses eventos, que são os escritores com quem você trava contato. Nesta FliPipa não foi diferente, e a programação estava recheadíssima de autores interessantes: Zuenir Ventura, Antônio Cícero, Sérgio Sant’Anna, Reinaldo Moraes, Tatiana Salem Levy, João Paulo Cuenca e outros. Claro que a grande ausência sentida foi a de Luís Fernando Veríssimo, programado para o encerramento do Festival, mas que, hospitalizado por problemas de saúde, não pôde ir. Felizmente, as notícias têm sido cada vez melhores e parece que logo, logo, teremos nosso querido escritor de volta à ativa.

Antes de mais nada, quero agradecer muito ao pessoal da organização da FliPipa, especialmente ao Dácio e à Candinha, pela atenção e pelo tratamento excelentes. Também agradeço, claro, ao pessoal do SESC, que, como sempre, foi um enorme e agradabilíssimo apoio. Um agradecimento e um abraço especial ao Daniel, ao Laumir e à Flávia, por tudo.

Se eu ficar me estendendo muito sobre o quão espetacular era o hotel em que nos hospedaram, quão maravilhosa era a praia e tudo o mais, isso aqui vai ficar parecendo a revista Caras, então, vou logo falar do evento.

 

Vista do hotel. Ao fundo, fica a Praia de Pipa.

Vista do hotel. Ao fundo, fica a Praia de Pipa.

O Festival está na IV edição, é razoavelmente novo, mas já dá pra ver que tem tudo para se tornar de grande importância no circuito. A programação, como já falei, foi excelente, além da presença massiva do público e de vários eventos legais demais. O Cuenca disse em sua Mesa que havia se auto-convidado para o evento; não duvido que cada vez mais autores vão fazer isso (eu mesmo já vou me auto-convidar para os próximos rs….). As Mesas foram todas acompanhadas com entusiasmo, a imprensa local deu bastante atenção ao evento (matérias sobre o evento e sobre este que vos fala podem ser vistas aqui, aqui e aqui), e eu achei muito legal o destaque que eles dão à cultura local. Quase todas as Mesas tinham um potiguar como participante, e várias apresentações incluíam artistas locais. Espero que essa tradição nunca se perca.

FliPipa

A fachada da Tenda Literária (clique para ampliar)

 

 

Sobre Sérgio Sant’Anna

Os escritores ficaram todos hospedados no mesmo hotel, o que foi muito legal. Pude conhecer de perto o Zuenir Ventura, o Antônio Cícero e, claro, o Sérgio Sant’Anna. Eu ainda não aprendi totalmente como lidar com esse tipo de situação: nunca sei se devo abordar – e como – os caras em um contexto informal. Tenho vontade de dar aquela tietada, já que sempre os admirei muito, mas por outro lado estou longe de ser daqueles que pensam que a pessoa pública tem a obrigação de atender a todos que querem falar com ela. Acho que público é o trabalho da pessoa, não ela em si, e não me sinto no direito de interromper o café-da-manhã do cara pra ele tirar foto comigo.

Mas o fato é que todos eles foram de uma gentileza e de uma acessibilidade incrível. Não sei se é só pela idade e a tranquilidade inerentes, mas tenho impressão de que realmente o cavalheirismo desses escritores é algo que talvez tenha se perdido nas nossas gerações. O meu embaraço em conversar com eles foi totalmente compensado por uma gentileza notável em dialogar comigo. O próprio Zuenir veio me cumprimentar, dizendo não termos sido apresentados. Pra você ver… eu com medo de chegar nele e incomodar, e ele – que, obviamente, dispensava qualquer apresentação – nesse gesto de extrema elegância.

Agora, falando de fato do Sérgio Sant’Anna. Vi-o pela primeira vez no hotel, e claro, precisei pensar umas três vezes antes de abordá-lo. Como ia dividir a Mesa com ele, me senti um pouco mais seguro para me apresentar, afinal íamos “trabalhar” juntos. Ele foi outro que me espantou por sua gentileza e seu trato. Pouco depois, dei a ele um exemplar de meu livro, que ele não só leu um conto, como também o elogiou em uma entrevista na TV e na própria Mesa (você pode ver o vídeo da entrevista aqui).

Ele é um escritor que admiro muito, principalmente por ter feito uma carreira mais calcada em contos, esse gênero infeliz e estupidamente ainda pouco valorizado na literatura brasileira. Dividir a Mesa com ele seria uma honra e uma alegria, mas claro que eu estava um pouco intimidado.

Parte de meu “medo” era que seríamos só nós dois na Mesa, sem um mediador. Quando há um, ele faz as perguntas, e quando não há, a fluidez do diálogo fica totalmente nas nossas mãos. Eu não sou muito bom de conversa, então deixei várias perguntas preparadas para fazer ao Sérgio, no caso da coisa murchar. Conhecendo-o no hotel, vi que, apesar de sua simpatia e acessibilidade, ele não era de muitas palavras. Apesar de muito empolgado com o evento, ficava cada vez mais preocupado se eu ia dar conta ou não.

Outra coisa entra na equação: além do fato de ele ser um escritor experiente e celebrado, e eu um humilde estreante – um ilustre desconhecido, pra usar a expressão – a Mesa tinha como título “Narrativas de amor e arte”, que é o subtítulo do “Livro de Praga” dele. Claro que estava muito claro: todo mundo (incluindo a mim) estava muito mais interessado em ouvir ele falando do que eu. O que me deixava mais preocupado: eu teria talvez o papel de “entrevistador” – nem preciso dizer o quão “bom” nisso eu sou.

Na Mesa, no entanto, tudo se resolveu da melhor maneira possível. O Sérgio, que preferiu “deixar a coisa rolar na hora” (para minha maior preocupação rs…) saiu falando sobre seu livro, comentando sobre cada uma das narrativas e sobre o processo de criação, em uma fala que já teria deixado todo mundo satisfeito e contente, mesmo que tivesse sido a única da noite. Sem saber, ele já respondeu sozinho várias das perguntas que eu faria, e muitas que eu não faria e deveria fazer. Foi um prazer enorme ouvi-lo, foi uma verdadeira aula.

Qual não foi minha surpresa quando ele, sob aplausos, passou a bola pra mim, anunciando que eu iria falar do meu livro. Eu, ainda um pouco deslumbrado, e ainda sedento por ouvir mais dele, falei um pouco do meu “Réveillon”, tentando não consumir muito tempo da Mesa, logo passando a bola de volta pra ele, com um pergunta minha. Ele respondeu prontamente e emendou: “Mas fale mais de seu livro, que você está fugindo de falar dele”.

Eu tentei refrear um pouco meu nervosismo e resolvi seguir os passos dele, comentando um pouco de cada um dos contos. Pelos comentários que ouvi depois, parece que fomos bem. Ele, é claro, era certeza de sucesso, mas fiquei feliz de ter feito jus (ou o melhor que poderia ter feito) pra que a Mesa rendesse o quanto merecia. Acho que meu nervosismo passou meio despercebido, felizmente.

Quis contar isso aqui porque acho essa história um grande exemplo. Sérgio Sant’Anna me ensinou muitas coisas, algumas ele nem imagina. Além de seu cuidado com a escrita, seu respeito pela literatura e pelo leitor; a sua atitude com relação ao evento e a mim como autor foram excepcionais. Sinto que ele teve muito mais classe e respeito pelo nosso espaço ali do que eu – em minha exaltação – consegui ter. Eu tenho certeza de que ele poderia ter “dominado” a conversa, e todos ficaríamos felizes, mas ele fez questão de dividir bem as coisas. Não se trata de humildade, se trata de alguma outra coisa que não tem um nome exato – talvez respeito, mas não motivado por regras de conduta. Essa coisa, que não tem uma palavra específica para designá-la, Sérgio (e em grande parte os outros autores que citei, mas em especial ele) me ensinaram muito nesse evento. Sem precisar usar nenhuma palavra pra isso, claro.

Foi absolutamente inesquecível. Um privilégio difícil de descrever. Muito obrigado a todos que participaram.

Eu e Sérgio Sant'Anna na Mesa "Narrativas de amor e arte"

Eu e Sérgio Sant’Anna na Mesa “Narrativas de amor e arte”

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