Sobre o processo criativo

Se tem uma pergunta que é campeã absoluta de audiência, feita em quase todos os eventos, entrevistas e afins, é a seguinte: “Como funciona seu processo criativo?”

Provavelmente é uma das perguntas mais difíceis de se responder. Quem trabalha com criação sabe que o processo envolve um montão de coisas – mais ou menos “catalogáveis” – e quem não trabalha ou não se dedica a esse tipo de atividade… bem, pra essas pessoas, a criação às vezes parece permanecer o mais inexplicável dos mistérios.

Resolvi escrever esse tópico pra ver se consigo esclarecer algumas partes dessa grande equação. Não há uma receita, claro (se você perguntar sobre isso pra dez escritores diferentes, em dez dias diferentes, você provavelmente vai ter algo perto de cem respostas diferentes), mas talvez haja algumas coisas que possam nos ajudar a compreender um pouco mais do que acontece quando quem leva a criação a sério se depara com o desafio. Vamos lá.

De onde você tira as ideias pras histórias?

Esse é o primeiro ponto que é legal a gente tentar esclarecer. Primeiro: uma história não é feita de uma ideia, mas de várias. Mesmo em um conto, com sua estrutura mais simples e direta, você tem dezenas ou centenas de elementos em conta. Você pode ter uma ideia curiosa para o argumento; por exemplo: um cara que inventa uma lâmpada que nunca queima (pra citar um conto meu). Mas uma ideiazinha só não faz verão. Agora restam muitas perguntas a serem respondidas: Quem é esse cara? O que ele vai fazer com essa lâmpada? Onde isso vai parar? A partir de que momento dessa história eu vou fazer meu recorte?

Grande parte de construir uma história se trata de se fazer perguntas e tentar dar as melhores respostas pra elas, sabendo que, dependendo da resposta que você se dá, elas conduzirão a história em diferentes direções. É como estar em uma sala com três portas e escolher por qual delas entrar. Uma vez que você atravessou por uma das portas, você cai em outra sala, com outras três portas, e assim por diante. Nunca dá pra saber onde todas as outras escolhas teriam te levado (e não é assim a vida?), então como saber se você está tomando o melhor caminho? Não dá pra ter certeza; mas se suas escolhas te derem um tesão danado na hora de escrever, você provavelmente está indo bem.

É melhor planejar toda a história antes de começar a escrever, ou ir criando conforme se avança no enredo?

Isso depende muito de como você funciona melhor, e da proposta em que está trabalhando. Sinceramente, eu acho que a coisa nunca fica 100% de um lado ou de outro. Mesmo que você elabore toda a estrutura do seu texto, durante a escrita efetiva provavelmente surgirão surpresas ou novos elementos que mudarão um pouco seus planos. E mesmo dentro da escrita mais “espontânea”, há sempre uma certa noção de pra onde se vai.

Novamente, creio que a coisa se trate de se fazer perguntas e respondê-las. Quantas delas você se faz e responde antes de começar a escrever, e quantas delas “surgem” e são respondidas durante a escrita. Pensar sobre sua história antes de escrevê-la pode ajudá-lo a ter um norte, um posicionamento sobre a história que quer contar. No conto desse exemplo, eu já sabia que queria refletir um pouco sobre o capitalismo selvagem, então era importante que a fábrica recusasse a lâmpada, colocando interesse comerciais acima do que poderia ser um benefício coletivo. Pensar sobre a história é algo que pode ser feito durante uma viagem, um banho, uma aula chata, etc. Aliás, dificilmente alguém que cria não está pensando em seu trabalho. Eu penso nas minhas histórias quase o tempo todo. Na minha cabeça, os personagens passam por centenas de situações diferentes, antes de eu decidir quais vão acabar no papel. Observo os meus temas por tudo o que é prisma, a fim de ver como eles podem funcionar melhor.

Além disso, há as decisões no “macro-universo” (o enredo, a proposta, etc.) e no “micro” também. Não se trata só de O QUE escrever, mas também (e talvez principalmente) de COMO escrever. Na vida cotidiana, há muitos jeitos de se dizer a mesma coisa. Na literatura, em geral, se você diz uma coisa de outro jeito, você está dizendo outra coisa.

Ok, é preciso trabalhar na construção do texto; mas e a ideia inicial, de onde vem a inspiração?

Esquece isso. Esse papo de inspiração é um equívoco total. Pensar que uma ideia “cai” nos nossos braços, como se enviada pelos deuses ou pelas musas, é um erro. Se fosse assim, qualquer pessoa, inclusive eu, poderia ter uma inspiração de como curar o câncer. Eu nunca vou ter essa inspiração, sabe por quê? Porque eu não faço a menor ideia de como as células funcionam, de como a doença se desenvolve e de como os tratamentos em estudo agem sobre isso tudo.

O que às vezes parece uma inspiração mágica, nada mais é do que a influência mútua entre ideias que você já tem no cérebro, e que se cruzam, se fundem, se transformam e originam coisas “novas”. Talvez um pesquisador tenha uma “luz” e se depare subitamente com a cura pro câncer, mas isso só acontecerá porque ele já tem diversas ideias sobre o assunto na cabeça, e de repente algumas delas se cruzam de forma inesperada e soltam suas faíscas.

Com a criação é a mesma coisa. Nós criamos com a junção de tudo o que conhecemos e a transformação disso em algo diferente. Todos nós temos esse potencial, porque ao contrário das células e substâncias envolvidas na tal doença, as histórias fazem parte do nosso cotidiano. Todos assistimos filmes, ouvimos letras de música, lemos gibis, livros, etc. Não sabemos nada de replicação de DNA, mas sabemos que é esperado que o bandido se dê mal no final, que haja um casal protagonista e que eles fiquem juntos, etc. etc.

Claro que se você quer escrever algo diferente disso (por favor!), você precisa conhecer coisas diferentes. Entrar em contato com novos usos da narrativa, de personagens, novas possibilidades de construção, novas poéticas, etc. Pra isso, só tem um jeito: assistir muitos filmes, ler muitos livros, conhecer sobre as outras artes, sobre as ciências, etc. etc. Adquirir repertório! Isso talvez seja a coisa mais importante do processo criativo. É seu ferramental. Você precisa acrescentar novas tintas à sua paleta.

A formação do repertório também é importante pra você melhorar sua visão de mundo. Saber que um gesto de uma pessoa (ou personagem) pode significar centenas de coisas diferentes, e que cada uma delas pode ser contada de outras centenas de jeitos. Além disso, sempre é bom você ter noções sobre a vida que extrapolem o “amor supera tudo” das telenovelas, e o “coisas boas acontecem para as pessoas boas” dos livros de auto-ajuda e das frases de facebook.

E como saber se minha ideia é boa, ou se o texto final está bom?

Dificilmente você vai conseguir ter certeza absoluta. Mesmo os grandes artistas frequentemente expressavam dúvida com relação ao que tinham realizado. A dúvida é uma coisa boa, por um lado. Se você sempre tiver certeza de que seu trabalho está ótimo, significa que ele não poderá melhorar (pelo menos não nas suas mãos), e que você provavelmente está sendo pedante.

A primeira dica é: seja seu grande crítico. O mais impiedoso. Procure os buracos no seu texto, isso vai te ajudar a deixar o texto com menos falhas. Não dê desculpas para si mesmo. Você não ganha nada (a não ser conforto) se ao invés de consertar as fraquezas de seu texto, ficar dando nomes bonitos a elas. Se você não for indulgente com seu texto, você vai obrigá-lo a crescer e melhorar. Quer dizer, vai obrigar-se a crescer e melhorar.

A primeira coisa é tentar imaginar-se como outra pessoa. Você leria o que acabou de escrever? Ia achar interessante? Comprar o livro e recomendar pros seus amigos? Todo autor, principalmente no começo, tem um problema: ele conhece a história que quer contar como um todo. A transmissão dessa história deve ser uma preocupação também; o leitor não sabe o que se passa na sua cabeça, só o que se passa no seu texto.

Mostre o que escreveu pra várias pessoas. Não acredite em todos os elogios… são seus amigos e parentes, claro que vão te elogiar. Mas tente enxergar por trás das palavras, tente ver nas atitudes. Mesmo aí pode haver uma vontade de te agradar simplesmente (provavelmente haverá), mas já é algo um pouco diferente. Ah, e dê uma domada no seu ego e nas suas emoções. O mundo não está necessitado que você o salve de sua ignorância.

E o processo na prática? Deve-se marcar um horário para se escrever todos os dias?

Como eu disse antes, em geral, a gente pensa nas histórias o tempo todo. Isso pode ser considerado parte do processo de escrita? Sim e não. Não é “escrever” de fato, mas muitas das respostas eu obtive nesses momentos, depois era só sentar e transcrever o que pensei em alguns minutos.

É bem difícil manter uma rotina (embora muita gente consiga e recomende), mas acho que o principal é saber que escrever é um esforço também. Não espere e não fique sujeito ao “quando bate a inspiração”. Você provavelmente vai perder muito tempo à toa assim, e ainda ficar sujeito a ideias primárias, básicas demais. As primeiras ideias, em geral, nunca são grande coisa. Não tenha medo de jogá-las fora, ou ao menos tentar escavar ao máximo, pra ver até onde elas vão.

Outra coisa: a criatividade não é uma força mística. É como um músculo, você tem que exercitar. Quanto mais você o fizer, mais eficiente vai ficar (eficiência aqui não significa “resolver rapidamente”). Você pode influir em parte do processo. Mesmo sem ideia nenhuma, se você sentar na cadeira e se esforçar, vai conseguir afinar sua escrita. Aí é achar seu ritmo.

Alguma última dica?

Leia muito. Mas não adianta aquele papo de “ah, eu leio até bula de remédio”. Leia observando as construções narrativas e estéticas. Isso é a grande escola; nunca vi nenhum autor falando o contrário. Pelo menos, nenhum autor que valesse a pena levar a sério.

Você pode fazer oficinas, cursos e ler métodos também. Todos provavelmente vão lhe dizer que é preciso ler muito, mas também vão ajudar a direcionar suas leituras, a melhorar sua análise, além de te cobrar produção.

 Se você teve paciência de ler até aqui, agradeço muito e já adianto que em breve esse blog vai ter novas seções, que também poderão ajudar nesse quesito. A primeira é “A história por trás da história”, em que vou falar um pouco sobre o processo criativo de cada um dos contos do meu livro (cada um foi de um jeito); e a outra é a “Com a palavra”, em que vou entrevistar outros escritores, e tentar conversar um pouco com eles sobre esse tema.

Abraços!

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2 comentários sobre “Sobre o processo criativo

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